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Coração Bandeirante

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Coração Bandeirante

Entrevista concedida à revista BEMPORTO em outubro de 2014

A paixão pela história começou ainda na infância e morar no Largo da Estação, ser vizinho de Pedro Paulo de Oliveira e passar horas e horas ouvindo Romeu Castelucci e o professor João Campos Vieira contribuíram ainda mais para a escolha de Claudimir Aparecido Causin, 49 anos, em cursar as disciplinas: História e Geografia. No entanto, desde pequeno, Causin também tinha uma grande inclinação para o Teatro, tendo realizado diversas apresentações circenses em sua própria casa para amigos e conhecidos. “Depois do circo no fundo do quintal, acabei levando para a escola a minha paixão, montando lá o Grupo de Teatro Vivência, muito apreciado pela comunidade. Durante cinco anos também trabalhei com o Grupo “Urca Show”, que fazia animação de festas com esquetes de palhaçadas por toda a região”, revela.

Em 1996, Causin foi convidado a participar como ator na encenação “A Monção de D. Rodrigo César de Menezes”, dirigida por Emílio Fontana Filho e, desde então, até 2013, sempre participou do evento, representando um personagem importante da história das Monções. Nesse meio tempo, ele efetivou-se como professor de História e trabalhou em diversos mandatos na prefeitura, como diretor de Cultura, do Museu e também da escola de Música. Nesta entrevista, Causin fala sobre sua infância, sua paixão pelas artes e história e explica por que, após tantos anos, não participará da apresentação do teatro das Monções, que será realizada na arena do Rodeio. Confira!

Você é gente de quem?
Sou filho de José Causin e Laurita Tomé Causin, descendentes de imigrantes que se estabeleceram na zona rural e trabalharam como lavradores. Meu avô Pedro Causin veio da Itália em 1898 ainda criança, junto com os primeiros grupos que chegaram à cidade e meu avô Fuha Miguel (Tomé), era neto de turcos. Minhas avós, Lúcia Caus e Catarina Savassa eram filha e neta de italianos.


Os pais José Causin e Laurita Tomé sempre incentivaram a veia artística do filho

Como foi sua infância?
Apesar das dificuldades, meus pais me deram uma infância muito rica. Morávamos na Praça Lauro Maurino, bastidores dos grandes desfiles como o Carnaval, Sete de Setembro, Semana das Monções, etc. Eu ficava atento, em meio às pessoas que corriam contra o tempo para organizar tudo. Ali perto ficava o antigo “Largo da Estação”, onde se instalavam os parques e “Circos Teatros”, onde eu via a montagem da lona e o ensaio dos atores e à noite ia com meus pais assistir aos espetáculos. Ali conheci minha amiga Rosana Diniz, hoje também atriz. Éramos vizinhos de Pedro Paulo de Oliveira, famoso por organizar a Semana das Monções na época.

Quais são suas lembranças dessa época? 
Além das brincadeiras de moleque, adorava ir de bicicleta com meu pai para o sítio dos meus avós e ir ao Parque das Monções aos domingos com minha mãe. Lá assisti todas as encenações da Semana das Monções da época.
Eu citaria também as engraçadas reproduções dos espetáculos dos circos. Era um circo ir embora e eu reunia-me com os amigos, ensaiávamos as esquetes e montávamos um picadeiro no quintal. Minha mãe, costureira e “figurinista” até hoje, improvisava as roupas e o cenário com suas cortinas e lençóis e emprestava seu rádio de pilha para fazermos a trilha sonora, lembrando que tudo isso tinha que estar desmontado antes que meu pai, que não gostava de “bagunça”, chegasse do trabalho. A propaganda era feita na escola e, após as aulas, cobrávamos 50 centavos à entrada, o que dava direito a um saquinho de pipoca, um copo de quissuco e muitas gargalhadas. Até hoje não sabemos se o sucesso era pela qualidade dos atores ou pela pipoca. (risos) Todos esses episódios despertaram em mim o pendor pela arte.

Quando se mudou para o bairro Bambu? Como era o bairro naquela época? 
Nos mudamos para lá na década de 70, o bairro era muito tranquilo. Na minha rua havia apenas quatro casas que disputavam o espaço com bambuzais, goiabeiras e demais árvores que compunham uma verdadeira mata. Nessa mata, os vizinhos criavam galinhas, patos, cabras, etc., era praticamente um sítio. Bons tempos!

Onde estudou até o Colegial? 
Estudei na Escola Coronel Esmédio até a terceira série do Ensino Fundamental e depois, já no bairro do Bambu, completei o meu período escolar até o Ensino Médio na Escola Coronel Eugênio.

