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NEM SÓ DE MONÇÕES VIVE A NOSSA HISTÓRIA

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NEM SÓ DE MONÇÕES VIVE A NOSSA HISTÓRIA

Por Carlos Carvalho Cavalheiro

A Praça central da maioria das cidades brasileiras se constitui no “umbigo”, epicentro do qual se irradiam as ondas de ocupação do espaço ao longo do tempo. Ainda que nem sempre coincidam com o núcleo original, as praças centrais consolidam, de fato, o povoamento da localidade. Na capital paulista, por exemplo, a Praça central é a da Sé. Porém, o núcleo original é o Pátio do Colégio, distante algumas quadras. O mesmo ocorre com Sorocaba, cuja primeira igreja, a de Santana, foi substituída anos depois pela de Nossa Senhora da Ponte, atual Catedral Metropolitana.
Não foi diferente em Porto Feliz, que nasceu no entorno de uma igreja dedicada à Nossa Senhora da Penha, no Largo de mesmo nome, e que algumas décadas depois transferiu o núcleo de povoamento para uma colina, pouco adiante, onde instalou-se a Igreja Matriz em 1750.
De acordo com o historiador Francisco Nardy Filho, por volta de “1728 a capela de N. Senhora da Penha de Araritaguaba fundada por Antonio Cardoso Pimentel e Antonio Aranha Sardinha é elevada à categoria de freguesia e desmembrada da paróquia de Itu...”.1 Continua, páginas adiante, o historiador: “Em 1728, ao ser a povoação de Araritaguaba elevada à Freguesia, e como houvesse aumentado o número de seus moradores e por esse motivo se tornasse pequena para contê-los a capela erguida pelo A. C. Pimentel e A. A. Sardinha, resolveram os seus habitantes aumentá-la”.2  Somente em 1744, por intercessão do Bispo Dom Frei João da Cruz é que se escolheu um local adequado para a construção do novo templo. E Nardy termina dizendo que “Segundo se lê no livro Tombo da Matriz de Porto Feliz essa igreja foi concluída e benta em 1750, mas lhe foi dada outra invocação, sendo a mesma dedicada à Nossa Senhora Mãe dos Homens, que passou então a ser a padroeira dessa paróquia...”. 3
Por essa característica de estar ligada aos primeiros anos da povoação, as praças centrais convertem-se em um dos espaços mais antigos da cidade, palco de inúmeros fatos e acontecimentos, testemunha da passagem dos anos e de suas transformações. É por excelência um lugar de memória. 
O monumento mais antigo da Praça da Matriz de Porto Feliz – logradouro cujo nome oficial é Praça Dr. José Sacramento e Silva – é uma herma* dedicada a Cândido Motta. A placa do monumento traz apenas o nome do homenageado, a frase: “Gratidão do Povo” e a data de 1920.
Quem foi Cândido Motta? Qual o feito que gerou a gratidão do povo porto-felicense a esse homem? Por que o monumento foi erguido em 1920?
Todo texto possui um contexto. E o melhor caminho de uma investigação é conhecer esse contexto. 
Portanto, é preciso saber o que ocorria na década de 1920 para entender a existência desse monumento em homenagem a Cândido Motta.


O professor Cândido Nanzianzeno Nogueira da Motta nasceu em Porto Feliz, em 9 de maio de 1870. Filho do também educador Fernando Maria Nogueira da Motta e de Mariana Francisco da Motta. Foi casado com Clara Cândida da Motta Amaral. Aos 9 anos, foi residir com a família em Capivari. Diplomou-se em Direito em 1891. Exerceu cargos de Promotor Público, Delegado de Polícia, Professor de Direito, Vereador, Deputado Estadual e Federal, e Senador Estadual (1922 a 1930). No governo de Altino Arantes (1916 – 1920) exerceu o cargo de Secretário da Agricultura. Cândido Motta foi um dos responsáveis pela implantação do Parque das Monções, do Monumento aos Bandeirantes (no mesmo parque) e da linha férrea de Porto Feliz, em 1920. Faleceu em 16 de março de 1942 em São Paulo.

