• Segunda-Feira, 22 de Outubro de 2018
  • Porto Feliz - Boa tarde

A ARTE DE CONTAR HISTÓRIAS

Videos_01

A ARTE DE CONTAR HISTÓRIAS

Sonia Jaqueline Oliveira resgata a cultura popular da contação de histórias e encanta crianças e adultos da cidade e região

Já diz o ditado popular: “um conto muito contado, em suas andanças pelo mundo, vai recebendo coisas de cada lugar por onde passa e vai perdendo outras tantas. É a dinâmica das histórias que estão vivas!”. A paranaense Sonia Jaqueline Anastacio da Silva Oliveira concorda plenamente com isso e fez da arte de contar história uma nova forma de viver.  
    Sonia Jaqueline cresceu ao som da sanfona do seu pai e dos causos contados por seus avós, que adoravam contar histórias numa roda de conversa. Foi a arte de recontar, cantar, prosear as histórias nas brincadeiras de infância que a conduziram aos pilares de sua trajetória artística: teatro e arte  narração de histórias.
Apaixonada por crianças, Sonia Jaqueline resolveu se dedicar a Educação e a cerca de 15 anos, a contação de histórias. Para isso criou o projeto “Alinhavando História em Canto Prosa e Verso”, em 2013, que teve mais de cinco mil participantes e também já levou o nome de Porto Feliz por todo o estado de São Paulo, até mesmo, no Centro de Progressão Penitenciária (CPP) da cidade, onde participou abertura da “1ª Semana literária do de Porto Feliz (SP)”, contando histórias para os detentos. “Também fui selecionada para publicar um conto em um livro de antologias sobre “Folclore do Brasil” através de uma editora  do Rio Grande do Sul”, revela.
Nesta entrevista, Sonia Jaqueline conta sobre sua infância, família e suas incursões como contadora de histórias em Porto Feliz e na região. Confira!
 
Você é gente de quem?
Sou gente de duas famílias do Paraná: Pinheiro, por parte de mãe e Anastácio por parte de pai. Sou casada com o Jairo, que é filho de Tico Tuani, proprietário das lojas “O Lojão”, muito conhecida na cidade nos anos 80. Tenho dois irmãos, Elis Regina e Carlos Alberto. Nossa família, aqui em Porto Feliz, é bem pequena.
 
Como eram contadas as histórias na sua infância?
Geralmente, no final da colheita, reunia-se toda a família para descascar o milho, sentávamos todos juntos, tios, primos, e sempre alguém contava uma história, que para os mais velhos eram verídicas e para nós, crianças, era algo inusitado. Do jeito que eles contavam sobre o lobisomem e a mula sem cabeça, parecia bem real. Meu avô dizia que o compadre dele era o próprio lobisomen. Morávamos em uma cidade de quatro mil habitantes e toda economia local era baseada na agricultura, logo, minhas raízes são de produtores rurais. As melhores histórias surgiam quando ‘acabava a força’, no escuro, a gente já espera uma boa e assustadora história quando a energia caía.
 
Quanta saudade traz na bagagem deste tempo?
A afetividade de estar junto. Família grande, unida.  As missas aos domingos, a macarronada, a tubaína que era só aos domingos. Hoje não existe mais essa expectativa de esperar o domingo para tomar um refrigerante.
 
Como encontrou Porto Feliz?
Viemos do Paraná para São Paulo, meu pai se tornou metalúrgico e começou a trabalhar na Selritec, então, mudamos para cá. Eu tinha 11 anos.
 
Que história você nos conta deste período?
Uma história de muito sofrimento. A gente não conhecia ninguém na cidade, dependia só do pai, minha mãe, professora, não conseguiu trabalho em escolas. Então, quando me deparo com a pergunta ‘você é gente de quem?’, me recordo desta época em que não éramos gente de ninguém desta cidade e isso foi muito difícil para encontrarmos trabalho, encontrarmos nosso espaço. Andávamos muito pela cidade atrás de emprego. O que surgia a gente fazia, passar roupa, limpar casas e minha mãe conseguiu trabalho na casa dos Castelucci. Bete, filha do Seu Romeu, ajudou muito minha mãe, contratou e registrou como empregada doméstica e lá minha mãe trabalhou durante muito tempo.
 