Como foi sua adolescência? 
Foi marcada por uma fase de conquistas, pois meu pai me passou seus conhecimentos de “mateiro”, me ensinou a nadar, a pescar... Comecei a estudar fora da cidade, conquistei o primeiro emprego, a primeira namorada. Nessa época, aprendi a jogar futebol e com os amigos construímos um campinho, montamos um time e compramos os uniformes. O gol tinha até rede, feita à mão pelo habilidoso Valkir Del Rio, que, usando um gravador, fazia a locução dos jogos enquanto se equilibrava em cima de uma árvore. Mais tarde, fui convidado a jogar na Associação Atlética Porto-felicense, onde disputei muitos campeonatos.

Quem eram seus amigos?
Sempre tive muitos amigos em todas as fases da minha vida. No caminhar da vida alguns permanecem mais próximos, outros o destino afasta, mas quando os encontramos é como se o tempo não tivesse passado. Cultivar amigos é a maior riqueza que levamos dessa vida.

Como conheceu sua esposa?
Sou casado com Tânia Lima Barreiro Causin há 16 anos. Posso dizer que o destino nos uniu. Em 1993, havia voltado a estudar na escola Coronel Eugênio para completar o Ensino Médio, interrompido já há alguns anos por motivos particulares. Nesse mesmo ano, o mesmo objetivo levou Tânia para essa escola. Um ano depois, caímos na mesma classe e nos conhecemos. O que parecia ser uma amizade virou um grande amor. Convidamos a professora Rosa Maria Lopes, nossa professora na época, que foi testemunha ocular desse romance, para apadrinhar nosso casamento.


Causin e sua esposa Tânia

Por que resolveu estudar História? 
Sempre fui fascinado por história, gostava e ainda gosto muito de ler, pesquisar, assistir filmes e documentários sobre o assunto. Frequentava o Museu e podia ficar horas ouvindo o Sr. Romeu Castelucci ou o prof. João Campos Vieira falarem sobre nosso passado. Dirigi um grupo de teatro amador na escola Coronel Eugênio e, em 1994, recebi um convite de Nídia Motta para encenar um trecho do “Pagador de Promessas” para o cineasta Anselmo Duarte, quando ele visitou Porto Feliz. A partir daí, surgiu uma grande amizade e comecei a participar das rodas de conversa na casa dela, onde se falava muito sobre o desejo da volta do teatro às margens do Rio Tietê, nas Semanas das Monções, paralisado por muitos anos. A casa respirava cultura, recheada de livros, ideias, pessoas interessantes e conversas sobre o assunto. Lá conheci o historiador e professor Jonas Soares de Souza, que considero juntamente com o Sr. Romeu e o professor João meus grandes incentivadores.

E seu primeiro trabalho como professor? 
Comecei como professor eventual na rede Estadual de Ensino, mas nesse sistema não há como manter uma sequência de trabalho em uma sala de aula. Assim, considero que meu primeiro trabalho como professor foi quando me efetivei na Escola Luiz Antunes, em Tietê.

Como era a educação naquela época? 
Não faz tanto tempo assim, mas em 14 anos houve muitas mudanças, principalmente em relação ao comportamento, ao respeito e interesse dos alunos pelo aprendizado.

Quais foram suas dificuldades no início? 
Mesmo não tendo experiência, não encontrei grandes dificuldades no trabalho como professor. Tive a sorte de ser respeitado pelos meus alunos. Hoje, posso afirmar que os professores encontram mais dificuldades que antes.

Em qual escola trabalha atualmente?
Trabalho na Escola Coronel Eugênio Euclydes Pereira da Motta como Coordenador Pedagógico do Ensino Médio.

Como se envolveu com o teatro?
Sempre gostei de teatro desde menino. Depois do circo no fundo do quintal, acabei levando para a escola (Coronel Eugênio) a minha paixão, montando lá o Grupo de Teatro Vivência, muito apreciado pela comunidade. Durante cinco anos também trabalhei com o Grupo “Urca Show”, que fazia animação de festas com esquetes de palhaçadas por toda a região.

Qual foi a primeira peça que participou?
Minha primeira peça foi “Filme Triste”, de Vladimir Capella, dirigida e produzida pelo então casal Ulla Washuus e Benedito Solano de Carvalho.

Quando começou a participar do teatro das Monções? 
Em 1996, quando fui convidado a participar como ator na encenação “A Monção de D. Rodrigo César de Menezes”, dirigida por Emílio Fontana Filho.


Foto de Paulo Henrique Baldini

Sempre desempenha o mesmo papel? 
Não, de forma alguma. A cada ano é relatada uma nova história, com novos personagens. Já houve adaptações de peças anteriores, mas os atores não desempenham os mesmos papeis. A base para as encenações são pesquisas históricas sobre relatos monçoeiros e diários de viagens. Mas, para dar vida ao teatro, é necessário recorrer à ficção, sem a qual o espetáculo seria sempre o mesmo e se tornaria monótono e previsível.

