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Gente de Francisco

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Gente de Francisco

Entrevista concedida em dezembro/2016. Edição 31 da revista BEMPORTO.
Por Nilson Araujo / Fotos: Arquivo pessoal da entrevistada

Fazer o bem sem olhar a quem. Hoje em dia, é difícil ver pessoas que levam esse ditado popular a sério, mas, algumas ainda pensam e trabalham pelo seu próximo. É o caso de Maria Aparecida Faustino, conhecida como Mara, fundadora da Fraternidade da OFS (Ordem Franciscana Secular) em Porto Feliz e de tantas outras obras voltadas para ajudar o próximo. 

Mara conta que desde muito jovem teve contato com a história de São Francisco de Assis e quis seguir o modelo de vida inspirado pelo santo. Sendo assim, faz da sua vida um trabalho de entrega e dedicação ao próximo.

Nesta entrevista, Mara fala sobre sua família, o trabalho da OFS na cidade, dos desafios encontrados pelo caminho e da importância da coerência e fraternidade na vida diária. “O homem tem que ser consciente de quem ele é, o papel dele no mundo, tem que ter essa responsabilidade com todos e com o universo todo”. Confira! 

Você é gente de quem?
Sou filha de Samuel Faustino e Maria da Conceição Nogueira Faustino (Mariinha). Meu pai era da Barra Funda, vivia ali no campo da União, meu avô trabalhava no campo. Minha mãe morava na rua da Mil Pontos, sempre moramos nesta região do centro. Nasci em Porto Feliz e sou filha única. 


Mara e seus pais: Samuel e Mariinha

Como foi a infância?
Uma benção. Cresci na Barra Funda, minha família eram os amigos da rua, vivíamos brincando cada dia na casa de alguém, num tempo de convivência entre vizinhos. Todos simples, não pobres, mas simples. Inventávamos muitas brincadeiras, as famílias se sentavam nas calçadas para prosear até altas horas da noite, as crianças brincavam de pais, pega-pega, pula corda...

Recorda dos amigos desta época?
De todos. Dentre tantos, tinha a Regininha Moraes, Deise, irmã dela, Lúcia Torres Pinto, minha vizinha de frente, Vanilda, Regina Fustaíno, Cristina, Sandra Tabarro... eram muitas amigas.

Onde estudou?
No colégio das Irmãs (São José). No jardim da infância minha professora foi a Irmã Ana Maria, ainda viva, uma italiana alta, linda. A Irmã Conceição foi minha professora do pré. Terminei o magistério e, na época, a Irmã Rosário me convidou para ser professora no colégio. Só que no ano que entrei para lecionar, ela saiu e assumiu a Irmã Elisa Ambrósio junto com a Irmã Clementina.


Os amigos da 8ª Série do Colégio São José

Como foi este período?
Elas me deram uma primeira série, eu dizia que não tinha condições de assumir uma alfabetização, mas a Irmã Clementina me disse que preferia começar com alguém sem vícios educativos, então ela me formou educadora. Trabalhei por oito anos em sala de aulas e me aposentei como coordenadora.

Algumas pessoas que gostaria de prestar a sua homenagem?
De modo especial, Irmã Rosário, minha professora da 4ª série, que tinha o hábito de levar-nos até a biblioteca para ler. Assim, criei o gosto pela leitura. Da biblioteca da escola, fui para a biblioteca municipal, onde conheci seu Pedro Moreau, outra pessoa maravilhosa. Deus colocou na minha vida somente gente boa. Irmã Eliza, Irmã Clementina, Irmã Rosina, pessoas muito boas que se dedicavam a ajudar as órfãs do colégio. Tem a Dirce Buzzo também, que foi minha motivação para me formar em Biologia, embora nunca tenha exercido a profissão, nunca entrei numa sala de aula para dar aula de biologia (risos).

Nunca pensou em ser madre?
Amava o convívio com elas, mas nunca pensei em seguir a vida religiosa como elas, nunca tive vontade, como também nunca quis me casar. 

Você tem uma base religiosa bem sólida. Seu trabalho voluntariado vem desta vivência?
Vem dos meus pais. Minha mãe sempre lidou muito com isso, a porta da minha casa era, como dizia o meu pai, a Basílica de Porto Feliz, uma peregrinação de gente entrando e saindo e eu cresci no meio disso.

Como se sente criando estas iniciativas de ajudar?
É muito meu esta coisa de começar as coisas. Faço uma coisa, vejo que deram continuidade nela, então eu paro, saio e vou criar outra coisa, sou meio Padre Chico na vida (risos).

