• Domingo, 21 de Outubro de 2018
  • Porto Feliz - Bom dia

A FÓRMULA ESQUECIDA

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A FÓRMULA ESQUECIDA

OS GUARDIÕES DO CALOR HUMANO

As primeiras farmácias da cidade são fontes de inspiração para quem busca atender melhor os seus clientes

As farmácias do início do século passado sensibilizam pela estética e funcionalidade dos objetos antigos. Ânforas de formatos harmoniosos e frascos delicadamente trabalhados. A mesma sensibilidade se vê nas mobílias existentes em seu interior. Grades torneadas, balcões e estantes em madeira.

Interior da Farmácia Martelli. 

O lado humano do universo da antiga farmácia, representado pela figura do farmacêutico, é um aspecto que também toca profundamente. Homens dedicados, depositários da confiança de todos e, muitas vezes, substitutos na pessoa do médico.

Nessa época, os estabelecimentos farmacêuticos eram, muitas vezes, núcleos políticos, onde se reuniam para tratar de assuntos relacionados. O mundo da antiga farmácia era um mundo que a vida moderna, com sua agitação, não pode comportar e erradicou.

Conheça um pouco da história desta ciência envolvente e das primeiras farmácias de Porto Feliz, que ajudaram a construir as relações sociais e a cuidar da saúde da cidade no passado.


Almanaques era dados como presente aos clientes mais assíduos 

Hoje você deu uma passadinha na farmácia na volta do trabalho, porque precisava comprar aquele medicamento prescrito pelo médico. Também levou xampu, sabonete, desodorante e creme para as mãos. Com exceção do medicamento da receita, foi você que se serviu, chegou ao caixa e pagou com cartão de crédito. E, antes de sair, pegou um folheto de ofertas para ler em casa. Foi fácil e prático.

Nos dias de hoje, a farmácia é um conjunto de ações voltadas para o bem-estar das pessoas, inserido no ritmo agitado do dia-a-dia, diferente das farmácias de antigamente. Difícil imaginar, por exemplo, que a farmácia tinha uma mobília toda trabalhada em madeira, muitas vezes, fazendo parte da decoração, animais empalhados, objetos de beleza incomum das farmácias do início do século passado. Verdadeiras obras de arte. 

O farmacêutico, ou doutor, como era chamado, manipulava as fórmulas e preparava os medicamentos, sendo estes cuidadosamente acondicionados em pequenos envelopes feitos com papel manteiga ou vegetal. E, de modo geral, foram eles que incrementaram diversas fórmulas existentes para melhor atender as necessidades da época, marcadas por um período entre guerras, doenças, epidemias e etc. É inegável o valor que estes peritos na manipulação colaboraram para o desenvolvimento das farmácias atuais.

A farmácia possui uma das bagagens históricas mais antigas da humanidade. Tem resistido a várias mudanças e se adaptado às novas situações, alterando antigos hábitos.
 
Com a evolução da ciência, grandes indústrias foram se formando e consequentemente um aumento na produção de medicamentos. Porém, não podemos atribuir o mesmo mérito ao profissional farmacêutico. Durante muito tempo, o farmacêutico foi desvalorizado do mercado de trabalho, já que as grandes empresas faziam todo o processo de manipulação e comercializavam em larga escala, não exigindo a presença de um profissional nessa área.
 
Com a industrialização, acontece uma queda da procura por farmácias de manipulação e o foco passa a ser o médico; e o farmacêutico se afasta para outras áreas, ocorrendo assim, uma mudança no comportamento do atendimento no balcão. As farmácias se informatizaram e perderam o principal elo com seus clientes: a fidelidade.

As primeiras farmácias de Porto Feliz representam exatamente este contexto. 

FARMÁCIA MARTELLI


Fachada da Farmácia Martelli, anos 80

Segundo Sibele Martelli, a Farmácia foi fundada em 1916, comprada de um proprietário anterior por Amadeu Martelli, mas não se tem registros do primeiro dono da farmácia. Depois de Amadeu, Alice Martelli e Luis Geraldo (Zito) Martelli deram continuidade nos negócios.

Um dos funcionários mais marcantes que passaram pela farmácia, foi Geraldo Guilargucci, que trabalhou por 60 anos no estabelecimento. “Outros funcionários que também tiveram seus nomes perpetuados na história da farmácia, foram: Gilson Luis Martelli, Rafael dos Santos, João Montico e Valkir Mendes”, relembra Ênio Martelli, que também trabalhou por 15 anos no estabelecimento.