Quando Porto Feliz te encontrou?
Existe um velho ditado que diz que temos que fazer por nós mesmos, não depender muito do outro. Nós fomos a luta, trabalhamos, estudamos, fui empregada na sorveteria Frutilla, trabalhei também no bar do Luizito Ercolin, em frente a Dec, trabalhei como costureira, trabalhei no Banco Mercantil e me formei no magistério. Porto Feliz me encontrou quando busquei o meu espaço na cidade.
 Você é educadora há mais de 20 anos. Especialista na arte de contar histórias, qual, na sua visão, a que mais encantou?
Eu gosto muito da história que adaptei chamada ‘A Mãe da Gruta’, que conta a história de uma mãe que abandona o filho e pega toda a riqueza em troca. Então, nessa história eu tento mostrar que por mais difícil que possa ser a vida, não deixe de lado o amor, o carinho e a atenção aos seus. Minha grande tutora foi Mara Faustino, uma pessoa que estimo muito.
 
Como é que você fez deste ‘Contar Histórias’ a sua vida?
Quando eu percebi que as histórias faziam bem para mim e as pessoas sentiam-se bem também e eu não precisava de nada além de mim mesma para ajudar os outros com minhas histórias, me senti curada e, desta forma, procuro ajudar as pessoas contando histórias.
 
Como surgiu o projeto “Alinhavando História em Canto Prosa e Verso”? Conte-nos mais essa história.
É um projeto que começou na gruta, uma vez por mês. A princípio a ideia era movimentar mais o parque, então marcava os encontros lá. As pessoas iam e se sentiam encantadas com as histórias, então expandi o projeto para outros lugares da cidade, como a Fazenda Capoava, Cidade dos Velhinhos, APAE, e o reconhecimento foi crescendo, crescendo, até que levamos para outras cidades.
 
O título é devido à sua experiência como costureira?
(Risos) Tem a ver sim, trata-se de uma costura entre uma história e outra, uma grande colcha de retalhos, não só da minha história, mas alinhavada às de outras pessoas. Me recordo do seu Oswaldinho Rosa, pai de Marisa Rosa, da Hellantex, que me empregou aos 14 anos e lá ele ensinava as meninas a costurar. Trabalhava-se muito na máquina. Lá trabalhamos por muito tempo, praticamente toda família. Então, conheci o meu marido e montamos uma pequena malharia.
 
Há quanto tempo é contadora de histórias?
Há mais de 15 anos sou contadora de história voluntária, profissional membro do RIC (Rede Internacional de Conta me um Conto/Espanha), ministro aulas, palestras, oficinas de contação de estórias em toda região sobre a arte de contar estórias.
 
Em que lugares já se apresentou contando histórias?
Desenvolvo o projeto voluntário “Alinhavando História em Canto Prosa e Verso” desde 2013 e já visitei várias escolas e instituições filantrópicas de Porto Feliz e lugares públicos da região, tendo como objetivo principal incentivar a leitura e a narração oral tradicional. Até 2015, mais de cinco mil pessoas já tinham escutado uma das minhas histórias. Também já me apresentei em várias cidades da região, como Sorocaba, Tietê, Votorantim, Jundiaí, Boituva, Araçoiaba da Serra, Campinas, Itu, Tatuí, Buri, Capão Bonito, Itapeva e Santa Bárbara. Em São Paulo, me apresentei divulgando o nome da nossa cidade no maior evento cultural do estado o “Revelando São Paulo”.   Também idealizei e participei voluntariamente do “Primeiro encontro regional de contadores de histórias de Porto Feliz em 2013”, na Casa da Cultura.
 