De onde vem esta vontade? Da sua religião?
Igreja para mim é uma coisa, fé fica num outro lugar. Na igreja eu fortaleço a minha fé, mas a fé transcende a igreja. Quando conheci o franciscanismo descobri algo diferente de religião e fé, descobri a espiritualidade e a espiritualidade franciscana coloca a gente na rua. Aí você começa a ver coisas que, talvez, dentro da igreja você não consiga enxergar. 

Como foi seu primeiro contato com São Francisco?
Eu tinha 9 anos. Foi um filme que assisti e me encantei com a história. Eu queria ser franciscana, mas não queria ser freira (risos). Quando eu estava na 8ª série, veio um grupo de Belém do Pará apresentar uma revista missionária e eles projetaram slides de um grupo de missionários leigos que trabalhavam com leprosos na Ilha de Marajó. Eu queria ir embora com eles. Fiz um carnaval em casa para ser missionária leiga, eu tinha 14 anos, nem deram bola, pai com mãe nem escutam nessa hora. Mais tarde, com a vinda do Padre Isaac, contei para ele deste meu desejo e ele formou um grupo de estudos, aí veio o pessoal do grupo de jovens da São João Batista, do qual já fazia parte, e um grupinho quis fazer parte destes estudos: Silvana Aguiar, Vânia Pelegrini, Rosana, mulher de Jaú, Miriam, Cida Pigosso. Sentávamos com o padre e estudávamos a fé.


Movimento de Assis que depois se tornou Fraternidade São Maximiliano Kolbe

Como surgiu o grupo Movimento de Assis em Porto Feliz?
Começou com uma ideia minha de fazer um teatro no colégio, uma peça sobre São Francisco. O coordenador Donizete, na época, fazia o papel de São Francisco, Marcel, professor de História, Luis, inspetor de alunos. Tinha um no teatro, que era da Congregação Cristã, o Holf, ele não sabia quem era São Francisco. Nos reunimos nas férias e eu tive a ideia de trazer um frei para falar sobre Francisco. No dia ele não veio. Então fizemos nós mesmo e foi tão bom que no ano seguinte todos quiseram novamente. No segundo ano, o Frei Severino Clasen veio e encantou a todos, lotamos o Dengoso neste dia. Dali surgiu a ideia de um grupo de jovens que chamamos de Movimento de Assis.  Fazíamos um trabalho maravilhoso de voluntariado na Santa Casa, eram jovens diferente dos grupos das igrejas. A igreja, nesta época, só oferecia a Renovação Carismática e estes jovens não cabiam no perfil, eles eram mais dinâmicos, ativos.  Deste grupo, cinco foram comigo para Sorocaba, professaram na Ordem Franciscana Secular, mas devido às particularidades de cada um, acabaram se distanciando, mas ficamos em quatro pessoas e conseguimos criar a fraternidade em Porto Feliz, só que aí mudou a cara; começaram a participar pessoas mais adultas, os jovens mesmo não vieram. A ideia inicial era a JUFRA (Juventude Franciscana), mas não deu.Porto Feliz tem este perfil de que os jovens tem que sair para estudar, trabalhar e, com isso, não conseguem conciliar suas obrigações com seus desejos mais íntimos em prol àquilo que gostam de fazer pelo próximo, ou por si mesmo. O tempo toma muito de cada um dentro das prioridades do dia a dia.

O que é a Ordem Franciscana Secular?
A OFS é uma ordem para leigos, casados e, por eu não ser casada, muita gente acha que eu tenho alguma consagração. O fato de eu ser solteira não tem nada a ver com franciscanismo. 

Qual o trabalho realizado?
Não é trabalho, é uma ordem religiosa. A gente tem regras para seguir, oração comum, estudos da vida de São Francisco, documentos da igreja, tem formação. Mas o mais importante é a vida em fraternidade, que é a parte mais difícil. Ajudar pobre é a coisa mais fácil do mundo, não é essa a nossa missão na terra, a gente tem que aprender a viver em fraternidade. Nossa vida fraterna é a parte mais importante, estar juntos!
O Franciscano é livre para fazer o que quer fazer, não há um trabalho em comum, mesmo estando em um grupo. O que eu quero dizer é: Franciscano não está para ajudar os pobres. Cada um faz o seu apostolado. Vem para o grupo, estuda, se fortalece e vai trabalhar naquilo que lhe toca o coração, cada um naquilo que se sente bem e se vê necessário, diferente dos Vicentinos cujo foco é ajudar famílias carentes.

