• Domingo, 21 de Outubro de 2018
  • Porto Feliz - Bom dia

Cururu

Videos_01

Cururu

No Dia do Folclore (22 de agosto), Casa da Cultura “Narcisa Stettener Pires” em Porto Feliz recebeu um encontro de Cururu. Antes de falarmos de como foi o evento, vamos ver um pouco do que se trata a arte do Cururu. Antes de tudo é bom esclarecer que não sou especialista no assunto, pelo contrário, não sei quase nada. Tive a sorte de contar com a boa vontade de João Carlos Martinez, radialista e apaixonado pela música popular de raiz, especialmente pelo Cururu. Essa expressão cultural pode parecer simples, mas quanto mais você entende, mais detalhes vai percebendo e mais rico o assunto se torna. 

A origem do Cururu não é unanimidade, porém alguns pontos em comum são encontrados. A palavra Cururu que em tupi-guarani significa sapo pode ajudar a entender a origem desse estilo musical. Seria, pelo menos no início, uma mistura de dança e canto. Teria surgido de uma mistura e do encontro entre a cultura indígena e a catequização jesuítica nos tempos do Brasil colonial. Trata-se, portanto, de produto cultural do encontro entre indígenas e portugueses, um sincretismo luso-brasileiro. O cururu foi difundido pelo Brasil através das viagens dos bandeirantes, mas firmou-se como forte expressão cultural na região do Médio Tietê, principalmente nos municípios onde as festas religiosas católicas relacionadas ao Divino Espírito Santo eram fortes. Abrangendo especialmente as cidades de Piracicaba, Tietê, Conchas, Anhembi, Botucatu, Laranjal Paulista, Sorocaba, Tatuí, Votorantim e Porto Feliz.

No entanto, o Cururu não está restrito ao ambiente religioso. Num desafio de canto improvisado, tendo a viola caipira como principal instrumento musical, as suas temáticas abordam, hoje em dia, assuntos do cotidiano e apresentam disputas versando sobre política, usos e costumes da sociedade em geral, além de “ofensas” relativas às qualidades físicas e morais, condição financeira dos cantadores e por aí vai. Mas não se engane achando que é somente subir num palco e começar a cantar algumas rimas que está tudo bem. Como aponta Neusa de Fátima Mariano, em seu texto “Nas rimas do cururu do Médio Tiete”, há uma riqueza nos detalhes e na estrutura do canto do Cururu, geralmente despercebidas pelos menos atentos. 

O cantor pode ser chamado de canturião, o cantor novato é chamado de canturino, já o pedestre é o responsável em colocar as carreiras aos canturiões. As carreiras referem-se às rimas do desafio. Existem várias como, por exemplo, a carreira do Divino, em que as rimas devem ser em ino. Existem ainda as carreiras de São João, Sagrado, Virgem Pura, São Vicente, Santo Antônio, Santa Julieta, São Nicolau, São Longuinho, entre outros. Mas também há carreiras com referência apenas à uma silaba ou uma letra. O desafio do Cururu pode ainda ser organizado da seguinte maneira: Ordem ou súplica; explicação ou louvação; intimação ou ameaça; pergunta; resposta; reconciliação e despedida.

Como podemos notar, o Cururu é um assunto sério e rico. Fruto da longa tradição de séculos e que desde a primeira metade do século XX ganhou mais popularidade, inclusive com a militância de Cornélio Pires, grande defensor da cultura da nossa região. 

Podemos também citar alguns cantadores, entre tantos, que marcaram a história de nossa cultura popular com seu talento e generosidade. Entre os mais antigos destacam-se em nossa região Nho-Serra, Pedro Chiquito e Parafuso. Mais atuais temos Dito Carrara, Cido Garoto, Arlindo Mariano, Jonata Neto (Galo Índio), Luizinho Rosa. Em nossa cidade temos os nomes Geraldo Cristo, Zé das Neves, Tide Marciano, Zézinho de Arruda, João Carlota, Val Mâncio, Jairo das Neves, Batista das Neves, Cássio Carlota, Zé Antônio.  Os nomes são muitos e todos ajudaram e ajudam a construção dessa história. Dos que citamos vários já estão falecidos e alguns ainda continuam com essa tradição e que segundo os apaixonados pelo Cururu como João Carlos Martinez, não vai morrer. 

Voltando ao evento ocorrido na Casa da Cultura, que inclusive contou com a participação de Jonata Neto, no alto dos seus 83 anos, pois bem, quem esteve presente pode dizer que o Cururu está muito vivo. Para terminarmos de forma poética, como pede o tema desse texto, nada melhor do que fecharmos com a letra do famoso cururueiro Pedro Chiquito que gravou esta canção no início da década de 1960.
 
            Me falô os antepassado
            De uma lenda que existiu:
            Santo Onofre e São Gonçalo
            Um dia esses dois reuniu.
            Da barba de São Gonçalo
            Retiraram 12 fio;
            Encordoaro na viola
            Com toêra e canotio.
            Desse dia por diante
            Foi que o cururu existiu.

Comentários