• Quarta-Feira, 19 de Dezembro de 2018
  • Porto Feliz - Bom dia

UM DESCENDENTE NA MULTIDÃO

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UM DESCENDENTE NA MULTIDÃO

Boves. Willians Boves. E só. Fui registrado somente com o patronímico, e assino da mesma forma que meu trisavô João Boves, que chegou a Porto Feliz com sua família no alvorecer do século 20, vindo da cidade de Angillara Venetta, nos arredores de Veneza, Itália. Meus bisavós maternos, todos eles, também vieram da “bota”. Por muito tempo me vi como um descendente de italianos, exclusivamente. Boves, Trevisan, Roque, Finotti, Bonini... Isso até tomar consciência que meu avô Ernesto Boves, neto de João Boves, desposou a filha mais velha de um brasileiro, um porto-felicense que é considerado o maior nome da história da música em Porto Feliz: o maestro e compositor Virgilino de Oliveira Santos, meu bisavô, portanto. Em 2016 resolvi escrever sua biografia, o que consumiu 5 anos da minha vida. 


Corporação Musical Euterpe Portofelicense, em foto do ano de 1920. Fundada em 1869, era composta, principalmente, por Oficiais da Guarda Nacional, sob a direção do Maestro Benedicto Paes de Almeida. A partir de 1908, a Corporação Musical Euterpe Portofelicense passou a ser regida pelo então jovem Maestro Virgilino de Oliveira Santos, profundo conhecedor da arte musical. 
Virgilino dos Santos aparece nessa foto segurando a batuta com a mão direita, apoiando-a sobre o joelho direito. O notável Maestro Virgilino dos Santos, autor de inúmeras composições para bandas de música, é autor do belíssimo dobrado “Deus é a Lei”. Pela preciosidade das suas composições, o insigne Maestro e Compositor porto-felicense recebeu, do Conservatório Giuseppe Verdi, de Milão, Itália, uma batuta de ouro. Virgilino dos Santos foi contemporâneo do Maestro e Compositor Antonio Carlos Gomes, autor da ópera “O Guarany”, que também estudou música no consagrado Conservatório italiano. 
Foto: Arquivo Roberto Prestes.
Legenda: Reinaldo Crocco Jr.

Constatei que a origem do pesquisado é humílima, descendente de escravos por parte de pai e de livres por parte de mãe. Seu pai, inclusive, negro, aqui nascido por volta do ano de 1855, era juridicamente definido como escravo quando do nascimento de Virgilino. 

A despeito de fatores amenizadores dessa condição que contribuíram para a formação do maestro e compositor, não pude ir além dos avós paternos do meu bisavô, devido às limitações impostas pelo modo com que os registros dessas pessoas eram feitos. Mas algo me intrigava: por que uma mulher livre teria desposado um cativo? 

Para responder a isso, vali-me de relatos de família, recuei quatro gerações por meio de documentos e desvendei o mistério. Nesse processo, descobri que a mãe de Virgilino fora registrada com o sobrenome Leme, que advém de várias gerações antes dela. Um sobrenome importante, realmente. Mas é preciso cautela para atestar qualquer descendência. Porque por exemplo, não raro era os escravos de uma determinada família receberem o sobrenome da mesma; do mesmo modo, se uma pessoa livre era apadrinhada por alguém, também poderia receber o sobrenome da família dos padrinhos; e ainda haviam pessoas conhecidas pelo nome do seu local de origem, como meu próprio sobrenome, Boves, oriundo da comuna italiana homônima – Comune di Boves. 

Então, pedi ajuda para um heraldista, que é um especialista em brasões de família, que por sua vez consultou um genealogista, que disse ter encontrado um vínculo remoto entre antepassados da mãe de Virgilino com pessoas cujo registro existe no livro Genealogia Paulistana, que compila a genealogia e a história de inúmeras famílias povoadoras do Estado de São Paulo e do Brasil. Mas a árvore genealógica me custaria muito caro, e me dei por satisfeito com a simples garantia e com a orientação de vasculhar uma parte de minhas origens no referido livro. Pois, a “quatrocentona” Leme, onde o vínculo foi encontrado, é uma das famílias descritas no mesmo. 