Como foi que trouxe a OSF para Porto Feliz?
Descobri ao OSF em Sorocaba e fui para lá, fiquei 17 anos participando na fraternidade da cidade. Ficamos estudando por cinco anos, e formamos os primeiros franciscanos da fraternidade em Porto Feliz. Os grupos da Ordem Franciscana Secular se chamam fraternidades. Em Porto Feliz existe uma fraternidade com documentação e tudo. Montamos em 2011, eu, Eduardo Martins e Henrique Martorano, que trabalha com o Padre Washington, já éramos professos dentro da OFS em Sorocaba e formamos a fraternidade aqui. Do convívio entre os amigos, muitos começaram a fazer parte da fraternidade. A gente se reunia uma vez por mês para uma tarde de estudo, estudar a vida do santo e as admoestações escritas por ele.


Mara e o amigo Frei José Carlos Pedroso (falecido em 2015)

O que faz a fraternidade daqui da cidade?
Vamos dizer que damos uma assessoria espiritual na Casa Beracá, de Dago. Começou por causa de um Natal que fizemos lá. E uma característica nossa é que quando a gente faz a festa do Natal, a gente faz com alguém e ficamos o ano todo com este alguém. E agora, a gente vai toda quarta-feira lá, trabalhar a espiritualidade com eles. Não é um trabalho de caridade, de ver o que eles precisam, mas sim de levar a espiritualidade e coisas que ocupem a cabeça. O que queremos é que se ocupem de alguma coisa, que sintam prazer em outra coisa.

O grupo Acreditar também começou com você? Conte-nos como surgiu.
Numa Hora Santa que fizemos na Capela da Santa Casa, Xyko do SAAE estava lá tomando soro, olhei para o grupo e falei: ‘gente, vocês estão percebendo que nós estamos esbarrando nessa doença já há algum tempo? O câncer está meio que enroscando na gente’. Se, na época, Francisco cuidava dos leprosos, que era uma doença que chagava as pessoas, na atualidade você também sabe quem tem câncer, é uma doença que chaga a família toda. Então, Nei Potel trouxe a ideia de arrecadarmos Ensure, um alimento que auxilia no tratamento do doente, e, com isso, surgiu o projeto ‘Mãos na Via-Sacra’, título que tiramos de um livro de um frade de Piracicaba, e a ideia consistia em pessoas que fazem artesanato, doavam o artesanato e nós vendíamos o artesanato para comprar Ensure. Estas mãos ajudariam alguém que estivesse precisando. Começamos a fornecer o Ensure. Chegamos a doar 32 latas em um mês e é um produto muito caro.
Num belo dia, a professora Andreia bateu em casa e disse que tinha um grupo de mulheres que tinham a doença e que se reuniam para tomar um chá e falar sobre elas, para darem força umas às outras. Fomos conhecer o grupo e começamos a fazer mais por elas, fizemos bingos, artesanatos, a coisa foi crescendo, crescendo, começamos a fazer uma outra reunião na casa da Regiane Torres e tivemos a ideia de formar um grupo que chamamos de Acreditar. Desta sementinha, nasceu a Associação Acreditar que conhecemos hoje.

E o que os franciscanos fazem hoje?
Hoje estamos focados no Beracá. São Francisco tem uma tendência de trazer pessoas muito ativas. Se olhar para o nosso grupo, ele é composto por pessoas que arregaçam as mangas e colocam para ferver mesmo, são pessoas de decisão. Então, a gente não fica num lugar só, quando a coisa começa a andar sozinha, a gente começa, aos poucos, a sair e partir para outra missão.

Você teve algum tipo de conflito com a igreja, por conta desta autonomia independente?
Muito pelo contrário, quando o padre quer fazer alguma coisa extravagante, ele nos chama. Quando ele teve a ideia de fazer o café da Páscoa, ele me viu na praça e gritou: “Mara, venha aqui, você que é louca!” Chamou a pessoa certa (risos) e continuou: “estou com uma ideia de fazer um café da manhã, depois da procissão...” Então já fui dando a ideia de fazer o café no meio da rua e ele me cortou dizendo que tinha pensando em fazer no Centro Comunitário. Mas convenci-o que seria melhor na frente da igreja, onde todos, ao sair da missa, já se deparassem com o café. E assim foi. Temos algumas ideias bem diferentes, mas nos damos muito bem. 
Uma vez dei uma ideia, já que ele queria dar mais valor para a procissão da ressurreição. Perguntei para ele porque ele não fazia o encontro de Jesus com Maria nesta procissão. Ele virou para mim e disse assim: “ache na Bíblia o encontro do Cristo ressuscitado com Maria que eu faço” (risos) e nós só vemos em Pentecoste o encontro, quando Jesus aparece para os apóstolos. O que eu fiz: a procissão saiu pela porta da frente e nós montamos um altar na frente de Xico Cabeleireiro, hoje Cacau Show. Saímos pela porta do lado e montamos o altar ali. A hora que a procissão subiu pela André Rocha, o padre veio rezando a Ave Maria já contrariando com a cabeça (risos). Aí ele teve que parar, fazer uma reflexão improvisada e, como não tinha jeito, convidou os franciscanos ali a acompanhar a procissão com a imagem de Nossa Senhora. Foi muito bonito.
No ano seguinte, ele resolveu fazer um andor para a mãe de Jesus acompanhar a procissão. Não tínhamos nenhuma imagem de Nossa Senhora, aí Dona Oliana trouxe uma Nossa Senhora da Conceição e Chico Malafarina fez um andor lindo, cheio de hortênsias e a imagem sumiu no andor porque era muito pequena. O padre quando viu perguntou se não tinha uma santa menor que aquela (risos). Sem ele saber, reunimos todas as mães que perderam seus filhos para levar o andor. O combinado era Jesus sair e depois a Mãe ia se encontrar com ele. O encontro seria na esquina da padaria. Esperamos a procissão apontar na esquina de baixo e Fátima Casagrande começou a cantar Mãezinha do Céu, foi uma choradeira só. As mães desceram ao encontro de Jesus, não paramos. O diácono Silvio fazia gestos com a mão para esperarmos, mas não paramos. O padre me chamou disfarçadamente e perguntou se não era para ter esperado lá na esquina. Não teve jeito, revelei para ele que todas aquelas mães ali presentes, tinham perdido seus filhos. Ele me olhou nos olhos sem reação, mas foi um show. Depois deste ano, o número de mães aumentou, o andor agora sai cheio de fitas para as mães segurarem. Vêm mães de todas as religiões, não só a católica. 


