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Maior Abandonado

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FERIDA SOCIAL

Conheça o trabalho da Assistência Social de Porto Feliz e a dificuldade dos moradores de rua em sobreviver à margem da sociedade.
Matéria publicada na edição 22 / março de 2016


Em Porto Feliz houve um aumento de moradores na condição de rua. Não chega a ser novidade, pois vivemos em uma sociedade livre, que é o que nos diferencia de qualquer outro ser, e essas liberdades acabam nos levando a algumas angústias que se tornam insuportáveis. Em geral, cada pessoa nesta condição tem uma história difícil de abandono, ligada a um vício, seja drogas ou álcool, o que faz com que acabe perdendo qualquer indício de dignidade.

Uma ferida social aberta, evidente e sem qualquer tratamento significativo para resolver o problema. Mas a discussão principal não é o conceito filosófico, os por quês de um caminho tão difícil, quais dilemas os levaram a esse tipo de vida. Então, nos sobra algumas questões: como tornar a vida dessas pessoas mais humana? Como acolhê-los? E como inseri-los de volta à sociedade?

Não devemos ser relativistas. Tomar esse caminho é discutir percepções do fenômeno que se repete desde a Grécia antiga, tornando a vida miserável um meio viável apenas pelo fato de uma decisão particular: a de sua liberdade. Esse parece ser o caminho mais fácil para responder “não tenho nada com isso”, que é o mesmo que “se ele não quiser sair dessa vida, não posso fazer nada”. Não podemos também levar ao macro universo, colocando a culpa no sistema, na miséria que os governos criam, isso é uma muleta usada por gente que não quer resolver, e no fim, não resolve mesmo.

Acreditar em solução política é saber que haverá criação de cargos, destinação de verbas, ou seja, atender quem não precisa, cascateando seus efeitos.
O trabalho das pastorais é ótimo, as igrejas e seus fiéis dão esperança e dignidade àqueles que aceitam sair desta condição, mas ainda assim é incompleto. O trabalho é social, mas a condição é individual, alguns casos carregam consigo um tipo de patologia mental, coisa que não se reconhece facilmente, principalmente quando não há envolvimento de vários setores. 

O trabalho de retirar essas pessoas das ruas, feito pela Assistência Social, é limitado e, por vezes, barra em questões burocráticas, além de não poder interferir no direito do cidadão de ir e vir – o que, em sua grande maioria, inviabiliza todo o esforço empregado. 

Faltam estudos mais aprofundados por parte do governo em todas as esferas, seja federal, estadual ou municipal, e é uma questão que carece urgentemente de um projeto emergencial de Saúde Pública. Mas, enquanto essa preocupação não alcança os patamares da alta sociedade, que se blinda em sua bolha impenetrável, cada vez mais distantes do querer ajudar e muito mais empenhada em buscar um mundo melhor para se viver, a governabilidade de cada cidade busca, por meio de ações sociais apoiadas em projetos mancos do governo federal, estancar essa hemorragia que mancha todo esse ideal de sociedade, pautado por uma política podre e corrupta.

Lamentável é saber que a forma mais fácil utilizada por muitos é a higienização, tirar do alcance das vistas e dar ao condicionado o poder de decisão. Uma sociedade preconceituosa que, apesar de baterem no peito ao falar sobre sua fé, não consegue enxergar o próximo como a um irmão. Estamos preocupados demais com a nossa segurança, que se torna muito mais conveniente acionar a polícia opressora do que se importar com a real necessidade destas pessoas e então parar para ajudá-la. 

A revista BEMPORTO, com exclusividade, foi às ruas atrás desta questão, após ler várias postagens no facebook a respeito desse problema social que aumenta a cada dia na cidade e, depois de ouvir os depoimentos destes moradores, buscou a Assistência Social para conhecer de perto o trabalho que faz e encontrou muito esforço e dedicação destes agentes transformadores que se preocupam, de verdade, com estas pessoas.

