• Sexta-Feira, 16 de Novembro de 2018
  • Porto Feliz - Boa tarde

Sobre limites

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Sobre limites

Dia destes, caminhando pelo centro da cidade, deparei-me com uma cena, no mínimo, estranha: um menino de uns 7 anos, discutia com sua mãe, apontando-lhe o dedo e argumentando com uma verborragia incomum para uma criança. Ao chegar mais perto, ouvi com clareza do que se tratava: ele queria que a mãe o deixasse sentar no banco da frente do carro. Fiquei curioso com o desfecho daquela história, e como estavam parados na calçada em frente à Praça da Matriz, resolvi, disfarçadamente, parar também para ver uns artigos na vitrine de uma loja, enquanto captava o curioso diálogo, que transcrevo a seguir:

- Ah, mãe... Por que não posso sentar no banco da frente?
- Você é muito pequeno, não tem idade ainda para sentar na frente! 
- Mas mãe, não conto pra ninguém...
- Não é questão de contar ou não para alguém, não pode e pronto...

Abrindo um parêntese, percebi nesse trecho do diálogo duas coisas interessantes: a tentativa de estabelecimento de uma cumplicidade com a mãe para uma coisa que, tecnicamente, seria proibida, e a completa falta de argumentos da mãe para convencer a criança a ir para o banco de trás. Mas o diálogo prosseguiu:

- Mãe, a senhora nunca fez algo que não podia?
- Sim, já fiz, mas não é porque eu fiz que você também pode fazer!
- Ah, então a senhora não é tão certinha assim, o pai sabe disso?
- Claro que sabe, não escondo nada do seu pai!
- Ah, é? Então porque aquele dia que a senhora comprou aquela bolsa, me pediu pra não contar nada para o papai?
- Que é isso? Acha que pode falar comigo desse jeito? Sou sua mãe! E disse pra não contar para o seu pai porque queria fazer uma surpresa!
- Sei, mãe, sei!

Aqui abro mais um parêntese: percebemos claramente o início de um processo de chantagem, do tipo “eu sei o que você fez”, além de uma tentativa crescente de tornar o discurso da mãe incoerente, atacando diretamente os pontos fracos. O interessante é que, nesse ponto, a mãe começava a olhar para todos os lados, perdendo o foco e buscando até mostrar sua autoridade de forma mais enérgica, com a clássica “Eu sou sua mãe”. Incrível como os pais, ao se verem encurralados, mesmo os mais liberais, deixam aflorar seu lado fascista nestas horas. Igualmente incrível, como o “pequeno monstrinho”, tenta criar uma cumplicidade do mal, do tipo “eu não contei, lembra? E agora você fica me negando isso!”. E a história continuou. 

- Mãe, eu quero um sorvete!
- Antes do almoço? Nem pensar...
- Poxa, eu não posso nada mesmo! 
(Nesse ponto, o “beiço” estava chegando ao pé!)
- Ai! Ai! Ai! Por que você faz isso com sua mãe, Matheus! Sabe que fico triste quando você faz isso!
- Eu sei mãe, mas eu também tô triste!
- Tá bom então, mas só um sorvete! Vamos lá... 

Observei aquele anão disfarçado de criança entrar de mãos dadas com a mãe na sorveteria, sair de lá cinco minutos depois com um sorvete de três bolas, e entrar no carro pela porta da frente, acomodando-se tranquilamente ao lado da motorista pateta, como se nada tivesse acontecido. 

A princípio pensei que o monstrinho ganharia apenas o sorvete e que este fora seu objetivo desde o início, mas não era! Ele queria tudo: sorvete, banco da frente e vá saber lá mais o que! Quanto à mãe, fiquei imaginando seu futuro com dores de cabeça, noites mal dormidas, desilusões e decepções, frutos de uma falta de limites e permissividade incríveis na infância. 

Acho fundamental argumentar com nossos filhos, amparar-lhes, dar-lhes o devido direcionamento sem ser extremamente proibitivo. Erramos muitas vezes todos os dias, e temos todo o direito de fazê-lo como seres humanos que somos. Mas jamais podemos nos esquecer da responsabilidade enorme que nos é dada, quando temos uma pequena criatura sob nossa guarda e cuidados. Jamais devemos deixar de colocar limites, deixando claro que, por amar tanto, precisamos também ser enérgicos e, muitas vezes, chatos!

Acredito que nossos filhos representam nosso grande patrimônio, nossa grande contribuição no cenário mágico deste palco surpreendente da vida! Fazê-los pessoas de bem, honestas, íntegras, de caráter incontestável, é nosso dever indiscutível! Infelizmente, algumas pessoas acham que amar é deixar, é permitir, é romancear! Ledo engano que cometemos sem perceber que, com isso, estamos produzindo futuros “queimadores de mendigos” em massa. 

Fui pra casa pensativo e, ao chegar, encontrei a Brunna, minha filha, que me perguntou: - E aí, pai? Como foi seu dia “mano”? Olhei-a com carinho, respeito e ternura e apenas respondi: - Foi muito bom, meu amor! À propósito... Não sou seu “mano” e não sou seu amigo, sou seu pai! Você é uma menina legal, por isso terá amigos aos “montes”... Mas pai serei somente eu!

Talvez falte apenas isso às pessoas: assumirem seus verdadeiros papéis!

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