“Coronéis”, “bandeirantes”
 e a hegemonia paulista

A década de 1920 representa um momento de renovação da sociedade e um embate político de projetos díspares para a condução do Brasil. A eclosão da Primeira Guerra Mundial (1914 – 1918) interrompeu o fornecimento de produtos europeus, incentivando o surgimento de indústrias brasileiras, fenômeno que se estendeu pelas décadas seguintes, trazendo novidades para a paisagem das cidades e também novos atores sociais.
Com as fábricas, surgiram os operários e com estes as reivindicações de melhores condições de trabalho, favorecendo a formação de organizações como Ligas, Uniões e Sindicatos, muitos de tendência anarquista ou anarcossindicalista.
As cidades crescem, atraindo mais pessoas. Os intelectuais expressam seu descontentamento com a sociedade burguesa e também com a oligárquica por meio da arte e da cultura. Os militares de baixa patente, como sargentos e tenentes, também se mostram insatisfeitos com os desmandos da política controlada pelas oligarquias dos chamados “coronéis”, produtores rurais que se convertiam em chefes políticos locais.
Com o presidente paulista Campos Salles é inaugurada, em 1898, a chamada “política do café-com-leite”, acordo que celebrava a alternância de paulistas e mineiros na Presidência da República. Esse acordo perdurou até o ano de 1930.
Desse modo, a hegemonia paulista se consolidou tanto economicamente – como o Estado com maior produção de café – quanto politicamente. Carecia de uma escora de sustentação ideológica essa liderança paulista. E essa preocupação transforma-se numa política de Estado: recuperar a história do bandeirante paulista, dando-lhe o enfoque da ousadia empreendedora que “criou” o Brasil do tamanho que ele é. “Longe levei as fronteiras do Brasil”.
Alcântara Machado, em sua obra “Vida e Morte do Bandeirante”, alude ao fato de ter sido por vontade de Washington Luiz, quando prefeito de São Paulo (1914 – 1919), a divulgação das “atas e papéis da edilidade paulistana, pondo ao alcance de todos nós os materiais para a reconstrução da vida administrativa colonial, materiais aproveitados imediatamente em trabalhos judiciosos pelo sr. Afonso de Taunay...”. 4
Washington Luiz, Alfredo Ellis Junior, Belmonte e Afonso de Taunay foram os principais articuladores da representação do bandeirante enquanto mito fundador da nossa nacionalidade, criando a imagem heroica e altiva, pomposa e destemida. A essa criação da representação imagética do bandeirante costuma-se dar o nome de “mito bandeirante”.
O historiador Ricardo Luiz de Souza conceitua da seguinte forma: “Por mitologia bandeirante entendo o conjunto de narrativas e tradições referentes à imagem do bandeirante enquanto fundador da nacionalidade e enquanto símbolo do paulista”. No mesmo trabalho, o historiador ressalta que “A mitologia bandeirante iria estruturar-se apenas a partir do final do século, com o bandeirante surgindo nos anos vinte, nas palavras de Sevcenko, “como o lídimo representante das mais puras raízes sociais brasileiras, conquistador de todo o vasto sertão interior do país, pai fundador da raça e da civilização brasileira””. 5
É dentro desse contexto que surge a relação da herma de Cândido Motta com a gratidão do povo de Porto Feliz. Nascido em Porto Feliz, Cândido Motta exercia o cargo de Secretário de Agricultura no governo estadual de Altino Arantes, naquele ano de 1920. Aliando-se a necessidade de se reforçar a construção ideológica do “bandeirante” paulista – dentro de uma diretriz que o colocava como herói desbravador e “alargador” de nossas fronteiras – com o passado de Porto Feliz, pensou-se na importância de se rememorar a epopeia das Monções erigindo monumentos, ou seja, instituindo lugares de memória.
Nascia assim a ideia de se criar o Parque das Monções e o Monumento aos Bandeirantes, instalado no mesmo parque, bem como trazer algumas outras melhorias para a cidade naquela mesma ocasião. A linha férrea, ramal da Estrada de Ferro Sorocabana, também foi inaugurada naquela oportunidade.
Porto Feliz recebia melhoramentos naquele ano de 1920, como ampliação da iluminação pública (também do então distrito de Boituva), criação de escola noturna sob a direção do professor Octaviano Martins Coelho, bem como a completa iluminação do Largo da Penha, permitindo a frequência do público durante o período noturno (CORREIO PAULISTANO, 21 jan 1920, p. 7). Também recebeu a instalação da Caixa Econômica, anexa à Coletoria Estadual, sob a direção do escriturário Theophilo Ottoni Motta (CORREIO PAULISTANO, 24 mar 1920, p. 4). A cidade contava ainda com alguns melhoramentos de aburguesamento característicos das cidades daquela época, tais como Teatro, Cinema, Companhias dramáticas.
Até mesmo a Igreja Matriz recebeu completa reforma (interna e externa) naquele ano de 1920, realizada pelo arquiteto José Dias Aranha e efetivada pelo pároco José Messias de Aquino (CORREIO PAULISTANO, 25 mar 1920, p. 5).

