• Domingo, 21 de Outubro de 2018
  • Porto Feliz - Bom dia

UMA HISTÓRIA DE MILHÕES DE ANOS

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UMA HISTÓRIA DE MILHÕES DE ANOS

por marcelo martinatti 
e cleberson ferreira da silva

O Parque das Monções, em Porto Feliz – SP, abriga uma história que começa muito antes das expedições monçoeiras dos séculos XVII e XVIII. O chamado Paredão Salitroso preserva um importante registro geológico de milhões de anos atrás, quando o clima e a geografia da região eram bem diferentes do que conhecemos hoje.

Exposto pela ação erosiva do Rio Tietê e apresentando especial condição de preservação, sua origem está relacionada à sedimentação do Grupo Itararé, unidade litoestratigráfica da Bacia Sedimentar do Paraná, sendo fortemente influenciada por processos glaciais (sob influência de geleiras) e marinhos. 

Dizer com precisão quando essa história começou ainda é um grande desafio, pois há necessidade de estudos mais precisos, porém o conjunto de feições e estruturas sedimentares encontradas no Paredão fornece indícios que tenha sido entre 315 e 295 milhões de anos atrás, em um período denominado Permocarbonífero, no final da Era Paleozoica.


Representação da forma provável dos continentes no Permocarbonífero

Naquela época, os continentes e sua posição geográfica eram muito diferentes do que conhecemos hoje, pois durante todo esse período as massas continentais se movimentaram bastante. Consequentemente, o clima sofreu muitas alterações e o nível do mar subiu e desceu várias vezes. Essa constante movimentação e retrabalhamento das massas continentais fizeram com que, ao final da Era Paleozoica, todos os continentes estivessem aglutinados em um único grande continente chamado Pangeia. A região, onde hoje está Porto Feliz, se encontrava debaixo do mar e a temperatura chegava abaixo de zero grau, fazendo com que grandes geleiras se formassem, criando um ambiente semelhante aos atuais glaciares. 


Imagem aérea da Geleira Malaspina, no sudeste do Alasca, ilustrando como seria a região de Porto Feliz durante a formação das rochas do Paredão Salitroso. Fonte: NASA Earth Observatory 

Nesse tipo de ambiente, a ação da água do mar e também de degelo dos glaciares carregavam uma enorme quantidade de fragmentos de rochas, com tamanhos muito variados, denominados sedimentos. Ao longo de milhares de anos, esses sedimentos se depositavam no fundo do mar, onde iam se acumulando próximo ao continente, até o ponto em que o depósito se tornava instável e desmoronava, gerando novos depósitos de sedimentos, que são conhecidos na Geologia como turbiditos. São essas as rochas que formam o Paredão Salitroso do Parque das Monções.

Milhões de anos depois, o clima se tornou mais ameno, o mar recuou e os continentes adquiriram uma nova forma e configuração. Há, aproximadamente, 12 a 15 milhões de anos, nascia o jovem Rio Tietê, implantando seu curso sobre as rochas existentes e sendo o responsável por expor o Paredão por meio da erosão, revelando assim uma enorme riqueza de registros geológicos formados ao longo do tempo geológico.

Em toda sua extensão, com aproximadamente 100 metros de largura e 15 metros de altura, são encontradas diversas estruturas sedimentares, sendo identificadas sete camadas principais com espessuras bastante variáveis ao longo do afloramento, algumas com a ocorrência de camadas de menor espessura internas e/ou lentes pontuais, separadas por superfícies de erosão ou mudança litológica brusca.

Nessas camadas de arenito, composto essencialmente por quartzo cimentado por argilominerais, se observa uma grande variedade de estruturas sedimentares, muito bem preservadas e nas mais diversas escalas, como estratificações cruzadas, tabulares e acanaladas, marcas onduladas, formas sigmoidais, dobramentos, falhamentos e clastos caídos (dropstones) esparsos ao longo de todo Paredão. 


Algumas das estruturas sedimentares encontradas no Paredão em excelente estado de preservação

Os processos erosivos causados pela ação do rio também formaram os grandes buracos chamados de marmitas, que são vistos em toda a extensão lateral do paredão. O choque dos sedimentos, impulsionados pela turbulência da água do rio nas cavidades das rochas, é responsável pela geração,  aumento do tamanho e profundidade dessas marmitas. Assim, esses grandes buracos são resultantes da ação erosiva fluvial diferenciada do Rio Tietê e não do comportamento das araras, como se acreditava antigamente. 

Essa configuração do empilhamento das camadas exibida no Paredão mostra uma sucessão cíclica de depósitos sedimentares, com baixa variabilidade granulométrica (tamanho dos grãos que compõem a rocha) e que se superpõem. Sua morfologia e estruturas verificadas fornecem indícios de que os sedimentos inicialmente depositados, teriam sido transportados por correntes de turbidez, nas quais os fluxos gravitacionais, agentes do transporte desses sedimentos, variavam de alta a baixa densidade.



Assim, ao se avaliar as condições paleoclimáticas, a geometria e estruturas desses depósitos é possível compreender que as rochas que compõem o afloramento do Parque das Monções são uma sucessão de turbiditos. 

Nos dias atuais, as condições climáticas da região favorecem o intemperismo, ou seja, a transformação e desgaste das rochas e dos solos através de processos químicos, físicos e biológicos. Isso dificulta muito a preservação de grandes estruturas rochosas, especialmente as de origem sedimentar, muito suscetíveis a ação da água pluvial e da umidade. Soma-se a isso a localização do Paredão, dentro de um centro urbano e ao lado de um rio, o que contribui com a erosão.

Contudo, no Paredão Salitroso do Parque das Monções é notável a quantidade, qualidade e o grau de preservação das estruturas sedimentares presentes em todo afloramento, colocando-o como um local de alta qualidade didática no ensino de conceitos ligados às Geociências.

Apesar de ser uma área tombada e de preservação ambiental, o Paredão necessita de melhores recursos técnicos e de monitoramento, voltados para a sua conservação. Por ser uma área aberta à visitação pública, o que é importantíssimo, o desconhecimento desse patrimônio geológico e seu valor inestimável faz com que ocorram degradações, como pichações, vandalismo ou outras ações que acabam por gerar o desgaste dessas rochas.



Além do evidente valor histórico do Parque, por ser um importante porto das expedições monçoeiras, marco para o estabelecimento de um povoado que anos mais tarde deu origem à cidade, o que vemos lá exposto é um registro natural único no mundo, formado lentamente durante centenas de milhões de anos. Um verdadeiro patrimônio geológico com rochas e estruturas de grande valor científico.

Por essa razão, sua preservação é muito importante: uma vez perdido, ele jamais poderá ser recuperado.

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