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DE PORTAS ABERTAS

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DE PORTAS ABERTAS

PORTO FELIZ: BERÇO DA MAÇONARIA PAULISTA

“Intelligência” de Porto Feliz é a primeira Loja Maçônica do Estado de São Paulo 

Vila de Porto Feliz, 19 de agosto de 1831. Noite de sexta-feira. Um militar trajando a farda do Exército Brasileiro sai de sua residência nas imediações do Quartel da Guarda Nacional (atual prédio do Museu das Monções) e segue a passos firmes pelas vielas tortuosas e esburacadas guiado pela luz refletida da lua e pela tênue iluminação das tochas incandescentes, colocadas em pontos estratégicos por funcionários da Câmara.   Seu destino, não muito distante, era uma casa de residência bem construída para os padrões da época, localizada no caminho largo e sem saída (atual Rua José Martins Bastos), cujo terreiro era limitado pelas margens lendárias do velho Rio Tietê.  Nessa casa foi realizada a reunião com outro militar, seu proprietário, com a finalidade de fundar neste solo bendito de Araritaguaba a primeira Loja Maçônica do Estado de São Paulo, à qual foi dada a denominação de Intelligência.

Considerando-se que a luz elétrica chegou a Porto Feliz no ano de 1912, é gratificante imaginar e sentir as vibrações emanadas dos trabalhos daqueles militares, realizados, certamente, sob o facho de luz que emanava dos pavios azeitados das velhas lamparinas. 

O militar visitante era Luiz Luciano Pinto e o visitado era João Baptista Lobo de Oliveira, ambos oriundos da Loja Razão de Cuiabá, no Estado do Mato Grosso, onde o primeiro integrava o quadro de obreiros, sem cargo maçônico definido e, o segundo, ocupava o cargo de Mestre de Cerimônias. Para regularizar os trabalhos da nova Oficina da Arte Real João Baptista Lobo de Oliveira e Luiz Luciano Pinto iniciaram, nos augustos mistérios maçônicos, o militar João Gaudie Ley, Tenente do Exército e estudante da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, que se tornaria o primeiro Advogado do Estado do Mato Grosso.


Encenação teatral, em 2011, representou o encontro dos militares Luis Luciano Pinto e João Baptista Lobo de Oliveira e a fundação da primeira loja maçônica do estado de São Paulo, na cidade de Porto Feliz / Foto: Paulo Henrique Baldini / Revista Viu!

Esses dois maçons haviam passado pela cidade do Rio de Janeiro, então capital do Império Brasileiro, onde receberam autorização para a fundação de Lojas Maçônicas por todo território nacional.  Todavia, e como eram conhecedores dos prenúncios de progresso e ostentação que se vislumbrava para o povoado, por conta das expedições fluviais pelo Rio Tietê e pelas intensas negociações entre os comerciantes da Vila e os poderosos proprietários das minas de Mato Grosso, vieram à Vila de Porto Feliz e neste histórico recanto paulista fundaram oficialmente a primeira Loja Maçônica do Estado de São Paulo.

O primeiro Quadro de Obreiros da Loja Intelligência foi composto por cidadãos ilustres e formadores de opiniões, para assegurar a sua missão de semear os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade pelos diferentes rincões brasileiros. Militares, políticos, estudantes de direito, senhores de engenhos e, inclusive, um padre, abraçaram os trabalhos maçônicos na Vila de Porto Feliz.  Seus nomes foram substituídos por apelidos simbólicos para lembrar o período em que os maçons espalhados pelo mundo foram perseguidos pelos políticos e pela inquisição.

Regente Feijó

Outro fato histórico de elevada importância para a maçonaria porto-felicense foi a iniciação do Padre Diogo Antonio Feijó – o Regente Feijó do Brasil Imperial – pela Loja Intelligência de Porto Feliz.



Feijó foi um grande contestador do celibato dos padres, fato que o colocou em atrito constante com a Igreja.  Foi professor de história, geografia e francês.  Em seu primeiro cargo político foi vereador em Itu e, depois, foi deputado por São Paulo às Côrtes de Lisboa, mas abandonou a Assembléia.

O Regente Feijó foi o maior adversário político dos irmãos Andrada (José Bonifácio e Martim Francisco) com os quais jamais se entendeu.  Era defensor da descentralização e de políticas liberais e, por isso, também enfrentou conflitos com a própria Igreja.

Na época da fundação da Loja Intelligência Feijó havia sido empossado no Ministério da Justiça e a sociedade brasileira vivia o terror do abismo e da anarquia, decorrente da abdicação do Imperador D. Pedro I, ocorrida a 7 de abril de 1831.