Ênio conta que a relação do atendente da farmácia com o cliente era uma relação de amizade e fidelidade. Sua irmã Sibele, que não trabalhava na farmácia, mas fazia parte da dinâmica, também lembra que atendiam a população até de madrugada. “Os clientes batiam na porta a qualquer hora da noite, em busca de medicamentos, pois não existiam plantões de farmácias na época”.


Alice e Luis Geraldo Martelli, em 1971

O atendimento em domicílio era também uma prática bastante comum. “Íamos até a casa do cliente, muitas vezes, apenas para aferir uma pressão ou aplicar injeções, prática muito comum e permitida neste período das farmácias”, explica Ênio, que, inclusive, aprendeu na prática e manteve esta tradição, passada pelo seu avô Amadeu.

A Farmácia Martelli fechou em 1996, em um tempo que as franquias começavam a invadir a cidade com seu atendimento industrializado. “Hoje, o atendimento é muito formal e não há tanta amizade com o cliente como antigamente”, finaliza.

FARMÁCIA DO ELIASAR


Fachada do prédio onde funcionava a Farmácia do Eliasar

Fundada por Eliasar de Campos em 1958, a farmácia Nossa Senhora Aparecida, primeiro nome do estabelecimento, era uma das mais procuradas pelos moradores da cidade. Eliasar começou a trabalhar aos 9 anos de idade, tendo como professor o farmacêutico Domingos Maurino, na Farmácia Santo Antonio e adquiriu profundos conhecimentos na manipulação de fórmulas e preparo de medicamentos. Por este motivo, além do carisma marcante, Eliasar fez de sua farmácia um verdadeiro ‘posto de saúde’, onde as pessoas o procuravam para tudo, inclusive pedir conselhos. “Eliasar era como ‘médico do povo’, atendia a todos sem distinção. Quem não tinha condições de pagar pelo medicamento, ele não cobrava.” Comenta Nádia Maria de Campos, sua filha.


Eliazar de Campos e Domingos Maurino na porta da Farmácia Santo Antonio

A necessidade fez Eliasar cursar Farmácia para poder continuar atendendo a população de maneira legal e, somado aos conhecimentos já adquiridos, ele era visto como um doutor na cidade. “Ele era um pastor, conselheiro, padre, médico. Era tudo para o cliente, na época que trabalhamos juntos”, relembra Benedicto Flávio de Campos, conhecido como Tico, que trabalhou por 43 anos ao lado do irmão.


Anunciação, esposa de Eliasar, também ajudava nos serviços administrativos


Na época, havia muita carência de médicos na cidade, então, a procura das pessoas pelas farmácias era, inclusive, vista como de grande ajuda à saúde. “O povo confiava no farmacêutico, que, muitas vezes, se confundia com a figura de um curandeiro, pois, além de preparar fórmulas e pomadas para isso e aquilo, fazia suturas, pontos, aplicava soros, medicamentos intravenosos, e o paciente saía curado”, explica Tico, que aprendeu tudo na prática.

Apesar de haver leis proibitivas na época, a fiscalização não era tão frequente e, com isso, a relação médico-farmacêutico era tida como saudável, pois não saturava tanto o atendimento nos Postos de Saúde e na Santa Casa. “Antigamente, o farmacêutico indicava o remédio como se fosse de fato um médico. Muitas vezes, na dúvida, ligava para algum médico que auxiliava por telefone no atendimento ao cliente da farmácia”, comenta.

A Farmácia do Eliasar funcionava além do horário comercial, outro fator determinante para o sucesso e a procura por este estabelecimento. “Trabalhávamos até altas horas da noite e, muitas vezes, nem parávamos para jantar. Era um trabalho árduo, mas muito gratificante”.

Tico conta que passou pela transição da farmácia antiga para a atual. “Antigamente, éramos considerados doutores, usávamos até roupas brancas, como médicos. Transmitíamos a impressão de que sabíamos tudo sobre as doenças e qual remédio ideal para o tratamento. Hoje, as farmácias não passam de fornecedoras de medicamentos, nada mais.”


Tico, irmão de Eliazar, foi o funcionário que mais marcou a farmácia

Eliasar foi um homem apaixonado pela profissão e amava o que fazia. ”Meu pai criou muitas fórmulas que ficaram famosas na cidade. Ele acordava todos os dias às 5:30h e ia fazer suas manipulações. As 8h já tinha fila esperando a farmácia abrir”. Recorda Nádia.