Graças ao seu trabalho, você recebeu alguns prêmios. Quais foram eles?
Sim, recebi o certificado de “Mulher Destaque” porto-felicense em 2012, o Prêmio “profº Pedro Moreau” educadora do ano 2013  e, em 2014, o título de cidadã porto-felicense. Em 2016, fui agraciada pela Federação Brasileira dos Acadêmicos das Ciências, Letras e Artes (FEBACLA) com a medalha “emissária da Paz” e diploma de “personalidade do ano”, em 2015, na cidade de Campinas.
 
Além desse projeto, no que trabalha atualmente?
Trabalho na Secretária Municipal de Porto Feliz, como orientadora de estudo do PNAIC (Pacto Nacional de Alfabetização na Idade Certa) e orientadora técnica do programa Ler e Escrever do Estado São Paulo e ministro aula no ensino fundamental e aulas de pós-graduação em Sorocaba.
 
O Jairo Camilo, seu esposo, te ganhou na prosa?
Demorou um pouquinho, mas ganhou sim (risos).  Ele já me paquerava desde os 12 anos, até que nos encontramos anos depois e começamos a namorar em 1985, na época dos grandes bailes do Clube Recreativo. Foi a primeira vez que fui a um baile.  Minha mãe sempre dizia “não namore moço rico, nós somos tudo pobre” (risos). Era uma inocência saudável que pautou nossa vida nos princípios e costumes de uma família.
 
Hoje, você se sente parte da história de Porto Feliz?
O título de Cidadã Porto-felicense é uma honra para mim, o maior reconhecimento que esta cidade poderia ter me dado. Nada me faz mais feliz do que me sentir parte desta Terra das Monções.
 Acredita que o desenvolvimento possa fazer com que a cidade perca este laço que envolve os que aqui ficam?
Basta quem está aqui envolver quem está chegando. Eu fui uma vencedora, tive que conquistar meu espaço com muito sacrifício, por isso acho que este laço precisa envolver muito mais os que chegam, para que se juntem a esta coisa tão nossa, tão típica de nossa cultura.
 
O que é preciso para que Porto Feliz não perca sua história?
Incentivar novos contadores, resgatar toda essa oralidade que está ficando para trás, mostrar aos jovens a importância de contar sua história, a história de suas origens. Porque, se não tiver mais quem conte, um dia acaba. Mara Faustino sempre dizia que para apaixonar quem ouve, é preciso estar apaixonado antes. Você tem que estar apaixonado para deixar o outro apaixonado também. Então, é preciso que Porto Feliz apaixone-se pela sua história.
 
E a cidade de Porto Feliz conta a sua história?
Deveria contar mais, não ficar restrita apenas em um evento numa única semana do ano. Existem cidades que inserem na grade curricular das escolas municipais algo que aquela cidade tem como tradição cultural. Porto Feliz tem uma história única e precisaria que isso fosse levado aos cadernos dos alunos da cidade. E isso não depende apenas do poder público, depende de cada um de nós, por isso é preciso se apaixonar pela história, ter orgulho dela. A história de Porto Feliz não é só Semana das Monções, a história é todo dia. Se acontecia com mais amor no passado, é preciso acontecer com muito mais hoje, afinal, os recursos atuais são bem maiores que os daquele tempo.
 
Das andanças por este caminho que percorreu, o que ganhou, o que perdeu?
Ganho a recompensa valiosa do crescimento como ser humano “conhecimento e sabedoria” ao longo deste caminho chamado vida. A cada encontro, a cada história tenho oportunidade de conhecer pessoas e diversas culturas, rimos, choramos esperançando dias melhores , deixo um pouco de mim levo muito mais delas...  O que perdi? Sinto muitas vezes em não poder dedicar mais tempo a família com tantos compromissos, em contrapartida enfrento a vida com mais disposição e coragem, antes era uma pessoa muito tímida e medrosa.

Comentários