Um projeto político

Em fevereiro de 1920, foi divulgada a informação de que um ramal de linha férrea partiria da Villa Rafard até Porto Feliz (CORREIO PAULISTANO, 7 fev 1920, p. 4).  Os de Capivari requisitavam a ligação daquela cidade até Porto Feliz. No entanto, nem uma e nem outra alternativa vingou.
Uma semana depois, o mesmo jornal publicou a seguinte nota: “A Secretaria da Agricultura communicou ao sr. Inspector geral da E. F. Sorocabana que está de accordo com o seu parecer sobre a acquisição de terrenos necessários à construcção do ramal de Boituva a Porto Feliz” (CORREIO PAULISTANO, 14 fev 1920, p. 1).
A escolha desse ramal em vez daquele até Rafard deve se escorar na necessidade da presença do governador Altino Arantes na inauguração do Parque das Monções, que ocorreria dois meses depois. Fotografias da época da inauguração do ramal férreo mostram dormentes provisórios sobre os quais se afixaram os trilhos, demonstrando a urgência daquele empreendimento. Possivelmente, era mais fácil ao governador vir de Sorocaba à Porto Feliz do que de Rafard.
Ter o despacho favorável da Secretaria de Agricultura do Estado significa a intervenção direta de Cândido Motta nessa decisão. E isso denota interesse do governo.
Em março, o Secretário Cândido Motta pessoalmente se dirigiu à Boituva e Porto Feliz para verificar o andamento das obras de construção do ramal férreo. Cândido Motta veio acompanhado do então deputado Júlio Prestes e também de Cândido Motta Junior, Cesário M. Motta e Mario Maldonado (CORREIO PAULISTANO, 19 mar 1920, p. 1).
A escritura de compra e venda dos terrenos adquiridos pelo Estado para a construção desse ramal férreo foi registrada no 9º Tabelião de Notas da Capital (CORREIO PAULISTANO, 23 mar 1920, p. 1). No final de março, as obras de construção da estação local do ramal férreo achavam-se bem adiantadas, num ritmo que denunciava a pressa em sua conclusão (CORREIO PAULISTANO, 25 mar 1920, p. 5).

“A empresa José Giorge, contractante das obras da construção do ramal férreo que ligará esta cidade a Boituva, tem despendido os seus melhores esforços, fazendo trabalhar operários até de noite, para concluir as obras do leito que deverão ser inauguradas até o dia 26 do corrente mez, com a presença das altas autoridades do Estado. Os festejos que se realizarão no dia da projectada inauguração têm sido preparados pelo sr. Prefeito municipal, que está organizando um bello programa” (CORREIO PAULISTANO, 12 abr 1920, p. 6). 