Eliasar faleceu em 25 de maio de 2005 e a farmácia encerrou suas atividades em fevereiro de 2006, quando ainda contava com o atendimento de seus dois filhos, Claudinei e Nádia. O irmão de Eliasar, ‘Tico’, saiu 12 anos antes. Atualmente, no mesmo local, funciona a Farmácia Municipal, que leva o nome de seu fundador.

FARMÁCIA NOSSA SENHORA


Fachada da Drogaria Nossa Senhora, anos 80

Consta, no Acervo Histórico e Municipal Sérgio Buarque de Holanda (Biblioteca de Porto Feliz), um livro com o título “Pharmácia Nossa Senhora – Torres e Filhos”, de propriedade de Joaquim Agostinho Torres, cujo farmacêutico era Aristides Valentim Torres, seu filho. Os receituários encontrados datam de 1912. Trata-se do registro mais antigo que se tem das farmácias em Porto Feliz. O que se perde no tempo é se ele foi o primeiro proprietário e, portanto, fundador desta farmácia ou, se antes dele, havia outros.


Alvará de licença da construção de 1929 / Acervo Municipal de Porto Feliz / Colaboração de Janaina Soares de Souza Piva Mancio de Camargo

Há uma dúvida na cidade com relação a esta farmácia, pois ela mudou de local por diversas vezes, fazendo com que muitos passassem a falar que a Farmácia Nossa Senhora não era de propriedade da família Torres que, por sua vez, teve a sua própria.

Segundo Claudio Torres, filho de Floriano Torres e, portanto, sobrinho de Aristides, a farmácia de seu tio funcionava na Rua André Rocha. “Além de ele assinar pela farmácia da cooperativa, na época, ele também teve uma farmácia que funcionava no prédio do antigo Bazar Paulista, na Rua André Rocha”, comenta.


Anotações no Livro de Receituários de 1912/ Acervo Municipal de Porto Feliz / Colaboração de Janaina Soares de Souza Piva Mancio de Camargo

Outro registro de sua mudança data de 1929, quando Joaquim comprou um terreno ao lado da praça da Matriz, onde hoje funciona a Padaria São João, e construiu ali o prédio onde se mudou com a farmácia. Anos mais tarde, a farmácia voltou para a Rua André Rocha, acredita-se que, em decorrência da Farmácia São José (futura Farmapires), inaugurada na Rua Draco de Albuquerque; o casarão é demolido, dando lugar ao prédio atual, que também abrigou o Cartório da Família.

Muito conhecida, na segunda metade do século passado, como Farmácia da Balança, por ser a única da cidade a ter uma balança de pesagem, a Farmácia Nossa Senhora é outro estabelecimento cuja data de fundação se perde no tempo e nos registros não encontrados. Acredita-se que esta seja a primeira farmácia da cidade de Porto Feliz.

Foi proprietário da Nossa Senhora, depois de Joaquim Torres, Nelson Antunes, pai do ilustre vereador José Eud Antunes, Luis Thomé, Chico Palma, até a aquisição por José Quirino Schettini, Zé da Farmácia, que a dirigiu por mais de 50 anos.


Nelson Antunes se formou Farmacêutico em 1935

Zé comenta que o dono de farmácia que tivesse mais de 15 anos de experiência no ramo, poderia assinar como farmacêutico, mesmo assim, fez o curso prático de farmácia, requisito necessário em sua época para assinar como responsável. “Há 50 anos, fazia-se de tudo. Pequenas operações, lavagem de ouvido e, até mesmo, partos eram feitos nas farmácias. O médico mais próximo ficava a 70, 80 km, então a comunidade local tinha que se virar para atender esta carência. Eu não fazia isso, mas conheço muitos outros que faziam. Só quando não tinha condição mesmo é que encaminhávamos para o médico. Com o crescimento da cidade e o surgimento de mais médicos, essa prática diminuiu”.


José Quirino Shettini (Zé da Farmácia da Balança)

A Farmácia Nossa Senhora, também passou pela transição da antiga prática para a modernidade do atendimento. Fator este que determinou que o estabelecimento fosse vendido, por não se acostumar às novas normas comerciais, mecânicas e, portanto, frias no relacionamento. “A pessoa te tratava de um jeito diferente. Você era um amigo, um confidente. As pessoas nos respeitavam e nos procuravam, muitas vezes, só para conversar ou fazer uma visita com a família toda”, lembra Zé, com saudades. “Quando você atendia uma criança e ela ficava boa, a mãe ficava maravilhada e chegava até a levar bolos para a gente comer”, revela.

