• Domingo, 21 de Outubro de 2018
  • Porto Feliz - Bom dia

Transformando sonhos em ouro

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Transformando sonhos em ouro

A vida tem muitas reviravoltas e em uma delas você pode acabar se encontrando. Foi assim que aconteceu com José Luis Ribaldo, empresário e proprietário da Carobi e Exia Acessórios. Inicialmente, seu sonho era ser geólogo, mas ao não passar no vestibular, trocou por Odontologia. Logo ao ingressar na faculdade em São Paulo, seu pai faleceu e precisando ajudar sua família, decidiu largar a faculdade e trabalhar. Conseguiu um emprego como vendedor de produtos químicos e após algum tempo viu uma oportunidade de montar sua própria empresa de venda de produtos e processos para galvanoplastia e galvanização em Porto Feliz (CAROBI), seguindo em uma direção totalmente diferente da qual tinha escolhido. No entanto, esse caminho mostrou ser o certo e, hoje, 30 anos após, Preto, como é conhecido ampliou sua rede e abriu um novo escopo, o de fabricação de bijuterias eletroformadas em um novo galpão construído, trouxe a tecnologia em uma visita na Itália, tem a marca EXIA ACESSÓRIOS, destaque nas principais mídias da moda.
Nesta entrevista, confira um pouco da história deste empresário porto-felicenses, dos desafios enfrentados pela sua empresa e do que ele espera para o futuro.

Você é gente de quem?
Minha família, por parte de mãe, é de Capivari e, por parte de pai, de Americana. Meu pai era jogador profissional de futebol e minha mãe veio trabalhar na Fábrica Mãe dos Homens, se conheceram em Porto Feliz e aqui se estabeleceram. Nasci e fui criado aqui, junto com meus irmãos. Meu pai se chamava Antonio Ribaldo e minha mãe, Adélia Destro Ribaldo. Hoje, ela está com 87 anos.

De onde vem o apelido Preto?
Minha tia, Odila Destro, mais conhecida como Nena, me deu este apelido, pois eu era o único na família que tinha o cabelo muito preto e ela achou que eu seria o pretinho da casa. Aí pegou e, em Porto Feliz, a gente tem este problema: somos mais conhecidos pelo apelido do que pelo nome (risos).

Conte-nos um pouco sobre sua infância.
Tive uma infância bem tranquila. Porto Feliz era uma cidade de 16 mil habitantes, tinha o centro, um pouco do bairro do Bambu e a Vila Progresso era onde terminava a cidade. Estudei no Coronel Esmédio, neste ano foi a inauguração do novo prédio que Carvalho Pinto construiu em 1966, fiz parte da primeira turma, antes era no prédio do museu, onde fiz o primário. Depois fiz o ginasial e colegial na escola Monsenhor Seckler e fui para São Paulo completar os estudos.

O que foi estudar em São Paulo?
Fui para estudar geologia, fiquei duas vezes na reserva da USP, antigamente só tinha a USP, com 50 vagas. No primeiro ano que prestei, em 1976, fiquei em 52º e eram 50 vagas. Na segunda vez, fiquei em 53º. Gostava da geografia, de assuntos relacionados e queria ser geólogo, por gosto mesmo, não por haver alguém na família ou conhecido que tivesse sido. Naquela época estava começando a Petrobrás e eu já vislumbrava um futuro nesta área. Infelizmente, ou felizmente, não sei, não consegui.

Você também queria ser dentista. Como foi?
No ano seguinte, conversando com um grande amigo, o Durval Coan, que morava junto com a gente em São Paulo, ele me falou para tentar odontologia. Eu fiquei amadurecendo a ideia na cabeça e, neste período, também conversei com um geólogo que conheci na Sabesp, onde eu trabalhava para bancar a vida em São Paulo, que, por coincidência do destino, viemos a fazer um trabalho juntos dentro da empresa e eu percebi que a vida dele era bem difícil. Ele ficava muito no Amazonas, já tinha contraído malária... isso me tirou em definitivo da cabeça a ideia de ser geólogo.