Por que não aceitou o convite para participar do teatro deste ano? 
A verdade é que a atual gestão (na época da entrevista: gestão do prefeito Levi Rodrigues) que não me quis à frente das encenações.
Fiz parte da comissão que desejava resgatar o teatro em 1995, na gestão do Prefeito Luiz Antônio de Carvalho. Sem sua corajosa decisão de apoiar o grupo de sonhadores que posteriormente formaria o Grupo Tribo, dificilmente as encenações teriam emocionado pessoas por quase duas décadas.  Encontrei minha bandeira: Cultura e resgate histórico. Trabalhei como ator, dirigido por Emílio Fontana Filho em suas criações apoiadas de forma irrestrita na gestão do Prefeito Léo Rogado, que, juntamente com um grupo de pessoas representadas pelo nome Tribo, levou o nome de Porto Feliz à mídia televisiva e até mesmo à participar das comemorações dos 500 anos do Descobrimento do Brasil. No final da gestão Léo, o grupo acabou se dissolvendo e, em 2001, assumi a direção com a missão de estabelecer uma nova parceria com prefeito Erval Steiner, ao qual também agradeço. Como líder do grupo, posso ressaltar que sua parceria foi de fundamental importância para que chegássemos ao modelo de espetáculo de 2012, realizado no governo Maffei e assistido por mais de 10 mil pessoas durante cinco dias de espetáculo, lembrando que centenas de pessoas não conseguiram os convites, pois as vagas eram limitadas por motivos de segurança. 
Um produto cultural único, pronto para ser explorado turisticamente e sem concorrência, essa era a nossa intenção. Meu trabalho, voluntário, sempre foi respeitado, talvez porque todos, até então, entenderam que ele era despido de outro desejo além de levar nossa tradição adiante. A partir do momento em que o atual prefeito assinou a minha exoneração sem me dirigir uma palavra, ficou claro que ele não me queria em sua equipe, e, portanto, seria incoerente de minha parte aceitar tal convite.

Você é contra o teatro ser realizado na arena do rodeio? 
Não posso dizer que sou contra a apresentação de um evento cultural independentemente do local onde vai ser realizado.  Acredito que a proposta foi avaliada em reunião por pessoas que tenham o mínimo de conhecimento nesse tipo de evento. Se a equipe decidiu realizar é porque sabem o que estão fazendo. Penso que “o show tem que continuar”, mas este é um desafio que eu não aceitaria por razões técnicas, como a dificuldade para montar o cenário antes da apresentação, a impossibilidade de afinar a iluminação cênica e realizar os ensaios geral e técnico no local da encenação. Razões que poderão deixar os atores e a equipe técnica inseguros e comprometer o desempenho e a qualidade do espetáculo. Emílio teve que adaptar a encenação de acordo com o palco que lhe deram: uma arena de rodeio, sendo o rodeio a principal atração. De qualquer forma, desejo boa sorte a ele e aos atores.

Você acredita que a festa das Monções perderá o brilho por não ser realizada no Parque das Monções? 
O teatro realizado no Parque tem a peculiaridade de acontecer no suposto local onde, de fato, as verdadeiras expedições ocorreram. Sem dúvida, a repetição de um feito de nossos antepassados causa grande emoção para quem vivencia esta experiência, porque traz veracidade diante de um cenário natural que se configura como o mais verdadeiro monumento histórico que Porto Feliz possui: o Porto das Monções. É isso que torna única a nossa encenação e a diferencia de qualquer outra... Esse é o produto cultural que deveria ser explorado. Desvinculada do local, a encenação perde a sua força.

Além de professor de história, ator, você também ocupou diversos cargos em mandatos anteriores. Como foi essa experiência?
Acho importante enfatizar que eu nunca trabalhei na Prefeitura como ator, embora eu seja profissional nesta área. Na Prefeitura, trabalhei no mandato do Prefeito Cláudio Maffei, como Supervisor do Museu em 2004 e depois, de 2010 a 2013, tive a missão de implantar e organizar a primeira Diretoria de Cultura e Esportes da cidade. Nesses quatro anos, adquiri muito conhecimento sobre administração pública e ampliei meus horizontes em relação aos temas culturais.