A procura pelas farmácias era uma prática muito comum de automedicação. Muitos dos clientes já sabiam o que pedir e o que comprar. “Xaropes para tosse, vitaminas para crianças que não comiam. Tudo isso o próprio cliente pedia e era muito gratificante atender”, comenta Zé, que diz que era também muito complicado. “Existe um ditado que diz que criança até um ano é que nem um passarinho, você não sabe o que vai acontecer de um segundo para o outro. Portanto, tinha que tomar muito cuidado”.


Zé Schettini, anos 80

Por morar em cima do estabelecimento, Zé da Farmácia conta que atendia a população também durante a noite. “Não tinha hora e eu tinha muito prazer em ajudar todo aquele que batia em minha porta”.

A diferença do passado para hoje se dá no atendimento e nas pessoas. A Farmácia da Balança se destacava, pois era no centro da cidade, mantinham um bom relacionamento e tiveram uma boa recepção da cidade. Zé diz: “só tenho a agradecer à população. Foi muito gratificante”.

A Farmácia encerrou suas atividades em 2009, quando foi vendida e a razão social mudada. Atualmente, ela se chama Porto Farma e funciona em outro local.

Muitos funcionários da Farmácia Nossa Senhora fizeram carreira no ramo. É o caso de Bertinho, irmão de Zé da Farmácia, que atualmente trabalha na Drogaria Sampaio. Evandro Tempesta trabalha na Drogaria do Roberto, em Itu e Carlinhos Sampaio, que foi o primeiro a trazer uma franquia de farmácias na cidade, a Farmais. Mas, o que mais se destaca é Anderson Segatto, que criou a rede Drogarias Segatto e, atualmente, conta com 4 lojas, cada uma dirigida por um irmão da família. “Sinto muita saudade daquele tempo. Antigamente o atendimento era mais humano, hoje é tudo muito mecânico. Só tenho a agradecer por ter tido a honra de trabalhar com estes dois excelentes profissionais da farmácia antiga, Eliasar e Zé. Com eles, aprendi a honestidade e o caráter, valores que me ajudaram a abrir a rede Drogarias Segatto.” Conclui.

FARMAPIRES


Parte da fachada de 3 portas da Farmapires.


O registro mais antigo desta farmácia data de 1955, quando Aparício Pires e mais dois sócios, compraram a farmácia (anteriormente chamada de Farmácia São José) de seu antigo proprietário, Geraldo Pires de Almeida (irmão do Dr. Antoninho). 


 Geralgo Esmedio, ao lado do senhor de chapéu,  a irmã ‘Mocica’ e o irmão Dr. Esmedinho, na frente da Farmácia São José

A Farmácia São José funcionava na rua Draco de Albuquerque, onde hoje funciona o Frangolândia do Zelão. Posteriormente, ela se mudou para a rua Altino Arantes, período em que Geraldo se converte ao comunismo ateu e muda o nome do estabelecimento para Farmácia da Cidade, permanecendo no mesmo local até o encerramento de suas atividades, com o nome de Farmapires. 

Aparício Pires era proprietário de uma farmácia em Capão Bonito (SP). Com a revolução de 32, veio morar em Porto Feliz e entrou como gerente da Farmácia São José. Mais tarde, comprou a farmácia com dois sócios, Coletores Federais, que não podiam ter seus nomes nos autos. Em 1957, Aparício comprou a parte deles e se tornou único proprietário da farmácia, alterando seu nome para Farmapires.

Seu filho, Luiz Antonio de Carvalho Pires Neto, Neto Pires como é conhecido, começou a trabalhar na farmácia em 1966. Com o adoecimento de seu pai, em 1970, assumiu a farmácia da família e geriu a empresa até o seu encerramento em 2011. 


Família Pires no dia que receberam um prêmio da Colgate em uma promoção feita pela farmácia. De terno branco, Neto Pires. Á direita da foto, Ayrton Carvalo Pires (Tonzinho) e seu pai Aparício, cumprimentando o representante do evento.

O funcionário que mais representou a farmácia foi José Cesar Paes de Almeida (Césinha). “Todos os funcionários que tivemos foram pessoas boas e ótimos profissionais, mas o que mais marcou foi César, que já era funcionário do meu pai e dedicou sua vida à farmácia”, comenta Neto.

A FARMÁCIA GUARDADA 
FARMÁCIA SANTO ANTONIO


Família Maurino preserva ainda a antiga farmácia Santo Antonio, em sua residência na rua Altino Arantes

A história da família Maurino começa com a chegada de José Maurino, avô de Cecília Maurino, no dia da proclamação da República – 15 de novembro em 1889, a Porto Feliz. Por não saber ler e escrever, José Maurino fez questão de que os seus seis filhos estudassem. Domingos Maurino, um de seus herdeiros, foi um dos primeiros a se formar no Coronel Esmédio. Mais tarde, foi estudar no Colégio Arquidiocesano na Vila Mariana, em São Paulo e depois para a Faculdade de Farmácia em Itapetininga, onde se formou, em 1924. 