Desse modo, o jornal Correio Paulistano explicitava a urgência na finalização dos trabalhos. Fica posto que a inauguração do ramal estava ligada à presença de Altino Arantes e sua comitiva e que esta visita se relacionava com a inauguração do Parque das Monções, o qual recebeu um imponente “monumento comemorativo da partida das monções”, realizado pelo escultor Amadeu Zani, o qual recebeu pelo trabalho a importância de 23:731$920, pagos pelo Tesouro do Estado (CORREIO PAULISTANO, 10 abr 1920, p. 1).
Somem-se a esta quantia mais 210:795$000 que foi o custo da obra do ramal férreo solicitado pelo Inspetor Geral da Estrada de Ferro Sorocabana para o Tesouro Nacional (A GAZETA, 23 jun 1920, p. 4). O ramal original contava com uma extensão de 23,873 km, segundo o relatório apresentado pelo presidente do Estado de São Paulo, Washington Luis Pereira de Sousa, ao Congresso Legislativo em 14 de Julho de 1921.
Pouco tempo depois, noticia-se que durante as festividades para inauguração do ramal férreo, do Parque e do Monumento às Monções, será também instituída a herma em homenagem à Cândido Motta: “Por occasião das grandes festas promovidas por motivo da inauguração do ramal férreo de Boituva a Porto Feliz e do monumento comemorativa da partida das monções a realizar-se depois de amanhã, será também inaugurada, nesta ultima cidade, a herma do sr. Dr. Candido Motta, secretário da Agricultura. A herma, que é um bello trabalho artístico do esculptor Julio Starace, será inaugurada com toda solenidade. Quer o busto, extraordinario como reproducção, quer a base, um soberbo pedestal de granito, constituem mais um bello trabalho do esculptor Starace, ao mesmo tempo que representam uma sincera homenagem dos seus conterrâneos ao sr. Dr. Candido Motta” (CORREIO PAULISTANO, 24 abr 1920, p. 1).
Com uma comitiva composta de dezenas de pessoas, das quais se incluem o chefe do comissariado em Bruxelas (Bélgica), sr. Luiz Silveira, o Diretor de Obras Públicas, Alfredo Braga, o Cônsul da Guatemala, Leopoldo de Freitas e o Diretor do Museu Paulista, Afonso d’Escragnolle Taunay, este um dos idealizadores do monumento aos bandeirantes (ou monumento da partida das monções), localizado no Parque das Monções, o presidente do Estado de São Paulo, Altino Arantes, acompanhado de Cândido Motta chegou em Sorocaba às 9 horas e 13 minutos daquele dia 26 de abril de 1920. A comitiva cumpriu diversos protocolos e chegou à Porto Feliz às 13 horas e 20 minutos, na estação recém-construída. Foram recepcionados por um público estimado em 1500 pessoas (CORREIO PAULISTANO, 28 abr 1920, p. 4).
Na inauguração do Parque das Monções, Afonso d’Escragnolle Taunay pronunciou um eloquente, apaixonado e longo discurso em frente ao monumento: 

“Ao generoso convite do sr. Dr. Candido Motta, ratificado pela comissão promotora da erecção do monumento às monções, agora inaugurado, devo a honra, muito grata, de fazer ouvir a minha voz desautorizada, nesta solennidade que nos é sobremodo cara, a todos nós, paulistas e brasileiros. É que nella rememoramos uma das mais gloriosas épocas de que se pôde orgulhar o passado de nossa terra e de nossa gente.
É que nella exaltamos a conquista do Brasil pelos brasileiros...
Como títulos a tão desvanecedora incumbência, apenas me toca a apresentação de modestas pesquisas sobre o bandeirismo paulista, assumpto sobremodo caro a todos os que prezamos a tradição nacional. Títulos muito escassos portanto...
Pesou mais fortemente para a escolha a delicadeza das intenções de quem quis associar os dois nomes: o do orador da inauguração e o do naturalista explorador do Brasil Central, a quem a morte tão cedo colheu nas ondas do Guaporé e de cuja arte se utilizou Zani para assumpto dum dos baixos relevos da sua bella columna rostral. 
Si o portuguez se apossou, para o império das quinas, do littoral que é hoje nosso, foi o brasileiro, foi acima de todos o paulista quem a esta faixa incorporou a imensidão das terras centraes. [...] Foram os filhos da colônia, os de S. Paulo, incomparavelmente mais que os outros, - quem o ignora? – a quem coube tornar enorme este Brasil...” (CORREIO PAULISTANO, 28 abr 1920, p. 4).


O discurso de Taunay é claro: o objetivo é criar o lugar de memória, ou seja, “rememorar” o passado “bandeirante”, e portanto, paulista, evidenciando que coube a esse personagem a tarefa de alargar as fronteiras do Brasil. Para isso foram movimentados tantos recursos, talvez como nunca mais, e nesse sentido, a figura de Cândido Motta se destaca, facilitando o financiamento necessário. Nas palavras de Ricardo Luiz de Souza, “Relativamente pouco influente, pois, na construção da identidade nacional, o bandeirante, ou antes, sua mitologia, foi figura fundamental na construção da identidade paulista, com a valorização deste e a exaltação da unidade nacional caminhando juntas” (SOUZA, 2007, p. 156).