Atualmente, existe a política nacional de assistência social que é voltada para a população de rua. Uma política específica que não enxerga o trabalho simplesmente como uma ajuda. “Precisamos quebrar esse estigma de ajuda, de benemerência. O morador de rua é cidadão de direito. Ele tem direitos e garantias”, declara Maria Lucia Nunes, Diretora da Assistência Social de Porto Feliz. “Inclusive, quando eles perguntam se podem permanecer nas ruas, a resposta é simples por direito: eles podem!”, acrescenta.

Lucia explica que o morador de rua, quando busca a Assistência Social, é assistido conforme a sua necessidade, se ele precisa de um passe para ir embora, é fornecido; se precisa regulamentar a documentação, é feito o encaminhamento e também a articulação para uma resposta rápida. “Fazemos o Cadastro Único deste morador, porque ele também tem direito ao Bolsa Família. Inclusive tem prioridade nisso. Mesmo não havendo vaga no plano, se incluir uma pessoa em população de rua, ela receberá o benefício muito mais rápido”, informa.

O trabalho com a população de rua no município iniciou em fevereiro de 2011 com o convênio entre a Prefeitura e a ASSOCIAÇÃO CRISTHA DE ASSISTÊNCIA PLENA – ACAP, contando com os serviços de Casa de Passagem, Casa de Acolhida e em conjunto com a Associação Comercial, um projeto de conscientização ‘Não dê Esmola’.”

No ano de 2013, o município passou por transição, onde o convênio com a ACAP foi encerrado. Em março deste mesmo ano, a Prefeitura Municipal de Porto Feliz assumiu a responsabilidade dos serviços para população em situação de rua, assim como o Projeto Casa de Acolhida.

Os atendimentos à população em situação de rua passaram a ser realizados no Centro de Referência Especializado de Assistência Social - CREAS.

Além de toda assistência necessária que o morador encontra ao procurar o CREAS, o grupo faz ronda duas vezes por semana, onde a Supervisora de População de Rua, a Assistente Social Lucimara Benedita dos Santos da Conceição, junto com a Guarda Civil e a Polícia Militar, vai ao encontro destas pessoas para uma abordagem de análise e encaminhamento. “Essa parceria com a Segurança Pública é muito importante, pois serve para mapear quem realmente está em situação de rua”, esclarece. Lucimara revela que cerca de 85% dessas pessoas é de Porto Feliz e tem casas na cidade. “Elas vão para as ruas, fazem uso de substâncias e retornam para suas casas. O maior foco de grupos de viciados está na praça São João Batista. São moradores do entorno, do bairro, na sua grande maioria, que usam a praça para fazer uso destas substâncias entorpecentes. A parceria com a Segurança Pública é justamente identificar estas pessoas e nunca intimidar”, argumenta.

O CREAS já tem em seu banco de dados 128 cadastros de pessoas que estiveram em algum momento de suas vidas em situação de rua, isso significa que este número não são todos moradores de rua, estas pessoas permanecem nas ruas por fazerem uso de substâncias químicas (álcool ou drogas), porém têm as suas residências. “Suas famílias terminam rejeitando essas pessoas, não permitindo que permaneçam no convívio familiar e, neste momento, nos procuram para acolhimento”, revela Lucia.

Todo morador de rua faz uso de algum tipo de substância química, seja o álcool, a maconha ou o craque. Nestas rondas, a assistente social faz a abordagem e, dependendo do estado e aceitação do viciado, é feito o encaminhamento. “Nossa parceria é com a Casa Beracá, uma comunidade terapêutica, em Porto Feliz, que tem como objetivo fazer o tratamento de desintoxicação do viciado”, comenta Lucia. 