Pedro Brasil Bandecchi, Bacharel em Ciências Jurídicas e Doutor em História pela Universidade de São Paulo, em seu livro “A Bucha, A Maçonaria e o Espírito Liberal”, narra a participação da maçonaria no processo da Independência e sua presença em São Paulo, na luta pela abolição e pela república.

Diz o historiador que Feijó aparece na história da maçonaria no momento da fundação da Loja Intelligência, o que prova que ele se iniciou quando, saindo do Ministério da Justiça, cargo em que tão importantes serviços prestou à Nação, veio para São Paulo onde permaneceu de 1832 até maio de 1833. Nesse tempo Feijó foi eleito Senador, mas sua eleição foi anulada.  Em um segundo pleito Feijó obteve estrondosa vitória, ao concorrer em igualdade de condições com os políticos indicados pelos irmãos Andrada. Afinal, Feijó já havia sido iniciado maçom pela Loja Intelligência de Porto Feliz. 

Revolução de 42

A Revolução Liberal de 1842 é outro fato histórico que envolveu maçons da Loja Intelligência de Porto Feliz.  O movimento, liderado por Raphael Tobias de Aguiar e pelo Regente Feijó, fixou a sede do Governo Provisório na cidade de Sorocaba.  Nessa ocasião Feijó convocou seus irmãos maçons de Porto Feliz para lutarem ao seu lado e muitos foram presos pelas tropas comandadas pelo Duque de Caxias.  Uma companhia militar liderada pelo Capitão Francisco de Paula Pereira de Andrade invadiu a Vila de Porto Feliz no dia 21 de junho de 1842 e prendeu os maçons portofelicenses José Rodrigues Leite, Luiz Antonio da Fonseca e Tristão de Abreu Rangel.   Esses maçons, acusados de terem prestado serviços de guerra, foram submetidos a processo e julgados pelo Tribunal do Juri na cidade de São Paulo, no dia 01 de abril de 1843.   Por sentença proferida pelo Juiz de Direito Carlos Antonio de Bulhões Ribeiro, foram considerados inocentes e absolvidos. 

Filhas da Intelligência

A Loja Intelligência de Porto Feliz, cumprindo sua missão de semear os ideais maçônicos pelos diferentes rincões brasileiros, fundou diversas Oficinas Maçônicas.  Entre elas destacam-se: Loja Amizade (São Paulo), em 13 de maio de 1832; Harmonia Areense, em Areia, no dia 02 de setembro de 1833; União e Fraternidade, na cidade de Bananal, em 15 de setembro de 1834; Amor à Ordem Respeitada, na cidade de Paranaguá, em 05 de julho de 1837; Cruzeiro do Sul, em Bananal, no dia 16 de julho de 1838; Azilo da Virtude (atual Loja Integridade), na cidade de Capivari, em 17 de junho 1844; Fraternidade Curitibana, em Curitiba, no dia 01 de abril de 1845; Conciliação Morretana, na cidade de Morrete, em 15 de junho de 1847; Ypiranga, em São Paulo, no dia 15 de junho de 1847 (duas Lojas fundada no mesmo dia); Independência, na cidade de Campinas, em 07 de julho de 1859; Fraternidade Campineira, em Campinas, no dia 01 de setembro de 1859; Inteligência e Fraternidade, em Tietê, no dia 15 de dezembro de 1989; Águia da Castelo, na cidade de Boituva, no dia 15 de novembro de 2009.

Santa Casa

Os documentos da época registram que a Santa Casa de Misericórdia de Porto Feliz foi fundada na Casa da Maçonaria no dia 12 de julho de 1908.   A Casa da Maçonaria existiu onde hoje está instalada a Panificadora Pão D’Oro. Todo o quarteirão limitado pelas ruas Altino Arantes, Joaquim Olavo de Carvalho, Avenida José Maurino e Praça Padre João Batista da Silveira, pertencia à maçonaria.  

Em 28 de maio de 1907, de acordo com a escritura pública registrada no dia 14 de junho do mesmo ano, o imóvel que pertencia à Maçonaria foi doado para a Santa Casa de Misericórdia, onde o referido hospital instalou-se e manteve-se em funcionamento até o dia 03 de março de 1940, quando foi transferido para o prédio onde se encontra atualmente.