Mas, afinal, bandeirismo e monções são coisas distintas ou não?

Affonso d’Escragnolle Taunay, enquanto historiador interessado no bandeirismo paulista, associa os dois eventos como fazendo parte de uma mesma fase do desenvolvimento territorial e econômico da capitania de São Paulo. Diz o historiador, em sua obra “História das Bandeiras Paulistas”, que “Como consequência imediata da descoberta do ouro cuiabano operou-se a transformação da principal rota sertanista, já quase sesqui-secular da penetração ocidental, para a devassa das terras e preia do índio, em via comercial e militar. Criava-se o episódio das monções, inserto com o maior relevo nos anais do bandeirantismo” (TAUNAY, s/d, p. 113). Para Taunay, portanto, a epopeia das monções era um desdobramento da grande história das bandeiras paulistas.
De fato, como diversos autores, cronistas e historiadores, atentam, foi por volta de 1718 que o bandeirante Pascoal Moreira Cabral, em busca de prear os índios Coxiponés, acabou por acidentalmente encontrar ouro em Cuiabá. Mas, como conta o escritor tatuiense Paulo Setúbal, no seu livro “O ouro de Cuiabá”, a bandeira de Pascoal Moreira Cabral não consegue prear os índios Coxiponés, motivo pelo qual tem que se contentar com o ouro encontrado! Que ironia! 
A descoberta de ouro no Cuiabá dá início às monções, expedições fluviais para prospecção do metal precioso. Algumas monções partiram de Sorocaba (Pascoal Moreira Cabral e Miguel Sutil de Oliveira, dois dos primeiros desbravadores do ouro cuiabano eram originários de Sorocaba), utilizando-se do rio de mesmo nome, o qual desemboca no Rio Tietê. Porém, o Porto de Araritaguaba tornou-se o entreposto principal de onde partiram as monções, quer para a busca do ouro, quer para a realização de expedições militares e também para o abastecimento de víveres.

De Monções também se vive

Embora a história de Porto Feliz extrapole o episódio das monções, inegavelmente essa foi uma página importante de nosso passado. Se Taunay se ressentia na década de 1920 da falta de estudos sobre o bandeirantismo, é fato que pouco avançamos em relação ao estudo das monções. Com raras exceções, a maioria composta de trabalhos acadêmicos de acesso limitado, ainda se tem uma noção muito vaga do que foi e do que representou a epopeia das monções para a nossa história.
Até pouco tempo, por exemplo, acreditava-se que a escravaria enviada para as regiões auríferas era composta apenas de “boçais”, carregadores e trabalhadores braçais. No entanto, é muito provável que para o trabalho especializado das minas fosse necessária a aquisição de escravizados que tivessem especialização em mineração. Ademais, outras funções importantes, tradicionalmente realizadas pelos escravos, teriam de ocorrer por mãos de alguém nas terras cuiabanas.
Desse modo, a compra de escravizados com dotes especiais é algo que se deve pensar para o sucesso do empreendimento mineiro. Nesse sentido, alude o historiador Aluísio de Almeida acerca do sertanista Fernão Dias Falcão, que partiu numa monção em Sorocaba rumo a Cuiabá, tendo na cidade paulista adquirido escravos negros, incluindo um barbeiro sangrador (ALMEIDA, 2012, p. 47).
De acordo com Affonso d’Escragnolle Taunay, em seu discurso diante do monumento das monções (ou aos bandeirantes), de Porto Feliz partiram as expedições fluviais na década de 1720. Essas expedições, chamadas de monções, perduram no próximo século, porém com outras características: de abastecimento comercial, de ligação entre províncias, para expedições científicas. Até o momento em que “Porto Feliz, cidade em 1858, perde o hábito das monções e entrega-se à agricultura” (CORREIO PAULISTANO, 28 abr 1920, p. 4).
A retomada do passado bandeirante (ou mesmo monçoeiro) em Porto Feliz com vista ao enaltecimento da memória fez parte do interesse do governo municipal também. O prefeito da época, Coronel Eugênio Euclides Pereira da Motta promulgou a Lei nº 1 de 20 de fevereiro de 1922, instituindo o Brasão de Armas da cidade de Porto Feliz. De acordo com o memorialista Reinaldo Crocco Junior, esse Brasão “Foi restabelecido pela Lei nº 31, de 16 de junho de 1948, no governo do Prefeito Dr. Lauro Maurino e instituído oficialmente pela Lei nº 2.033, de 28 de agosto de 1972, no governo do Prefeito Sérgio Bettiol. Seu autor é o historiador e museólogo Affonso D’Escragnolle Taunay, com revisão do heraldista Professor Arcinóe Antonio Peixoto de Faria, membro da Enciclopédia Heráldica Municipalista”. 
O referido Brasão está ladeado por dois “bandeirantes”, caracterizados de acordo com a criação imagética do mito bandeirante. Interessante documento, a Lei de 1972 traz explícita a informação de que “Os tenentes lembram o elemento humano na figura do bandeirante, com vestimentas típicas lembrando o vulto sobejante conhecido de nossa heráldica, embora com restrições por parte dos estudiosos da nossa história-pátria, quando afirmam que o verdadeiro bandeirante não usava chapéus e botas – andava descalço e de calções curtos, com o gibão de couro cru forrado de algodão, usado como defesa contra as flexas dos índios”.
A figura do bandeirante, exaltada nas letras e nas pesquisas por Taunay e Alfredo Ellis, dentre outros, e nas imagens por Belmonte, é também efusivamente enaltecida nos símbolos do município: bandeira, brasão e Hino. Afinal, temos dos “filhos o sangue paulista dos valentes heróis das monções”!


