• Domingo, 21 de Outubro de 2018
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Uma fazenda autossustentável

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Uma fazenda autossustentável

José Alberto Paiffer Menk fala da sustentabilidade da Fazenda Santo Antonio e sobre a atual situação dos produtores rurais perante a política local

Nos últimos anos, muitos produtores rurais vêm deixando suas raízes e se mudando para a cidade, no chamado êxodo rural. No entanto, muitos deles ainda acreditam na força do agronegócio e continuam investindo pesado nessa área. O Laticínios Milk Menk é um exemplo disso. Atualmente, a empresa está sob a responsabilidade de José Alberto Paifer Menk, conhecido como Mumu, mas a empresa nasceu pelas mãos de seu pai, Antonio Menk, quando comprou as terras em 1961. Neste período, ele já era produtor de leite e sócio nº 428 da COLASO (Cooperativa de Laticínios de Sorocaba).

Nestes 55 anos, a Fazenda Santo Antonio, situada no bairro Avecuia do Alto, se tornou referência em excelência de Laticínios com sua Usina de Beneficiamento. Para isso, foi preciso muitos investimentos e, hoje, a fazenda é totalmente autossustentável, produzindo todos os insumos para a manutenção e produção do gado, como capim, milho, soja e cilagem de grão úmido. “Compro apenas os medicamentos e alguns insumos como sal mineral para complementar a alimentação, o resto é tudo daqui”, revela Mumu.

A fazenda tem 78 alqueires e é totalmente voltada para a criação de gado leiteiro, insumos e produção de leite e derivados. “Desde as acomodações do gado confinado, com ambiente totalmente climatizado e sistema biodigestor, até o empacotamento do produto, as instalações contam com o que há de mais moderno para a obtenção do melhor produto. Aqui, as vacinas e todos os produtos necessários para os cuidados também só são aceitos os dos melhores laboratórios do mercado”, explica.



A fazenda cria o gado da raça Girolando, com matrizes premiadas e o Holandês. “Temos 430 cabeças de gados, entre essas duas raças e cada uma delas tem sua vantagem. O Holandês, por exemplo, rende mais no confinamento. No entanto, o Girolando é um gado muito rústico e para o pasto não tem melhor que ele, porque suporta mais as alterações climáticas e pasto seco, por causa do Zebu que tem no seu sangue”.

Toda essa preocupação com a produção e qualidade dos seus produtos, garantiu à empresa certificação para fornecer seus produtos para grandes redes de restaurantes. “O resultado são produtos da alta qualidade. Quem prova sabe disso, tanto que somos os principais fornecedores de matéria-prima láctea para o Grupo Fasano, um dos mais requintados e sofisticados complexos gastronômicos do Brasil”, esclarece.

Sistema Biodigestor

É uma tecnologia que acelera o processo de decomposição da matéria orgânica. A decomposição da matéria orgânica é um processo bioquímico realizado por milhares de bactérias que transformam a matéria orgânica em gases, que alimentam as caldeiras e biofertilizantes que são utilizados na irrigação da lavoura. “Os dejetos dos animais confinados são empurrados para uma valeta, mantendo sempre o espaço confinado limpo de excremento animal. Os dejetos vão para o liquidificador, onde passam por uma peneira que separa as fibras longas. O esterco sai seco, já como adubo e o líquido é enviado para o biodigestor, onde sofre o processo de decomposição. Este processo gera o gás metano que é utilizado nas caldeira, que alimentam a energia das máquinas para a pasteurização do leite e produção dos derivados”, resume o produtor.


Infográfico: Nilson Araujo

Mumu e a política

Além do latícinio, Mumu também já fez parte da política local, quando foi eleito vereador de 2005 a 2008. Após esse mandato, ele até pensou em se candidatar a prefeito, mas desistiu da ideia. Para Mumu, os governantes confundem progresso com qualidade de vida. “Não sou contra a vinda de indústrias, mas não é enchendo a cidade delas e abrindo loteamentos em todo canto que você melhora a qualidade de vida do cidadão. Muitas vezes piora, porque dependendo da indústria que vem, a cidade não tem mão-de-obra para ocupar as vagas e a indústria vai buscar esse profissional lá fora, inchando a cidade e não melhorando o índice de emprego local. O desempregado continua desempregado e, para piorar, com essa vinda de novas famílias, vai faltar vaga nas creches, nas escolas e sobrecarregar a Saúde”. E complementa: “é de extrema importância que a cidade traga indústrias que contribuam com o município, não só na saúde, mas na educação e segurança, tudo isso para que seus funcionários, e também moradores da cidade, tenham melhoras na qualidade de vida”.

