• Segunda-Feira, 12 de Abril de 2021
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NAQUELA MESA TÁ FALTANDO ELE

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NAQUELA MESA TÁ FALTANDO ELE

Conheça a história de vida de um dos casais mais tradicionais da cidade de Porto Feliz: João Ercolin e sua esposa Cassilda, fundadores da Cantina Monções

Quase sempre, a força de vontade e a determinação em buscar melhorias na vida superam todas as outras motivações. Com a fé, podemos dizer que se tornam insuperáveis. Na vida de Cassilda Capelini Ercolin e João Batista Ercolin (in memoriam), a determinação e a fé fizeram parte de uma longa história de luta e companheirismo que começou em Tietê, passou por Cerquinho e, há mais de meio século, chegou em Porto Feliz.

 Há 50 anos, eles criaram a ‘Cantina Monções’, um dos bares mais tradicional da cidade, que sobrevive ao tempo e, em uma nova reforma, mostra toda a determinação de dona Cassilda em continuar no comando aos 84 anos de idade, a exemplo do seu finado esposo que se dedicou ao negócio da família até seu último suspiro.

Início

Nascidos em Tietê, dona Cacilda e seu João, moravam em bairros diferentes. Depois de 10 anos de namoro, eles decidiram se casar. “Naquele tempo, a gente namorava uma vez por ano, quando tinha festa na cidade. Era diferente de hoje”, recorda Cassilda.

Depois de casados, moraram em Tietê por 8 anos. “Trabalhávamos na roça, plantávamos no sítio da família do meu marido. Era uma vida bastante difícil e sofrida. Na época, tudo era mais difícil e, no sítio, tudo era mais sofrido”, revela.

Logo após o casamento, o casal se mudou para Cerquilho, quando iniciaram um comércio na cidade. No bar que montaram, trabalharam durante oito anos, mas dona Cassilda, em paralelo, investia em outro talento.


Corte e costura

Além do difícil trabalho no comércio, Cassilda também se destacava como costureira. Após diversos cursos na área, ela exerceu por 15 anos a profissão e chegou a dar aulas para diversas mulheres. “Eu dava aulas de corte e costura no sítio. Vinha em torno de 14 mulheres durante o dia e mais algumas durante a noite. Eu cobrava um valor mensal. Só em Cerquilho eram 40 moças que aprendiam comigo. Eram várias turmas”, recorda.

Conseguindo se destacar na confecção de roupas, Cassilda pensou em continuar no ramo e deixar o comércio, na época, comandado pelo esposo. “Tem horas que me arrependo de ter largado a costura, mas eu penso: se eu tivesse continuado, seria uma velha de 84 anos da mesma forma”, arremata. “Esses dias eu vi na televisão uma moça fazendo costura e deu saudades. Eu criava, desenhava, cortava e costurava. A minha prima vinha vender aqui em Porto Feliz. Ganhávamos um bom dinheiro com a costura”, complementa.

Porto Feliz

Em 1967, Cassilda deixou a costura e decidiu se dedicar apenas ao comércio, mas dessa vez em Porto Feliz. Juntos, ela e o marido vieram para tentar uma melhor condição de vida aqui. “Nunca me arrependi de ter vindo para Porto Feliz. Viemos atrás de trabalho e melhor condição de vida. Sonhava em ter a minha casa, mas não tinha o dinheiro. A gente deixa a família e as nossas raízes para buscar uma vida melhor... Muitas pessoas fazem isso e, no fim, tudo o que fica é a saudade”, desabafa.



Neste mesmo ano de 67, inauguraram a ‘Cantina Monções’, mas, no começo, nada era fácil. As dificuldades eram grandes para o jovem casal. “O prédio estava velho, demorou dez anos para reformar. Era muito difícil, pois o bar estava caindo aos pedaços e os fiscais pediam para que fizéssemos algumas adequações. Então, trocamos o piso, os azulejos e também o telhado”, recorda Cassilda.

Após 6 anos de muito trabalho, o prédio foi adquirido pelo casal. Com a reforma da Cantina, conseguiram também construir uma casa em cima do comércio. “Logo depois, derrubamos o prédio e construímos um novo e, durante seis meses, ficamos provisoriamente em outro ponto comercial. E, aos poucos, fomos construindo a nossa casa que era um sonho para nós”, relembra, com saudades.

 

Os pioneiros

Antes do casal, a mãe de dona Cassilda, Vitória Piazentim Capelini, e sua irmã Maria Aparecida de Campos Capelini, já moravam em Porto Feliz, na rua Draco de Albuquerque. Viveram por seis anos no local. “Minha mãe já morava aqui em uma casa ao lado do antigo cinema. Ela veio quatro anos antes com minha irmã que casou-se aqui, na Matriz de Porto Feliz”, recorda.

Com a Cantina já funcionando, decidiram morar nos fundos do comércio, de forma improvisada. “Morávamos em uma sala de jogos de bilhar. Eu mandei o pedreiro construir uma porta e ficamos por seis anos dormindo lá. Nosso filho, José Roberto Ercolin ainda era pequeno e queríamos um lugar para iniciar a nossa vida”, explica Cassilda.