O museu foi fechado quando você estava à frente dele. Como foi esse processo? Era realmente necessário esse fechamento? 
Há praticamente um século, desde a primeira intervenção que retirou a antiga aba do telhado e implantou o sistema de calhas para captação de águas pluviais, o Museu vem sofrendo com infiltrações em suas antigas estruturas, além da proliferação de insetos (cupins) nas madeiras de fundação. É um caso tão sério que ao longo do tempo foram feitas várias intervenções, mas o problema da infiltração não foi resolvido. Há rachaduras enormes no prédio que eu não pude, enquanto Diretor de Cultura, fingir que não estava vendo. Fui, então, em busca de pessoas especializadas, indicadas pelo CONDEPHAAT para analisar o problema a fundo - e foram constatados danos à estrutura do prédio que culminaram no seu fechamento. Tivemos que optar pela segurança das pessoas que trabalhavam e frequentavam o local, e o então prefeito Claudio Maffei foi muito corajoso por tomar esta decisão, sabendo que teria sua imagem desgastada e seria alvo de duras críticas. Porém, se até mesmo a Igreja Matriz necessitou gastar uma fortuna para se adequar às regras dos Bombeiros, é fácil afirmar que o Museu seria fechado de qualquer forma, pelo perigo que representa para a população.

Como vê essa demora para o início das obras do Museu? Está sendo prejudicial para a cidade, em especial, para o Turismo?
Sem dúvida é lamentável o descaso do Estado para com uma construção de tamanha relevância histórica, mas sabemos o quanto são burocráticos todos os processos dentro da administração pública. O Turismo de Porto Feliz está perdendo, certamente, pois o Museu das Monções é referência regional e estadual e atrai muitos turistas para a cidade.

Existe alguma coisa que possa ser feita para acelerar o processo?
Sim, insistência e persistência. Os representantes do município devem estabelecer um vínculo junto à Secretaria de Estado da Cultura através de visitas mensais - ou reuniões - e apresentar relatórios que informem o estado de deterioração do prédio e protocolar pedidos de urgência em relação ao início das obras. Mostrar-se interessado, foi dessa forma que conseguimos avançar.

Você também estava à frente da Escola de Música, mas foi exonerado em janeiro deste ano. O que achou da decisão do prefeito Levi em tirá-lo de lá?
Só aceitei dirigir a escola de música por dois motivos: primeiro, por consideração a Miguel Arcanjo, vice-prefeito, e a Simone Motta Almeida, Secretária de Educação na época, pessoas que estavam no governo e que conheciam o meu trabalho. Segundo, pelo projeto de mudança que eu propunha para a Escola de Música, criado na gestão passada na Diretoria de Cultura, quando ainda era diretor. Disse que precisava de quatro anos para implantar o projeto, fiquei um. Acho que eles não entenderam. No final de 2013, o prefeito Levi deu uma entrevista dizendo que estaria substituindo engrenagens que não estavam funcionando, mas ele nunca visitou a Escola de Música, nunca soube do meu trabalho.

Como se sentiu a respeito dessa decisão?  
Eu senti uma grande falta de consideração com a minha pessoa quando recebi um telefonema para me dirigir ao R.H. assinar um papel. A exoneração, em si, para mim não foi uma surpresa, o prefeito tem o direito de decidir. O que eu não esperava é que ele não fosse capaz de fazer isso verbalmente; eu prezo, acima de tudo, pela clareza e o respeito nas relações, não importa em que situação. Mas saí de lá com a certeza do meu dever cumprido e voltei para o meu trabalho.

Como vê a administração atual da cidade? (gestão do prefeito Levi Rodrigues)
Bem, por enquanto o que podemos observar em dois anos de governo é que a maioria das obras realizadas nesta gestão são frutos remanescentes de convênios da época do Governo Maffei. Eu me sinto inseguro a respeito do que irá acontecer após as eleições de outubro; afinal, o governo Levi não conta com representantes no âmbito estadual ou federal. Acho que somente o apoio de um deputado não é capaz de trazer para Porto Feliz os investimentos necessários.

O que precisa ser feito para melhorar? 
Ser prefeito é uma tarefa árdua, que exige muita coragem e discernimento, sobretudo nos dias de hoje com tantas leis para engessar o bom andamento da administração pública. Por isso, eu considero tão difícil criticar quem está desempenhando esta tarefa. Acho que se o Prefeito Levi cumprir o que estabeleceu como meta em seu Plano de Trabalho, ficaremos todos muito satisfeitos. Desejo boa sorte a ele.

Em quais áreas é preciso investir para que a cidade cresça? 
Crescimento para mim só tem significado como crescimento individual dos cidadãos. Que cada pessoa saiba usufruir dos seus direitos e conheça seus deveres junto à sociedade. Esse crescimento só oferece resultados em longo prazo e não pode ser limitado a um mandato político, mas deve acontecer continuamente, com o oferecimento de Educação de qualidade à população. A boa Educação é capaz até mesmo de promover resultados positivos em várias áreas, por meio da conscientização e prevenção.

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