Se formou em odontologia?
Não. Prestei o vestibular, entrei na USP. Mas, o homem que me dava um grande suporte na vida, o meu pai, veio a falecer, em 78, e eu tive que desistir da faculdade. Como os estudos eram em tempo integral, não tive escolha, tive que trabalhar. Nesta época, por intermédio de um amigo que também morava na república, irmão do José Antonio Barnabé, o famoso Fubá da Vila Progresso, consegui um emprego em uma empresa americana que tinha se instalado no Brasil e estava contratando vendedores para produtos químicos, no setor de galvanoplastia, que é o tratamento de superfície de peças. Mas a empresa queria que eu representasse o Paraná e Santa Catarina e o curso de odontologia era em São Paulo. Não fui nem trancar a matrícula, saí da faculdade.

Como lidou com isso?
Nesta época, éramos em quatro irmãos e, como os dois mais velhos já eram casados, com o falecimento do meu pai, minha mãe passou a ficar mais dependente de mim. Diante de uma situação dessas, você tem que tomar a atitude mais correta, foi assim que meu pai me ensinou. Então, foquei no trabalho, até mesmo porque a chance de crescimento era bem grande pelo suporte que a empresa me dava para representar dois estados que não tinham o produto ainda. Então, fui morar no Sul, onde fiquei, praticamente, por um ano trabalhando.

O que fez depois?
A empresa me trouxe para São Paulo, novamente, onde me pediram para representar o interior e foi neste período que conheci a Marlene, namoramos e nos casamos. No dia que eu voltei para Porto Feliz, a conheci numa Festa de Agosto e estamos até hoje juntos.

E o sonho da faculdade, o perseguia ou conseguiu virar a página?
A empresa que eu trabalhava me mostrou um mundo que eu também gostava, que era a Química. O dono da empresa, quando vinha ao Brasil, era eu quem ficava mais tempo atendendo seus pedidos, com isso, foram me passando cursos, me profissionalizando cada vez mais na área, fui lapidado de tal forma que nenhum sonho que deixei para trás me atormentava mais.

Qaundo montou o próprio negócio?
Quando eu trabalhava na Sabesp, na época em que morava em São Paulo, eu já pensava em ter o próprio negócio. Neste período, meu pai tinha uma empresa de transporte de bagaço de cana e eu queria ser como ele, ter o meu próprio negócio. Não nasci para ser empregado (risos), nada contra quem é, longe disso, mas eu queria liderar, estava no meu sangue. Depois, quando entrei nesta empresa americana, passei a ter acesso às formulações, os produtos eram todos importados e somente as grandes empresas eram quem detinham o poder de compra destes produtos. Juntei uma reserva, encontrei um sócio já dirigindo, ou seja, ou eu comprava ou vendia para ele. Montamos uma empresa em São Paulo, na Freguesia do Ó, um ano depois, comprei a parte dele e transferi a empresa para Porto Feliz, onde eu tinha uma casa. Isso foi em 1987. Em 1988, comprei um terreno no Jardim Vante, através do meu amigo Paulo Guerini, e montei a empresa lá.

Você foi o primeiro empresário a investir no Vante. Por que o Jardim Vante?
A ideia inicial era que lá seria um distrito industrial, justamente na Avenida Silvio Brand de Correia, sentido Capivari. Quando comprei não havia ainda o projeto de moradias residenciais. 


As empresas Carobi - Galvanoplastia e Exia Acessórios estão localizadas no Jardim Vante e é muito respeitada por todos do bairro

Sua empresa teve algum problema com essa mudança de comportamento demográfico, onde no lugar de um distrito industrial, o bairro se tornou praticamente uma outra cidade?
Na época em que Maffei era prefeito foi feito um decreto autorizando a minha área ser industrial, mas não tenho problema algum, claro que se fosse um distrito daria mais ênfase a nossa empresa e talvez novas indústrias poderiam ter se instalado lá, mas como a empresa já está instalada há mais de 25 anos nessa mesma área e os nossos clientes são a maioria de fora da cidade, hoje não vejo problema alguma em termos moradores como vizinhos. A Carobi é bem quista por todos aqui...

O que a empresa fazia?
Eu trabalhava com produtos de galvanoplastia, meu trabalho era montar e dar assistência técnica para as empresas, onde eu instalava as galvânicas, depois vendia os produtos para as mesmas. 