A revista BEMPORTO também entrou em contato com alguns moradores de rua, e eles reclamam que falta um lugar onde possam dormir por pelo menos 15 dias, para, neste período, tentar se integrar, procurar trabalho, pois, dormir na rua não oferece condições de higiene e bem-estar para acordar no dia seguinte e ter a motivação de procurar trabalho. A roupa suja, a falta de banho, barba por fazer e dores no corpo por ter que dormir no chão duro, tiram a esperança desses moradores. 

No entanto, Lucia rebate essa questão, pois na Casa de Acolhida, mantida pela prefeitura, o morador de rua é assistido e pode permanecer lá até se integrar novamente à sociedade. “Eles recebem cinco refeições por dia, banho, lavanderia para lavarem suas roupas e cama. Os que pretendem procurar emprego têm o direito de sair, desde que tenham o objetivo em mente, pois, como em todos os projetos, a Casa de Acolhida também tem suas regras de convívio, não podemos permitir que façam uso como lhe convém”, esclarece. 

Moradores de rua estão em pleno estado de vulnerabilidade, qualquer que seja o esforço por parte da sociedade, ao menor indício de facilitação, todo o trabalho é perdido. “A maioria dos moradores de rua de Porto Feliz não é pedinte. Claro que há sempre aqueles que pedem um trocado, pois em suas condições, precisam de alguma forma, encontrar um meio de se alimentarem”, explica Lucia. “Porém, ao juntar um dinheiro necessário, o vício fala mais alto e eles vão atrás das substâncias que lhes satisfazem. O mesmo ocorre com muitos acolhidos que conseguem trabalho: no primeiro pagamento, dependendo do seu nível de abstinência, vão logo comprar drogas. E é assim também com o pagamento da Bolsa Família. O morador de rua, ao ser encaminhado até o banco, junto com o monitor, quando recebe o seu benefício, deixa todo projeto para trás e vai gastar o seu dinheiro com o vício”, lamenta e acrescenta: “Não podemos infringir os seus direitos”. 

Quando se pergunta, então, qual é a causa disso tudo? O que faz a pessoa buscar a rua como último recurso de sua dignidade? A resposta é clara: o vício. O uso de substâncias químicas, entorpecentes, álcool, drogas, é a causa e isso origina-se dentro de suas casas e não nas ruas. A falta de diálogo, o rompimento do vínculo de afeto entre os moradores da mesma casa, traições, brigas, toda essa questão, que está longe do alcance ainda, por falta de um programa mais completo que atinja o cerne do problema, dentro da família, faz com que muitos busquem as ruas como escape e, consequentemente, a iniciação no vício. “O buraco é muito mais embaixo, precisamos de um plano de saúde pública em primeiríssimo lugar. Quando se fala em procurar um psicólogo, onde essa família vai? Em Porto Feliz temos apenas um CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) que atende transtornos mentais. O que falta é um CAPS AD (Álcool e Drogas), porém, só é possível em municípios acima de 100 mil habitantes. A gente tenta de todos os lados, mas muitas vezes acabamos barrados pela burocracia do sistema”, explica Lucia.

Segundo a Diretora, o município precisa investir um pouco mais na questão, pois um CAPS de saúde mental não é específico para diagnosticar e tratar o viciado em substâncias químicas. Ele até atende, mas o diagnóstico precoce diz que se limita a atender apenas transtornos mentais, o que é outra coisa. E os grupos de ajuda como Narcóticos Anônimos e Alcoólicos Anônimos estão à disposição quando a iniciativa parte do viciado.


