• Quarta-Feira, 19 de Dezembro de 2018
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Conselhos do Peru

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Conselhos do Peru

Em 1990 fomos ao Peru. No ano anterior, dois amigos haviam feito a mesma viagem, mochilando desde Corumbá até Macchu Picchu. Passaram muitos perrengues na sua aventura. Fizeram-nos, então, uma lista de recomendações. Uma delas, a mais estranha, era “não pegue ônibus no Peru, locomova-se apenas de trem”. 

De posse dessa lista, eu e mais nove colegas resolvemos então, nas férias de julho de nosso último ano da faculdade, seguir os mesmos passos.

Caminhamos a famosa Trilha Salkantay, mais conhecida como Trilha Inca, considerada o trekking mais famoso da América do Sul. Pode-se começar essa trilha de vários pontos. Nós optamos por uma caminhada de dois dias e meio. É um trekking desgastante, por causa da altitude, no ponto mais alto da trilha, 4.200m, seu coração e pulmões trabalham duas vezes mais que o normal para compensar o ar rarefeito. O ponto final de nossa viagem era Macchu Picchu. Chegando lá, voltaríamos para casa. Porém, após 22 dias viajando e ter completado a trilha, estávamos cansados e com muita vontade de estar em casa novamente. Por isso, ao chegar em Cuzco e constatar que não havia trem no mesmo dia para Puno, resolvemos nos valer do bom e velho ônibus, sem dar a mínima importância à recomendação de nossos amigos.

Embarcamos no final da tarde em um velho ônibus dos anos sessenta, daqueles Cometões arredondados. Nossas bagagens não couberam no maleiro e o motorista colocou-as no teto, do lado de fora, onde havia um bagageiro tipo esses de jipe, com escadinha. Eu me sentei na última fileira, lado esquerdo, corredor. Nas costas do banco da frente, um enorme rasgo no courvin, dando o exemplo de como deveria estar o restante da manutenção do coletivo. Ao meu lado um de meus amigos. Nosso grupo era o fundão.
Uma brisa gostosa entrava pela janela aberta enquanto o veículo iniciava sua viagem ao cair da tarde. Estava um pouco frio devido ao inverno, mas nada que incomodasse. Ainda.

A estrada era em terra. Terra? Pedras. Sentados no último banco, pulávamos bastante, mas era divertido. Aproveitávamos e cantávamos e gritávamos a cada salto provocado por uma pedra maior.

Na primeira parada, o ônibus lotou. Pessoas simples, todos praticamente índios, entravam com sacos, malas, bagagens, engradados com galinhas e os mais variados itens. A maioria, “cholas”.

Cholas é como são chamadas as índias no Peru, que possui a maioria de sua população descendente de etnias quíchua e aymara. Aos meus olhos, naquela gostosa tarde peruana, o ônibus lotou de índios. As cholas usam chapéus coco na cor marrom, blusas coloridas e sete saias sobrepostas. Quando estão com crianças de colo, carregam-nas nas costas em coloridíssimos panos, como se fossem mochilas. O povo simples peruano não tem o costume de se utilizar de mictórios. Urinam em qualquer lugar. Lembro-me que o local de urinar para os homens, na parada do ônibus, era na parede da frente do restaurante. Sim, você ali, se aliviando de costas para a estrada, enquanto passageiros circulavam por perto, ao ar livre. Mas as cholas, segundo o costume, urinam na rua mesmo. Abaixam-se e alguns momentos depois, levantam-se e deixam uma roda molhada. Então é possível imaginar o cheiro que ficou o ônibus quando o mesmo se encheu de passageiros.

Anoiteceu e o pula-pula do fundão já não era mais engraçado. A temperatura havia caído muito e não conseguimos fechar totalmente a janela. Nos cantos, do lado de fora, já começava a acumular gelo. Não dava para dormir. 

Por volta de duas e meia da manhã, o ônibus parou. Estávamos no meio do nada. O que se podia ver com a luz do farol era algo como um deserto, terra e pedras. De repente, ao lado da janela, um homem de camuflado capuz negro, portando um fuzil automático. Logo, outros apareceram. O motorista saiu do ônibus, rapidamente voltou e veio até o fundo, nervoso, gritando:

- Comida! Comida para los guerrilleros!

Alguns passageiros colocaram alimentos em um saco na mãos do motorista, lembro-me que uma amiga minha colocou uma maçã.

Os guerrilheiros eram do grupo Movimiento Revoluvionario Túpac Amaru, menos conhecido que o famoso Sendero Luminoso, porém com fama de mais violento. (Seis anos depois eles tomariam a embaixada do Peru em Lima, tomando 610 reféns. Foi a segunda tomada de reféns em embaixada mais longa, atrás apenas da ocupação da embaixada dos EUA em Teerã, que durou 444 dias.) 

Começamos a escutar barulhos no teto. Alguns guerrilheiros haviam subido para averiguar as bagagens. Neste momento o motorista retornou ao ônibus:
- Diñero! Diñero para los guerrilleros!

Meu colega retirou uma nota de 50 soles, a mais alta na época e já ia colocando no saco, quando segurei seu braço e disse:

- Não faça isso. Esses passageiros são pessoas bem simples, acho que nenhum deles tem esse dinheiro todo para dar. Isso pode fazer os caras entrarem para ver quem deu tal quantia.

Dito isso, vendo o rasgo no banco da frente, peguei meu dinheiro, separei um pouco e enfiei o resto no rasgo. Se os guerrilheiros nos descobrissem e levassem nosso dinheiro, ao menos eu teria a maioria em local escondido e seguro. Mas meu maior medo na hora não era ficar liso, mas refém.

Após alguns momentos, o motorista retornou ao veículo e deu partida, e vimos o grupo armado ficar para trás. A partir daquele momento, o motorista, apavorado, colou o pé. Nunca antes pulei tanto em um veículo como naquela noite. Chegamos às cinco da manhã. Naquele horário estava tudo fechado e o frio era muito intenso. Os passageiros se dispersaram e nosso grupo convenceu o motorista a deixar-nos dentro do ônibus até às sete, horário de chegada previsto anteriormente.

Aprendi duas lições: confiar na experiência de amigos e nunca tomar ônibus no Peru.

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