Como fez para a empresa se expandir neste segmento?
Com as novas leis ecológicas e ambientais, o que aconteceu? As empresas que trabalhavam com uma galvânica interna, que tinham o tratamento dentro da empresa, elas se contaminavam inteira, isso acabou se tornando caro para as empresas se manterem dentro das novas normas e começaram a terceirizar o serviço. Como eu já fornecia os produtos químicos para estas empresas, elas me procuraram e me incentivaram a montar uma empresa de galvanoplastia, e me enviavam as peças para tratar. Então, resolvi expandir a empresa com um setor de tratamento de superfície. Isso foi há 15 anos.

O que a empresa passou a fazer?
Cromeação de peças. Fazemos o cromo decorativo e o cromo duro. Com isso, passei a atender grandes empresas, como a Singer, a Jacuzi, que deixaram de ter este serviço internamente, justamente pelas normativas das novas leis ambientais e trabalhistas.

Quando a produção de jóias e semi-jóias passou a fazer parte do escopo da empresa?
Essa é uma outra história. Minhas filhas estavam se formando, a Carolina em Química e a Gabriela em Administração, então eu analisei o mercado e o futuro do setor. Na minha opinião, o serviço de tratamento de superfície é um trabalho que, num futuro não muito distante, será eliminado. Os produtos são muito perigosos, a estação de tratamento tem que estar sempre 100%, todo o serviço tem que estar rigorosamente em dia. Hoje você precisa contar com um engenheiro de segurança, um médico do trabalho, você é controlado constantemente por órgãos ambientais, são muitos quesitos que sufocam o setor. Com isso, analiso que não é mais um setor em expansão, o mercado não suporta mais o crescimento deste serviço, até mesmo por conta de novas tecnologias e novos tratamentos que vem surgindo como opção de substituição. Por exemplo, antigamente a empresa tinha que cromar todas as peças de um carro, hoje a maioria das peças estão sendo substituídas por outros materiais, como o plástico. Sendo assim, analisando o futuro para as minhas filhas, percebi que não havia expansão para elas, para mim está ótimo onde cheguei, mas elas precisavam enxergar crescimento, até mesmo para se manterem motivadas no trabalho. Foi quando começamos a estudar outro nicho de mercado.

E já partiram para a produção de jóias?
Neste meio tempo, conhecemos uns italianos em Campinas que nos disseram que, no Brasil, o trabalho de eletroformação, que era o que estávamos focando, só havia uma empresa que fazia, mas voltado para jóias. Como eu já conhecia a eletroformação, fui para a Itália, em 2007, e trouxe os maquinários para o Brasil. Começamos a trabalhar direto com ouro, a criar peças em ouro e prata. 

E quem desenhava as peças?
A Valquíria Lidenberg, uma designer de jóias de São Paulo, que tivemos que ir atrás também para começarmos a confeccionar as peças. Levei alguns modelos italianos para ela, pois os designers de jóias, nesta época, não entendiam bem o processo italiano. Começamos a trabalhar com a Manoel Bernardes, uma joalheria muito conceituada de Belo Horizonte, a Back Designer...

Como começou a fornecer para estas joalherias?
Mostrando o meu trabalho. Como eles compravam tudo da Itália, por não haver no Brasil, e eu já estava começando a produzir aqui, ficou dinâmico o processo. Começamos a produzir para eles e já estávamos em estudo com a H. Stern e a Vivara para produzirmos coleções para as mesmas. Então, a penitenciária se instalou bem do meu lado e todo projeto de trabalhar com ouro e prata foi pelo ralo.

A vinda da penitenciária em Porto Feliz te prejudicou?
Demais. Apesar de todos os esforços empenhados para que o presídio não se instalasse, sua vinda selou todo o empenho da empresa. Tivemos que pensar em outro tipo de produção, porque a questão da segurança havia acabado. Não estávamos mais seguros produzindo ouro e prata, sabendo que a alguns poucos quilômetros da empresa havia um presídio semi-aberto. Não dava para trabalhar com esta insegurança. Inclusive o dono da joalheria Manoel Bernardes, quando veio conhecer as instalações da empresa e viu o presídio, me advertiu: “pare já com este processo, você mata todo mundo aqui. Eles entram armados e levam tudo.” Isso me apavorou e montar uma estrutura de segurança onde estamos instalados, é inviável, pois encarece o produto final ao ponto de ficar mais barato para os compradores voltar a buscar na Itália.