Dificuldades

 O início foi muito difícil para eles, recém chegados na cidade, tudo se tornava cada vez mais complicado. Parecia que nada daria certo, mas a fé fazia o casal persistir. “Era difícil, a gente colocava dez salgados para vender e não vendia nenhum. Não entrava ninguém no bar. O prédio estava feio... era antigo, muito feio. Um dia eu pensei: vou pegar firme! Vou levantar amanhã e fazer esse bar melhorar. Desci e comecei a fazer pastel e também comida à noite. Onze horas da noite, começávamos a fritar frango e polenta e lá pelas duas da manhã eu e o João estávamos limpando o bar”, recorda.

Predestinados em superar os obstáculos, o casal também investiu em outras opções para alavancar o comércio e vencer as dificuldades. “Logo depois, começamos a fazer almoço para os clientes e a situação foi melhorando, mas era uma luta diária. Começamos a fazer lanches e pizzas e o bar começou a encher de gente. Começou a ficar pequeno. Formava fila na rua para entrar. Tudo que colocávamos para vender, vendia. A vitória começou a ficar mais perto da realidade”, relembra, eufórica.

Mesmo com tantas dificuldades superadas através do trabalho e dedicação, dona Cassilda agradece: “Nunca me arrependi de nada. Eu gosto do serviço na cozinha também. Na vida, a gente trabalhou muito e viveu pouco. Mais trabalhei do que vivi. Mas não me arrependo. Aqui eu consegui ganhar um bom dinheiro e pude ajudar bastante gente. Deus quis assim. Ele quer que a gente reparta o que tem. E eu reparti, com a graça de Deus.” 

Uma grande perda

 epois de uma luta de décadas ao lado do seu grande parceiro, seu João, uma triste realidade assolou. Aos 82 anos, o marido adoeceu, mas continuou na batalha, dessa vez, pela vida. Depois de um ano se tratando, em 2011, João Ercolin faleceu. “Vivemos 52 anos como casal e como parceiro por 62. Eu senti muito a morte dele. Eu sempre o aconselhava a parar de fumar. Ficou a saudade... Sinto muita saudade dele... Queria muito que ele estivesse aqui comigo”, emociona-se.


Seu João, como era conhecido, faleceu em 2011, vítima de enfisema pulmonar, decorrente do cigarro. Ele trabalhou até os últimos dias de vida. Irreverente e bastante querido, seu João deixou muitas saudades entre todos que o conheciam.

Alguns anos após o falecimento do seu João, dona Cassilda, aos 84 anos, decidiu continuar, e mais: fazer uma nova reforma na Cantina. “Eu não consigo ficar sem trabalhar, me faz bem. Apesar da crise econômica que passamos atualmente, acredito que iremos vencer novamente. Eu continuo e continuarei firme aqui, até quando Deus permitir. Não pensei em parar em momento algum, acho que tenho uma missão a cumprir. Pensei nas pessoas, na família, e no carinho que meu marido tocava o bar”, conclui, motivada.

Renovação e saudade

Hoje, dona Cassilda se apoia no seu principal parceiro, o filho José Roberto Ercolin.

Jornalista, radialista e advogado, Ercolin, atualmente, é âncora na rádio Ipanema, em Sorocaba. Mesmo com uma vida corrida na área da comunicação, Ercolin nunca deixou de lado o comércio na cidade e sempre está ao lado, dessa vez, apenas da mãe. “Eu vim para Porto Feliz quando tinha sete anos, boa parte da minha adolescência e juventude aconteceu aqui.

Por isso somos muito gratos à cidade e à possibilidade que Deus nos deu de enraizarmos aqui. As alegrias, as conquistas que aconteceram, são as coisas que deixaremos como legado, tanto o meu pai, quanto a minha querida mãe, e eu também que, de alguma forma, tenha colaborado”, diz Zé Roberto.

Zé Roberto, como é chamado, também relembra os bons momentos vividos em Porto Feliz junto com a família e a importância da Cantina em sua trajetória. “Através da Cantina Monções, eu a tenho como fundamental na minha profissão de Jornalista. E também, através do colégio São José e da rádio de Porto Feliz, consegui galgar alguns degraus e chegar a rádio Jovem Pan, em São Paulo. E hoje, na rádio Ipanema por mais de 20 anos, podendo concatenar o trabalho lá e, mesmo com a distância, a gente sempre está olhando e observando o que acontece aqui na cidade.

Como na vida de muitos, temos que assumir e renovar. O verdadeiro objetivo é a renovação. Não existe velhice, sentir o peso do tempo, o que sentimos são as experiências e essas ficam para a gente melhorar e renovar. É isso que estamos buscando agora”, revela.

“A trajetória dos meus pais em Porto Feliz, e minha também, foi difícil no começo, mas muito feliz, muito alegre e compensadora. Prova disso, em termos materiais nós construímos, mas, a amizade, a vivência em Porto Feliz, são as melhores lembranças que temos”, finaliza.

Em 2015, Cassilda recebeu o Título de Cidadão Porto-felicense, das mãos do Vereador Antonio Queiroz, pelos relevantes serviços prestados à comunidade e sua história de vida em Porto Feliz



Matéria publicada na Revista Bemporto edição impressa n. 35 (abril/2017)



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