A simples análise da seção correspondente à esta família é um passeio por inúmeras paisagens históricas do velho e do novo mundo. Desde a Casa Real Portuguesa até personagens célebres na história paulista e nacional, como o famoso bandeirante Fernão Dias Paes Leme e o santo da Igreja Católica Frei Galvão de Sant’Anna, para citar dois nomes mais conhecidos em uma miríade de figuras de grande destaque nesses 518 anos da conquista do Brasil pelos portugueses. 

Eu não tenho como afirmar que descendo diretamente de um monçoeiro ou de um bandeirante, possibilidades existentes nessa numerosa família. Certo é que na grande árvore genealógica dos Leme existem figuras facilmente destacáveis também na história das Monções: a começar pela definição da rota das expedições, onde os Leme tiveram participação na abertura do varadouro de Camapuã, dentre os quais o Capitão Pedro Leme da Silva e seus filhos, os infelizes João e Lourenço Leme, conhecidos por Irmãos Leme, que rumaram para Cuiabá na monção de 1719. João, aliás, teve filhos, João Leme da Silva e Pedro Leme da Silva, que faleceram em Cuiabá, saídos de Araritaguaba. Possivelmente o mesmo Pedro Leme da Silva seja o monçoeiro descrito no estudo “Itu e Araritaguaba na Rota das Monções (1718-1838)”, da Silvana Alves de Godoy. 

Em 1721 partiu de Araritaguaba uma monção que levou Fernando Dias Falcão, outro dos Leme, para Cuiabá. Falcão foi nomeado cabo maior das minas cuiabanas pela população lá instalada. Regressou a São Paulo em 1723. No ano seguinte, o Capitão General Dom Rodrigo César de Menezes enviou Fernando Dias Falcão de volta a Cuiabá com a patente de capitão-mor regente das minas. 

Em 1726, quando Rodrigo Cesar lá chegou em sua célebre monção, Falcão foi nomeado Provedor da Fazenda Real e dos Reais Quintos. O filho deste, Antonio de Almeida Falcão, em 1753 partiu de Araritaguaba junto a João Raposo da Fonseca Leme e oitenta soldados, com destino às famosas cachoeiras denominadas Sete Quedas, no Rio Paraná, onde havia uma instalação, um posto avançado dos portugueses. A missão era definir uma rota entre essa paragem e a Vila de Corumatim, no Paraguai, o que significava o possível embate com indígenas. 

Outros dos Leme, Cel. João Martins Barros, com uma força de trezentos e vinte e seis homens, foi o pioneiro que fez erguer em sertões inóspitos a Fortaleza de Nossa Senhora dos Prazeres no Rio Iguatemy, afluente do Paraná, para onde partiu a famosa expedição de Teotônio José Juzarte, todos saídos de Araritaguaba. Mais discretamente, é uma ocorrência um tanto frequente a menção de famílias pertencentes à árvore genealógica dos Leme que partiram para Cuiabá em algum momento. Por exemplo, Ignez de Chaves e Bento Rodrigues da Silva, ituanos, que falecerem nas minas de Cuiabá para onde levaram um casal de filhos, que, em 1760 não se sabia se eram vivos ou mortos; Paulo Leme de Anhaya, casado com Escholastica Alvares Pimentel, deixou sua mulher em Itu e foi para Cuiabá; José Leme, com 40 e tantos anos em 1760, era solteiro e estava ausente nas minas de Cuiabá em lugar incerto... Os dois primeiros capitães-mores de Porto Feliz também estão na árvore genealógica dos Leme: Coronel Francisco Corrêa de Moraes Leite, que assumiu o posto em 1797 e seu irmão, Antonio José Leite da Silva, que assumiu em 1820. 
(...)
Enfim, no processo de resgate da história do meu bisavô pude verificar minha ancestralidade, direta ou não, destas importantes figuras da história local, paulista e nacional.





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