Casa de Acolhida

O projeto Casa de Acolhida, localizado na zona rural da cidade,  é um local para acolhimento, não para tratamento de dependentes químicos. O projeto, que tem o apoio da prefeitura, veio para tirar esta população das ruas. Lá encontram alimentação, banho e cama. Os acolhidos são encaminhados para tratamentos de dependência através do CAPS, passam pelo psiquiatra e também fazem exames básicos de saúde, no Posto do Bambu, para medir as taxas de colesterol, triglicérides e diabetes, entre outros. A partir do 3º mês, o acolhido, se recuperado, é encaminhado ao mercado de trabalho, através do PAT.  “Temos casos também de acolhidos que prestaram concursos no município e hoje são funcionários públicos. É um projeto real, sério e dedicado que a população, em sua grande maioria, não tem conhecimento. Um dado considerável é que a Casa de Acolhida, de 2013 a 2015, já inseriu 31 homens no mercado de trabalho. Claro, temos uma longa caminhada, mas aos poucos estamos fazendo o melhor que podemos”, esclarece Lucimara.


O Projeto Casa de Acolhida se localiza em uma chácara localizada na estrada do Bom Retiro. A casa conta com 20 leitos, cozinha comunitária, lavanderia, área para exercícios físicos, espaço para reuniões e palestras e uma horta desenvolvida e cuidada pelos acolhidos

A Coordenadora também explica que quando o morador de rua é acolhido, automaticamente deixa de fazer uso de substâncias enquanto estiver morando na Casa de Acolhida. “Lá ele encontra o apoio dos demais acolhidos e essa interação lhe dá a motivação necessária para prosseguir com o seu ideal de recuperação. Além disso, temos também um monitor, o Odair, que é ex-morador de rua recuperado e que tem muita experiência de vida para ajudar essas pessoas.”

Em determinados casos, existe uma resistência muito grande da família com o retorno desses recuperados, porque toda lembrança volta à tona. Logo, é preciso um trabalho social em cima da família também, é preciso tratar todas as causas, para que não haja brechas, onde o recuperado caia e todo trabalho seja perdido. Por isso, faz-se necessária a união de todas as forças, seja grupo de ajuda de pastorais, assistência social, amigos, familiares e, principalmente, da sociedade. É preciso dar outra chance sempre que for necessário, trata-se de uma vida em jogo.

Nas ruas, muitos deles reclamam da abordagem da Segurança Pública, onde os policiais chegam intimidando, chutando seus pertences e, muitas vezes, batendo para que o grupo se disperse. “Como a Assistência Social é cobrada e entendemos o direito do indivíduo, da mesma forma a Segurança Pública também é cobrada e sabemos que a polícia é um órgão repressor, ela precisa dar uma resposta imediata à população. Isso é uma questão cultural, o policial não passa a mão na cabeça dessas pessoas”, lamenta Lucia. “É neste ponto que o sistema carece de atenção. Essa integração entre Segurança Pública e Assistência Social precisa ser melhor trabalhada para que haja um trabalho de conscientização e o morador de rua enxergue o melhor caminho sem infringir o seu direito”, idealiza.

Outra questão abordada pelos moradores é a doação de passes para que eles migrem para outras cidades, como se o problema social estivesse resolvido. Rebatendo esta questão, Lúcia explica que cada governo deve cuidar do que é seu. “Se você tem qualquer tipo de repasse, a verba é para se trabalhar a questão do seu município. Entretanto, quando, na abordagem, sabemos que o morador é de outra cidade, nosso trabalho é entrar em contato com a cidade, através do CREAS de lá, contatar a família para, posteriormente, encaminhá-lo. Não é simplesmente colocá-lo no ônibus e entregá-lo a outro município”.

Na gestão passada houve uma denúncia desta prática dizendo que lotavam as vans com moradores de ruas e despejavam na cidade de Boituva. Outras cidades também faziam uso desta prática, despejando seus moradores aqui. “Pelo meu tempo de trabalho, sim, afirmo que existiu esta prática. A gente chegava de manhã e tinha um monte de gente na porta da assistência, vindas de outras cidades, esperando para pegar um passe porque vieram forçados. Atualmente, são eles mesmos que migram”, revela Lucia. 


Da esquerda para a direita: Gamaliel, Jailton, Mario, Palmiro, Adilson, Wendel, Everaldo, Silvio, Ednaldo e Delcio, todos moradores acolhidos no projeto Casa de Acolhida. Na frente: A coordenadora Lucimara, a diretora Maria Lucia e o monitor Odair.