Procissão da Páscoa com as Mães da Ressurreição

Como você se sente vendo e sendo também responsável por estas realizações?
São Francisco é assim, lúdico, espontâneo e ele gostava de ver acontecer, de pegar, muito sinestésico. Ele entendeu que Deus nunca quis montar uma ordem, a intenção era salvar Francisco. Aquela vida que ele se dedicou era para ele e se a inspiração dele trouxesse outras pessoas, sorte delas. Deus estava querendo resgatar Francisco, mas a espiritualidade dele salvou muitos mais. Ele foi de fato um instrumento da fé. Busco seguir seus feitos, com esta mesma espontaneidade e alegria em fazer. A gente queria ver o encontro de Maria com Jesus e hoje conseguimos ver. Isso é muito gostoso.

Quando você conheceu a história do santo, você também quis se despir da vida que tinha, como fez Francisco?
Eu era muito criança, mas eu acho que eu gostava das coisas que ele gostava. O problema de Francisco era que seu modo de viver o amarrava, a tradição familiar a qual cresceu o prendia, então ele teve que se desfazer de sua vida de regalias para viver o que realmente sentia e queria. E, quando você se sente bem em família, em sociedade, você não precisa se despir disso. Você precisa se desfazer somente daquilo que te atrapalha.

Essa espiritualidade toda ajudou você a lidar com a perda da sua mãe?
Muito. A referência se perde, quando você quer uma roupa e não encontra mais a resposta para uma segunda opinião, faz muita falta. Minha mãe ocupava um espaço enorme dentro de casa, não era só a minha mãe, era a Mariinha...  Foi muito difícil. Quando cheguei no médico com os exames, ele colocou as duas mãos na cabeça e disse que ela sofreria demais, que era o pior tipo de câncer que existe, e ela não sentiu nenhuma dor, não como ele disse que sentiria. 
Minha mãe me ensinou o que é ter fé. No dia de seu falecimento, fiquei lá fora no hospital, então veio o médico e a enfermeira, sentaram um de cada lado e o médico com aquela cara que parecem serem treinados para dar notícias ruins, começou a falar da situação dela, que era grave, e deu a notícia do falecimento. Nesta hora, a enfermeira perguntou por meus irmãos, se estavam lá embaixo. No que eu respondi que era filha única, ela disse espontaneamente, ‘nossa que triste!’ Foi nessa hora que eu chorei. Eu estava sozinha ali. Francisco fez a escolha certa: como é bom ter irmãos, devido a isso chamou todos e tudo de irmão e Santa Clara fala uma coisa muito bonita: ‘ou você aprende a ser irmão nesta terra ou lá no céu você vai sofrer muito, porque lá somos todos irmãos’.

O que falta para a humanidade?
Coerência. As pessoas precisam se comprometer mais. Tem gente que briga, vai embora, não tem nem peso na consciência, está no meio de um processo no qual não concorda, larga, vai embora e deixa a outra pessoa lá, sem chão. Falta atitude de irmão e isso não tem nada a ver com religião. O homem tem que ser consciente de quem ele é, o papel dele no mundo, tem que ter essa responsabilidade com todos e com o universo todo.


Franciscanos de Porto Feliz recebendo a relíquia de São Francisco

Quem foi São Francisco?
Um humano que deu certo!

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