O prédio doado para a Santa Casa abrigou a Loja Intelligência. Era conhecido como a Casa da Maçonaria. Não há informações de quando foram iniciados os trabalhos naquele local, mas a Loja funcionou no prédio até o ano de 1861, quando suas atividades foram interrompidas / Foto: Acervo Municipal
 
Os fatos históricos enaltecem um país, uma cidade, um povo.  A história é uma ciência e dessa forma deve ser interpretada e divulgada, independentemente de quaisquer interesses pessoais, políticos ou religiosos.  Não divulgar a história é uma ofensa aos nossos semelhantes.  Ocultar suas verdades é crime de lesa-cultura.

A sociedade que não cultua sua história torna-se um povo sem memória.  Ao mesmo tempo em que é inegável a importância da maçonaria na história do Brasil, é também inegável o pioneirismo da Loja Intelligência de Porto Feliz no contexto da maçonaria paulista e brasileira.

Muito longe das controvérsias e sem se abalar com os céticos a Maçonaria, sem ser uma religião, é uma instituição séria cujos membros acreditam em Deus e na imortalidade da alma.  Ela crê na evolução do mundo a partir da evolução do homem e acredita também que o mundo só será melhor quando os seres humanos aprenderem a levantar templos às virtudes e a cavar masmorras para os vícios.

Os fatos históricos, ainda que submersos nas noites dos tempos, não se apagam jamais.  Porto Feliz, a “Terra das Monções” é, também, o “Berço da Maçonaria Paulista”.


A Loja realizou seus trabalhos no templo improvisado em uma das dependências do antigo Hotel Central, de 17 de maio de 1984 a 17 de dezembro de 1985 / Foto: Acervo Roberto Prestes


O prédio próprio da Loja Intelligência no Jardim Vante foi inaugurado oficialmente no dia 13 de maio de 1989. Todavia os trabalhos vinham sendo realizados provisoriamente naquele local desde o dia 06 de setembro de 1988


MAÇONS QUE INICIARAM OS TRABALHOS EM PORTO FELIZ

Em 1832 o Quadro de Obreiros da Loja Intelligência da Vila de Porto Feliz estava assim composto:

João Baptista Lobo de Oliveira - Militar - nome simbólico: “Trajano”;
Luiz Luciano Pinto - Militar - nome simbólico: “Bruce”;
João Gaudie Ley - Militar - nome simbólico: “Voltaire”;
José Gomes da Silva - Proprietário de Engenho - nome simbólico: Catão D’Utica”;
José Rodrigues Leite - Lojista e Vereador - tnome simbólico:“Jefferson”;
José Pinto Miguez - Músico - nome simbólico: “Pelópidas”;
Joaquim Corrêa Leite - Alferes da Guarda Nacional - nome simbólico: “Franklin”;
Manoel Foz Teixeira - Tenente da Guarda Nacional - nome simbólico: “Rousseau”;
Mathias Teixeira D’Almeida - Tenente de Milícias - nome simbólico: “Aristides”;
Manoel Ignácio de Faria - Mestre de Obras - nome simbólico: “Epaminondas”;
Luiz Antonio da Fonseca - Comerciante - nome simbólico: “Pinho”;
José Maria de Nolasco - Comerciante - nome simbólico: “Sólon”;
José Custódio de Almeida - Tenente Coronel - nome simbólico: “Cincinato”;
Antonio Vaz de Almeida - Proprietário de Engenho - nome simbólico: “Tito”;
Francisco Antonio de Moraes - Capitão da Guarda Nacional - nome simbólico: “Platão”;
José de Tolledo Piza - Alferes da Guarda Nacional - nome simbólico: “Warinton”;
José Maria de Souza - Padre - nome simbólico: “Ganganelli”;
Manoel Alves de Almeida - Guarda Mór - nome simbólico: “Sertório”;
Manoel José Mesquita - Negociante - nome simbólico: “Cézar”;
Tristão de Abreu Rangel - Deputado Provincial - nome simbólico:“Enéas”;
José Manoel de Foz - Negociante - nome simbólico desconhecido, provavelmente, “Sipião”.

Por ser fato histórico é importante salientar que o maçon José Maria de Souza, que era Padre e foi vigário em Araçariguama no período de 1832 a 1854, adotou o nome simbólico de “Ganganelli”, que era o cognome do Papa Clemente XIV, supostamente envenenado por uma substância mortal indefinida, conhecida como “aquetta”, na cidade de Roma – Itália – no dia 22 de setembro de 1744.


O livro “Intelligência - a loja mãe da maçonaria paulista” é um resgate heróico, narrado por Reinaldo Crocco Júnior, de parte da história  não contada de Porto Feliz.

Para adquirir um exemplar, entre em contato:  
(15) 3262-2666 ou 99133-3659.

O valor é R$ 30,00 e toda arrecadação é destinada 
à APAE de Porto Feliz.

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