Em função da política nacional, o governo federal está tentando mostrar que é um cidadão de direito e o município tem que cuidar dele. Hoje, na cidade de Porto Feliz, esse trabalho já está sendo feito. Em Sorocaba tem a Casa de Passagem, onde eles encontram abrigo para, no dia seguinte, seguir seu caminho, assim como há em Porto Feliz, o albergue André Luiz, que dá esta opção ao itinerante, uma vez ao ano. Que é outra parceria que a Assistência Social está tentando resgatar. “Precisamos ter também uma Casa de Passagem, para que o itinerante não fique na rua, e, no centro, tenho certeza que podemos fazer muito mais do que na Casa de Acolhida que fica fora da cidade”, exemplifica.

É sabido também que, fazendo uso do seu direito de ir e vir, a maioria dos moradores em situação de rua não quer acolhimento, pois encontrarão regras que muitas vezes causarão resistências, fazendo o acolhido desistir do seu projeto de recuperação. “Na Casa de Acolhida, eles recebem cinco refeições por dia, em horários programados, temos também a horta comunitária que eles ajudam a cuidar. Também é preciso que cada um faça a sua parte”, esclarece, Odair, monitor da casa.

Com relação aos projetos para melhorar o sistema de atendimento, Lucia antecipa que estão pretendendo retomar o projeto de distribuição de vales ao pedinte. “A intenção é conscientizar a população de que dar esmola é um grande facilitador para que o viciado continue no vício. A ideia é que o morador em situação de rua encontre o CREAS, pois lá ele será atendido conforme a sua real necessidade”, finaliza.

Confira os depoimentos dos entrevistados para esta matéria:


"Desavença dentro de casa, dificuldade com a esposa, medida protetiva, caí no álcool e fui pra rua. Com a dificuldade de arrumar emprego e o vício do álcool, fui fazendo parte desta vida. Você até encontra um emprego, mas dormir na rua não favorece o trabalhador. A gente precisa estar bem descansado, banho tomado e bem vestido para encarar o outro dia de trabalho e a rua não proporciona isso. Então, ao chegar ao trabalho, logo percebem que somos moradores de rua e o preconceito de achar que vamos roubar alguma ferramenta de trabalho, nos mandam embora na mesma hora. 
O pessoal da igreja sempre ajuda a gente, deixam marmita e fazem a oração da noite. Pessoas abençoadas que nos enxergam. 
A polícia vem, bate na gente, não quer que a gente fique em grupo. Aquele rapaz dormindo, se a polícia passa, ela faz ele caminhar... ‘corre o trecho’, eles dizem.
A gente passa a conviver juntos e faz dessa união a nossa nova família. O preconceito é muito grande, a maioria tem medo da gente, acha que somos bandidos e que vamos assaltar suas casas.
Morar na rua não tira a nossa dignidade, não roubamos para sobreviver, catamos latinha, vendemos e vivemos de ajuda sim, mas roubar não. Catar reciclados, papelão e caminhar...essa é a nossa vida.
Na clínica que eles mandam a gente, o monitor nega até a comida. Você tem que comer no horário certo, tem regras que a gente não aceita, não pode levar nem celular.”


