• Quarta-Feira, 19 de Dezembro de 2018
  • Porto Feliz - Bom dia

Buscar a Deus também na folia

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Buscar a Deus também na folia

Padre Washington fala sobre sua participação no carnaval e nos convida a refletirmos sobre nossos costumes e comportamentos perante a sociedade

Dono de um perfil único, o que o difere dos padres do século passado, Washington Pascoal Ribeiro, 35 anos e sacerdote há 9 anos, faz parte da nova geração de padres que, com seu jeito espontâneo de ser, e mais próximo da realidade social, atrai cada vez mais fiéis para a religião católica, cuja fé confessa.
Nesta entrevista, Padre Washington fala sobre sua participação no carnaval, quando muitos preferem seus retiros espirituais, e nos convida à uma reflexão de nós mesmos, neste período da quaresma, chamando atenção à Campanha da Fraternidade deste ano que é voltada para a superação da violência social. Confira.

Padre, conte-nos um pouco sobre sua paróquia e como se tornou pároco em Porto Feliz.
Fui ordenado padre em maio de 2009 e cheguei a Porto Feliz em agosto de 2010, a pedido do então Arcebispo, Dom Eduardo Benes de Sales Rodrigues, que me nomeou administrador paroquial, pois o pároco havia ido a Roma estudar. Depois de um ano, fui nomeado Terceiro Pároco e, desde então, sou o responsável pela Paróquia Nossa Senhora da Conceição Aparecida, localizada no Bairro do Bambu, em Porto Feliz. Essa paróquia foi instalada em 2001 para um melhor atendimento pastoral das comunidades locais. Logicamente, quando cheguei a Porto Feliz, encontrei uma comunidade paroquial já desenvolvida, com sua caminhada, suas alegrias e desafios. Ao longo desses anos fomos desenvolvendo um trabalho em comunhão, a região paroquial cresceu sobretudo nos bairros, com novos condomínios, loteamentos, aumentou-se o número de comunidades e situações atendidas pela paróquia.
Hoje, a paróquia é composta de 28 comunidades. Atendemos também a Casa Beracá, uma comunidade de recuperação de dependentes químicos, e a Casa de Repouso Santa Rita, uma casa de acolhida para idosos. Tenho sido solicitado também a atender 2 condomínios de alto padrão que pertencem ao nosso território paroquial que é o Fazenda Boa Vista e a Fazenda Alvorada. No total, são 32 pontos onde celebramos mensalmente a Eucaristia. As dificuldades são, logicamente, imensas, mas as alegrias são bem maiores. Ainda tem muito a ser feito, mas estamos caminhando.

Nos últimos anos, percebeu-se uma participação mais ativa da Igreja Católica nos eventos festivos do carnaval. Em 2017, por exemplo, a Escola de Samba Unidos de Vila Maria, em São Paulo, levou a própria Basílica de Aparecida no sambódromo e exaltou a imagem de N.Sa. Aparecida num evento onde o que mais se vê é o enaltecimento do nu como expressão da cultura popular. Assim, também, o senhor é um padre que participa ativamente do carnaval. Esse comportamento da atual igreja católica em festividades antes consideradas pagãs, é uma maneira de se aproximar mais dos fiéis e, desta forma, não perdê-los? 
A igreja, oficialmente, nunca condenou o carnaval, desde que seja visto como uma festa de alegria e divertimento. O que a igreja sempre pregou é que não podemos deixar que nossos impulsos carnais e nossas vontades nos escravizem, nos dominem. O exagero, a cultura do corpo como instrumento unicamente do prazer é que é condenado pela igreja. Até mesmo na sua origem o carnaval era uma festa cristã. Infelizmente veio a secularização da sociedade e nós vemos que não só o carnaval, mas também a Páscoa e até mesmo o Natal, para muitos, vão perdendo o sentido. Vejamos que no Natal, muitos nem mais se lembram que é uma data em que se comemora o grande mistério do amor de Deus por nós, que é a encarnação. Deus se faz homem para a nossa salvação, e muitos ficam com o Papai Noel, numa cultura onde vivemos um calor tão intenso, falando sobre trenó e neve caindo. O mesmo se vê na Páscoa, com seus ovos e coelhinhos. Assim, percebemos que, infelizmente, as festas cristãs vêm perdendo o seu sentido e, de fato, pessoas exageram e perdem até mesmo a dignidade em tempos de carnaval.
Quanto à escola Unidos de Vila Maria, a homenagem surgiu por ocasião do jubileu dos 300 anos do encontro da imagem de Nossa Senhora da Conceição no rio Paraíba do Sul, denominado pela igreja de “Os 300 anos de Bênçãos”. Então, surgiu essa ideia da escola de samba paulistana em fazer essa homenagem a N.Sa. Aparecida como o grande símbolo da fé católica no Brasil. A igreja, logicamente, depois de um profundo estudo do tema, aceitou e acompanhou. Houve um acompanhamento inclusive teológico, digamos que personalizado, junto à escola. Teve também suas exigências como a de que o nu não fosse algo exagerado na escola que levaria a imagem da Santa, para não agredir os bons costumes cristãos.
 A igreja pediu para que a escola fosse fiel à história, sem sincretismo religioso. De fato, quem acompanhou viu que não foi um desfile, mas uma procissão no Anhembi. A Escola saiu muito bem, contando de uma forma tão rica e bonita a história da devoção à Nossa Senhora da Conceição Aparecida.
Minha participação em assistir às escolas de samba, é uma escolha pessoal, sempre gostei. Reconheço que tem pessoas que não gostam. Eu gosto! Acho bonito o colorido, o batuque da bateria, a empolgação dos componentes, a criatividade, enfim, toda aquela alegria do carnaval. Volto a dizer, existem aqueles que exageram. Isso não significa que a minha participação ou até mesmo da igreja no Desfile da Escola de Samba de Vila Maria, seja um apoio aos exageros, não significa que estamos apoiando aquilo que venha a ser contrário aos ensinamentos da fé. Os ensinamentos da igreja sempre serão os mesmos, não para serem vistos pelos outros, mas porque Cristo assim nos pede. A santidade você deve viver no seu íntimo, buscando Agradá-Lo. Tenho a plena consciência de que participo do carnaval, mas no meu íntimo, o meu coração continua temendo a Deus. Os exageros a gente pode cometer em qualquer lugar, na comunidade, em família...somos nós que precisamos nos colocar no nosso lugar.
O que a igreja prega não é algo contrário ao carnaval, mas sim a termos bons costumes em todas as épocas, em todas as festas, sempre, e em todos os lugares.