Monumento às Monções inaugurado solenemente no dia 26 de abril de 1920, pelo Governador de São Paulo, Dr. Altino Arantes. É composto por uma bela coluna rostral de granito rosa, encimada pela esfera armilar, à margem esquerda do Lendário Rio dos Paulistas

*Herma: De acordo com o Dicionário Mor da Língua Portuguesa, do Prof. Cândido de Oliveira, a herma é um “busto de ombros, costas e peitos cortados por planos verticais”. Isso em escultura. Aparentemente, o termo refere-se a bustos dedicados ao deus Hermes da Grécia Antiga.
1 NARDY FILHO, Francisco. Porto Feliz – Apontamentos históricos. Itu: Ottoni Editora, 2000, p. 36.
2 Idem, p. 46.
3 Idem, p. 47.
4 MACHADO, Alcântara. Vida e morte do bandeirante. São Paulo: IMESP, 2006, p. 30.
5 SOUZA, Ricardo Luiz. A mitologia bandeirante: construção e sentidos. In História Social, nº 13. Campinas: Unicamp, 2007, p. 151, 154. Disponível em: https://www.ifch.unicamp.br/ojs/index.php/rhs/article/download/215/207

Carlos Carvalho Cavalheiro
Mestre em Educação (UFSCar), Licenciado em História (UNISO) e em Pedagogia (UNICOC), professor de História da rede pública municipal de Porto Feliz (desde 2006), colaborador dos jornais ROL e Tribuna das Monções, é escritor, historiador, poeta e pesquisador de cultura popular paulista.

REFERÊNCIAS
ALMEIDA, Aluísio de. História de Sorocaba. Itu: Ottoni, 2012
CAVALHEIRO, Carlos Carvalho. O negro em Porto Feliz. Sorocaba: Crearte, 2015
NARDY FILHO, Francisco. Porto Feliz – Apontamentos históricos. Itu: Ottoni, 2000
SETÚBAL, Paulo. O ouro de Cuiabá. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1983
SOUZA, Jonas Soares de. A cidade e o Rio – Araritaguaba, o Porto Feliz. Itu: Ottoni, 2009
TAUNAY, Affonso de E. História das bandeiras paulistas. São Paulo: Editora Melhoramentos, s/d
Artigos de Carlos Carvalho Cavalheiro publicados na Tribuna das Monções
Artigos de Reinaldo Crocco Junior publicados na internet



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