"Moro na rua por seis anos, minha família é de Porto Feliz, tenho três filhas. O álcool tirou tudo de mim. Não bebia nada, mas depois que aconteceu um acidente na minha frente, onde saí cheio de sangue, passei a beber e não parei mais. Não sou ladrão, nunca roubei nada de ninguém, mas peço para sobreviver. A assistência nos procura, leva embora quem é de outra cidade e convida a gente para ser internado. Eu não quero internação, não gosto de ficar preso. A assistência diz que eu preciso de tratamento psicológico, mas preciso querer primeiro, tem que partir de mim essa decisão e eu sei. Parei com o álcool, comecei a andar bem arrumado, mas ninguém via o que acontecia comigo, eu estava me destruindo na pedra, ninguém viu...hoje vivo nesta vida. A rua não resolve o problema. A rua é o último recurso da dignidade de um homem. Por mais que a assistência nos ajude, eles mesmos nos veem com olhos diferentes. A gente sente uma aproximação que não é real, que é morna, nem quente, nem fria, mas morna. E isso a gente sente e pra mudar de vida é preciso conhecer o que a gente precisa, o morno não dá pra engolir.”


O ÍCONE DAS RUAS

Benedito Jorge da Conceição, 68 anos, solteiro, mais conhecido como Jorjão, é a prova de que Porto Feliz não abandona os seus moradores em situação de rua. Desde do ano de 2013, Jorjão está acolhido no Projeto Casa de Acolhida.
Segundo Jorge, ele começou a consumir bebida alcoólica em 1974, vendo seu pai bebendo e a tia, irmã de seu pai. Jorge costumava beber pinga e cerveja no antigo bar do Tezoto. Nessa época ainda morava com sua família. Ele comenta que em 1979 trabalhava em um restaurante na Rodovia Castelo Branco como ajudante de cozinha.
Jorge relata que foi adotado com quatro anos, porém retornou para sua mãe biológica com 15 anos. No ano de 1984 passou a morar nas ruas, ingerindo bastante pinga. Passou fome, tomou chuva, dormiu muitas noites no banco da Praça Matriz, foi roubado e até apanhou nas ruas. Comentou que para beber e comer pedia dinheiro e, às vezes, carpia terrenos.
Em 1976, por conta de uma pedrada no olho, teve que fazer uma cirurgia no Hospital em Sorocaba, perdendo a visão do mesmo.
Em maio de 2014, a equipe do projeto Casa de Acolhida tentou reintegrar Jorge à família, através da Diretoria de Assistência Social, que o levou até a casa de seu irmão Célio, na cidade de Angatuba, onde Jorge permaneceu alguns dias fugido. “Recebemos um telefonema da irmã de Jorge, que nos informou que ele estava nas ruas de Sorocaba e que no momento, encontrava-se no município novamente e a mesma não teria como acolhê-lo,” recorda Lúcia. 
Mais uma vez o Projeto Casa de Acolhida realizou o acolhimento de Jorge. “Constatamos que sua saúde estava fragilizada, pois a diabetes estava descompensada e a pressão arterial alta, sendo realizados agendamentos de consultas com especialistas para normalizar a saúde dele, hoje podemos dizer que Jorge está bem, longe do álcool e longe das ruas. Já conversamos com funcionários do Asilo para que Jorge seja abrigado em função de sua idade. Aguardamos vaga”, conclui.


"A traição foi o ponto de partida para que eu caísse no vício. Fiz uso das mais diversas substâncias, desde o álcool até as drogas. Com isso, caí no mundo, fui morar na rua, perdi tudo, família, emprego e amigos. Na rua encontrei outro tipo de pessoas que acreditei serem amigas e me apoiei na fraqueza delas que, muitas vezes, era igual ou pior que a minha. Um tempo depois, minha irmã me achou e me ajudou. Decidi me internar numa casa de tratamento em Araçoiaba da Serra e, com o apoio da família, estou limpo há três anos. Me reiterei socialmente e hoje sou funcionário público e monitor da Casa de Acolhida há quase dois anos. A mensagem que deixo é ‘Vigiai e Orai’. Três coisas são fundamentais mudar para sair desta vida:  hábitos, lugares e pessoas. Mas muito acima disso, ter Deus no coração. Só assim você encontra forças para se ajudar e poder ajudar os que estão nesta situação.” (ODAIR DIAS - MONITOR DA CASA DE ACOLHIDA)

Fotos: Nilson Araujo 


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