Domingos Maurino e sua esposa Annacyra Torres

Depois que se formou, Domingos abriu a farmácia num casarão antigo (atualmente Diagsom) com dois cômodos, sendo um o laboratório, já que os remédios eram manipulados e o outro, o local para atender os clientes. Domingos casou-se em 1926, com Annacyra Torres Maurino, em uma cerimônia realizada pelo Dr. José Sacramento e Silva e teve seis filhos. Pouco tempo depois, construiu na Rua Altino Arantes, a Farmácia Santo Antônio, definitiva até encerrar suas atividades em 1968. Suas mobílias e os objetos de manipulação encontram-se no local até hoje.

Domingos Maurino contava com a colaboração de dois práticos em farmácia. Humberto Diniz, que quando a Farmácia Santo Antônio fechou, foi trabalhar na antiga Farmácia do Engenho e Eliasar de Campos, que mais tarde abriu a sua própria farmácia (atual Farmácia Municipal Eliasar de Campos).

Cecília Maurino, filha de Domingos, conta que ela e os irmãos também tomavam conta da farmácia. “Nós tínhamos 12 anos e ajudávamos no atendimento à população. Não manipulávamos, mas vendíamos remédios e ervas para fazer chá. Meu pai fechava a farmácia às 20h, porque amigos e outras pessoas vinham conversar toda noite. Logo na entrada da farmácia, tinha um banco grande e lá eles ficavam batendo papo até meu pai fechar”, revela.


Cecília Maurino

Segundo Dona Cecília, muitas pessoas procuravam pelo seu pai para pedir alguma indicação de remédio. “Quando era algo não muito importante, ele vendia. Quando ele percebia que era algo mais grave, ele indicava e mandava para os médicos como Dr. Sacramento e Dr. Célio Pires”.

Na Farmácia Santo Antonio vendia-se muitas ervas e outras iguarias não mais encontradas neste ramo de comércio. “As ervas eram muito bem acondicionadas em potes bem tampados, que vendíamos para fazer chá. Tinha também um pó branco chamado ‘Raspa de Veado’, que as mulheres compravam após terem bebês”, recorda Cecília com saudades. 


Fachada da casa onde ainda se encontra preservada a Farmácia Santo Antonio, na Rua Altino Arantes

“Outro produto que se vendia muito era água mineral, porque, naquela época, não existia em mercados e nem era vendida nos armazéns. Na farmácia também vendia-se perfumes franceses, sabonetes em caixas para presente e tintura de cabelo. Outro fato curioso foi quando meu pai fabricou, no fundo do nosso quintal,  um remédio para tosse que nomeou como Thiopulmol e era muito procurado”, revela Cecília. 

Domingos Maurino trabalhou por 44 anos na Farmácia Santo Antônio, até seu fechamento em 1968. Ele faleceu em 5 de outubro de 1979.


Anotações e encomendas encontram-se penduradas no mesmo local, desde o fechamento da farmácia


Fachadas luminosas, ambientes modernos, balcões e gôndolas de cores claras e sistemas de self-service são algumas características das farmácias do nosso dia, onde os medicamentos são apenas um, dentre os diversos artigos oferecidos.

Há muito que a saúde deixou de ser o objeto-razão da farmácia. Aquela farmácia artesanal em sua arquitetura, mobiliário, objetos e na ligação tão íntima do farmacêutico com as pessoas, ficou na história, para ser lembrada e contada para as próximas gerações.

As farmácias e drogarias de hoje são provenientes de uma transformação ditada pela indústria farmacêutica, que caminham sob as leis do marketing. A enorme variedade de produtos aliados a ambientes modernos e estratégicos para o autoatendimento distanciou ainda mais o calor humano das relações entre farmácia e cliente.

Hoje, o farmacêutico não tem mais este contato direto com o cliente. Ainda presente na farmácia, porém nos bastidores, ele, na maioria das vezes, realiza um trabalho de supervisão da circulação dos medicamentos e o controle dos psicotrópicos.

Hoje, a farmácia tem como objetivo, a promoção da saúde através da personalização da relação de confiança entre médico-farmacêutico-paciente. Alcançar este objetivo pode significar a criação de um modelo, em essência, muito parecido com o do início do século passado.

Colaborou: Júlia Gonçalves

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