Passado o carnaval, tem a quaresma e, posteriormente, a Páscoa. Neste período, a Igreja Católica lança a sua Campanha da Fraternidade, que este ano, traz como tema “Fraternidade e Superação da Violência”. Explique-nos um pouco sobre este período e a reflexão que devemos fazer sobre esse tema.
A quaresma é um tempo de 40 dias que nos convida à penitência. Nós sabemos, o povo da primeira aliança, muitas vezes, foram convidados à penitência, bem como as outras grandes tradições religiosas. Para a Igreja Católica, essa penitência é um convite à conversão, a um olhar para nós mesmos, mas tendo os olhos fixos na vontade do Senhor, de fazer este balanço de como estamos vivendo como filhos e filhas de Deus. 
A quarta-feira de cinzas  lembrava de que do pó viemos e ao pó voltaremos, portanto não somos nada sem a misericórdia do Senhor. Por isso, precisamos nos reconciliar com Ele. Jesus nos propõe assim, três exercícios espirituais, que são: a oração, a esmola e o jejum. A oração diz respeito à nossa relação com Deus; a esmola, a nossa relação com o próximo; e o jejum, a nossa relação conosco mesmos, se temos autodomínio, equilíbrio... Não podemos deixar que os impulsos possam ser mais fortes que nós. É um período também de preparação para a grande festa cristã, a Páscoa. Toda e qualquer festa precisa ser preparada, não somente na liturgia, mas também na nossa vida, na vitória de Cristo sobre o pecado e sobre a morte. É um tempo de nos recolhermos, onde possamos examinar nossa conduta e como estamos vivendo a graça do Batismo. Não é um período de tristeza, mas sim de reflexões e autoanálise. 
E todos os anos a igreja, nesse período, vive também a chamada Campanha da Fraternidade que traz como tema, este ano: Fraternidade e Superação da Violência. Diante de uma sociedade que, cada vez mais, perde os seus valores, uma sociedade egoísta, uma sociedade da desigualdade, nós vemos que cresce, cada vez mais, a violência não somente nos meios urbano, mas, hoje também, nos meios rurais. São tantas as formas de violência que vemos presentes em nossa sociedade. E a igreja, através desta campanha, nos convida a superar a violência e a vencê-la, mas não com as armas deste mundo. Não combatemos o mal com o mal, mas com o bem. Então somos convidados a superar a violência através de uma cultura de paz, de fraternidade, por uma cultura que valorize a vida humana que é o grande dom de Deus. 

Que mensagem o senhor gostaria de deixar para a juventude que está afastada da igreja?
De fato, a vida do homem é uma luta constante, enfrentamos desafios e dificuldades. Todos nós nos deparamos com momentos difíceis e nós percebemos que por mais que o homem viva na modernidade, por mais que tenhamos adquirido conhecimentos através da tecnologia tão avançada, muitas vezes vivemos um vazio; e somente Deus pode preencher este vazio. Somos chamados a fazer um encontro pessoal com Ele. Então, digo a essa juventude tão distante de Deus que vale a pena. Isso não significa que deixaremos de viver, mas sim que teremos uma razão para viver, que é o amor de Deus. Tenha certeza de uma coisa: o amor Deus não nos abandona. Assim, busquemos o amor de Deus sendo pessoas felizes, equilibradas, justas, vivendo momentos de lazer, de descanso, vivendo todos os momentos que a vida nos proporciona. Mas, sem Deus não dá, haverá sempre aquele vazio. 

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