• Sexta-Feira, 16 de Novembro de 2018
  • Porto Feliz - Boa noite

Sobre Práxis Educativa

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Sobre Práxis Educativa

São quase três da manhã e eu estou aqui, em frente ao computador, pensando em um tema para meu artigo deste mês. Como bom brasileiro, mais uma vez acabei deixando tudo para a última hora, ficando, dessa forma, condenado a perder algumas horas de sono. Mas tudo bem, só por causa disso, vou acordar à uma da tarde e não quero nem saber. Telefone que toque, carteiro que jogue os envelopes na caixa de correio, minha filha que faça o almoço... Não estou nem aí! Afinal, acho que depois de muitas horas buscando uma inspiração que não vem, o negócio é dormir até o corpo enjoar e pedir algum movimento, né?

Refletindo dia destes sobre essa loucura do mundo moderno, com essa sociedade líquida, de relacionamentos interpessoais cada vez mais escassos e fluídos, lembrei-me do primeiro dia em que entrei em uma sala de aula, há mais de 20 anos.

Foi em uma classe multisseriada, num sítio que ficava próximo à cidade de Itu. Havia quatro fileiras de carteiras, com uns três ou quatro alunos em cada fileira, correspondendo à primeira, segunda, terceira e quarta séries. Era difícil imaginar que alguma criança dali sairia sabendo alguma coisa. Afinal, alfabetizar, assobiar e chupar cana, tudo ao mesmo tempo, era impossível. 

Começava a aula bem cedinho, ali pelas 7 horas. Cheiro de orvalho, cerração... Dava aula até às 9 horas e depois chamava dois ajudantes para cozinha, preparar a merenda, que não tinha muito segredo, não. Era um saco de pó, à base de arroz, que fazia um mingau grosso, de sustância, e que a criançada comia até a barriga doer. Depois, alguns ficavam no pátio improvisado, de chão batido, que virava um lamaçal em dia de chuva, jogando bola ou brincando com uma rodinha de borracha que era empurrada por um grosso fio de arame duro dobrado na ponta. Era um brinquedo simples, mas que entretinha por horas. 

Percebia que os olhares daquelas crianças só viam tratores e mulas no horizonte que se estendia à sua frente. Nada além! Cada retorno para a casa, era a certeza de mais uma tarde de trabalho duro na roça, com os pais que, zelosos, procuravam não deixar a criança sozinha, por isso as levavam consigo para que desde cedo aprendessem os segredos da mãe-terra. 

Lembro-me de um dia em que um deles levou um saco de batatas para que tivéssemos um almoço especial. Pra eles seria festa, comer batatas em grupo. Pra mim, o tormento de descascar e preparar tudo. Mas fiz e foi bom!

Enquanto brincavam, eu me sentava embaixo de uma árvore tranquilamente e abria um livro do mestre Paulo Freire, “A Pedagogia do Oprimido”, onde devorava com voracidade cada página, e nutria-me mais e mais com a vontade de ser um bom educador para, dessa forma, tentar mostrar outros horizontes além de mulas, tratores e enxadas.

Sentia-me fortalecido em cada palavra, e elevando os olhos vez ou outra, vislumbrava meus pequenos oprimidos que corriam atrás de uma bola ou brincavam com suas rodinhas de borracha empurradas pelo arame duro e torcido. Logo chegava meio dia, e todos pegavam suas mochilas, se despediam e voltavam para suas casas felizes, realizados, encantados com a sinergia produzida em mais uma manhã em que a pobreza de uma sala caindo aos pedaços contrastava com os desenhos bonitos que eu fazia na lousa, dando significado às letrinhas que existiam naquela lata de óleo ou no saco de arroz que encontravam nos armários de suas cozinhas. 

Sinto saudades disso tudo, principalmente neste momento em que nos afogamos nessa modernidade sem forma definida, onde as relações pessoais, sociais, profissionais e emocionais são tão fluídas, e escorrem pelos nossos dedos com uma rapidez inigualável, impedindo-nos de nos comprometer. É o prazer imediato, absoluto e instantâneo, que norteia uma sociedade capitalista e consumista, pautando-se pela tendência inercial de caminhar sem nenhum objetivo. 

Fico imaginando o que terá acontecido com meus pequenos oprimidos. Talvez hoje sejam pais e mães de família que se sustentam pelos arados e mulas que viam no horizonte, mas que sorriem, agradecendo a oportunidade de um dia terem olhado pelas janelas que se abriam naquele quadro negro, naquela lousa trincada, que dava vida e significado às coisas. 

Como é bom ensinar. Dessa forma, encerro esta, que representa uma homenagem aos verdadeiros professores, que não perderam de vista o sonho que os levou, lá atrás, à pratica mais sagrada e libertadora que existe. A prática educativa.

Nas palavras de Paulo Freire: “Ensinar é uma especificidade humana, que exige segurança, competência profissional e o mais importante, generosidade”. 

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