Desistiu do ouro e da prata?
Este ano vamos ver com as joalherias para que possamos levar este projeto, junto com os maquinários italianos, num condomínio industrial com segurança, pois na beira da avenida, perto do presídio, não dá.

E a Exia, como surgiu?
Aplicamos toda a tecnologia nas bijuterias. A invés de fazer eletroformação em ouro e prata, começamos a fazer em cobre de passamos a dar somente o banho final em ouro. Com isso passamos a produzir peças exclusivas, com desenhos e fabricação própria. A Carolina foi para a Itália e se especializou em acabamento e trouxe essa tecnologia para a empresa. Como o sonho de ser um prestador de serviço para joalheiro foi cortado, passamos a ser fabricante de peças próprias. Assim nasceu a Exia.

E como a Exia ganhou o prestígio das modelos e atrizes da tv?
Fizemos um planejamento de marketing, contratei profissionais de assessorias para juntos formarmos uma marca sólida neste meio. O pessoal começou a trabalhar a marca com os estilistas famosos de São Paulo, com o pessoal da Rede Globo, do SBT, da Record e com as modelos, apresentadoras e atrizes da atualidade. Assim, passamos a apresentar as peças e caímos no gosto da mídia. Foi uma grata surpresa, os estilistas levaram tudo, pelo acabamento das peças e pela exclusividade do design. As apresentadores já conhecem a Exia, elas querem usar nossas peças. A Ana Hickmann, por exemplo, só usa Exia em seus programas.


Ticiane Pinheiro usa brincos Exia / Thidy Alvis - Revista Cabelos & Cia / Nov 2016


Ana Hickmann e o modelo exclusivo italiano Exia / A.I. Exia Assessórios

Qual a perspectiva de projeção da Exia, agora que ganhou o público A?
Pretendemos produzir coleções que atendam outros públicos, sem perder a qualidade Exia. A ideia é ter uma linha para cada classe, afinal, todas as mulheres, independente de classe social, merecem ganhar um produto com qualidade e fino acabamento.

O fato de a empresa estar situada em Porto Feliz, é um complicador ou a cidade favorece o seu ramo de negócio?
A cidade de Porto Feliz não favorece o investidor em nada. A gente não tem uma procura de algum secretário com propostas de novos desenvolvimentos, nada. Eu e a Nilcélia, da Monções Jóias, somos muito procurados por esse pessoal famoso que está sempre na mídia. Muita gente conhece Porto Feliz, através da Monções Jóias, pelas feiras que a Nilcélia realiza, somos, sem dúvida um condutor do nome da cidade para fora e, mesmo assim, não temos nenhum apoio dos nossos governantes locais para nenhuma parceria de projetos que possam somar e, assim, aumentar a visibilidade de Porto Feliz.

O que precisa melhorar na cidade para atrair mais empreendedores e também motivar os locais?
Porto Feliz tem que cuidar da sua estética, a cidade está muito feia, sem vida. O museu com umas escoras apavorantes na frente, a praça do São Benedito entregue a ambulantes, a praça do relógio do Sol, em frente ao Posto Calocini entregue a viciados em drogas. A cidade precisa de mais cuidado, os atrativos turísticos estão abandonados, entregue à mercê do tempo. Isso precisa mudar.

Então, na sua visão, estas indústrias que estão se instalando na cidade, não estão vindo por causa do que ela oferece?
O que a cidade oferece hoje, além de água? Você acha que elas estão vindo para cá de bobeira?  A cidade é a melhor em água da região, é isso que elas estão vendo: aqui tem água e água em abundância! Esse é o nosso diferencial que faz uma Toyota nos ver com outros olhos, apesar de estarmos bem localizados.

O que não pode faltar na visão de um empresário?
Sonho. O empresário tem que estar sempre sonhando, para vislumbrar novas diretrizes para a empresa, sempre antenado nas coisas que estão acontecendo ao seu redor e ser útil no meio em que convive, em sociedade.

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