Sua experiência na política fez com que desistisse de participar mais assiduamente nas decisões de ordem legislativa, porém, Mumu continua, através do Conselho Rural, a analisar as tomadas de decisões do Executivo e Legislativo. “Fizeram uma lei municipal que permitia que empresários loteassem nossa zona rural com terrenos de 250m². O projeto foi aprovado e foi preciso que fossemos lá e fazer a lei ser revogada”, destaca. “Uma pessoa que cria uma armadilha dessas para a cidade não está comprometida com a cidade”, desabafa.

Mumu também lamenta o fato do potencial turístico e agrícola local não ser explorado como deveria. “Porto Feliz foi uma das quatro cidades a representar os 500 anos de Brasil, tamanha representatividade que o município tem no desenvolvimento do país e, no entanto, entra prefeito, sai prefeito, e ninguém faz nada para alavancar esta força”.

Para ele, o agronegócio em Porto Feliz está contaminado pelo boom imobiliário e todo pequeno e médio produtor estão de olho se alguém quer comprar suas terras. “Tem muita gente vendendo terras em Porto Feliz e comprando mais barato em outros municípios porque a cidade não incentiva a produção aqui”, informa.

Mumu explica que Porto Feliz fica no meio de um triângulo de grandes centros urbanos e se tivesse um trabalho de extensão rural, incentivo para o produtor, seria o pulmão destes centros metropolitanos. “Enquanto isso, o produtor anda patinando, numa situação miserável porque a expectativa da especulação imobiliária tira a visão dos governantes quanto à importância da agricultura local. Um loteamento nasce no meio do mato, do lado de um grande produtor e depois, os moradores deste condomínio na zona rural começam a reclamar do cheiro do esterco de galinha do lado de suas mansões. Aí a prefeitura vai lá e cria um monte de normas, dificultando a produção da empresa por causa de um loteamento que foi instalado no passado sem a preocupação com o meio ambiente. Aí o produtor, desmotivado, começa a parar de produzir aqui e vai para outras cidades”.

Mumu destaca que não é contra os loteamentos, mas diz que é preciso crescer com infraestrutura e planejamento, de modo que o produtor não se sinta desmotivado ou coagido a deixar suas terras. “É preciso respeitar o produtor rural, porque lá na frente, este condomínio vai ter problemas com o vizinho que é um produtor e que começa a labuta muito cedo, liga suas máquinas de madrugada e vai incomodar os moradores que não têm culpa nenhuma pela falta de planejamento e visão de quem aprovou a expansão”.

Quanto ao Conselho Rural, Mumu revela que se o conselho tivesse um representante de cada área do setor rural empenhado em fazer valer a voz do conselho, algumas decisões poderiam ser revistas. “Sou plenamente favorável em transformar o conselho rural de consultivo para deliberativo, mas acredito que seja inconstitucional. Conselho deliberativo existe numa empresa, numa cooperativa, mas no setor público eu nunca vi. Mas acho a ideia excelente, se o conselho tivesse um representante de cada área do setor rural, que não fosse vitalício, há cada três anos indicasse novos representantes, ver se eles atendem as exigências, se organizar e fazer valer a sua voz, não precisaria ter que mandar para ser feito, poderia ter a opinião respeitada”, destaca.

E simplifica: “Acho que a partir do momento que um conselho entrega uma análise e diz que tal obra, num parecer técnico não poderia ser implantada em determinada parte da zona rural, o Executivo deveria respeitar isso. Se isso não ocorre, não tem porque o conselho existir. O mesmo vale para um Plano Diretor, se ele é ignorado e muitas irregularidades ocorrem confrontando-o, não tem porque ele existir. Daí a necessidade de se respeitar, do contrário, o crescimento é sem planejamento,” finaliza.

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