• Domingo, 21 de Outubro de 2018
  • Porto Feliz - Bom dia

EDUCAR É UM BOM NEGÓCIO

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EDUCAR É UM BOM NEGÓCIO

UMA AULA SOBRE ACREDITAR EM PORTO FELIZ

Cássia Angelieri fala sobre as lições da vida e da Faculdade das Monções, a primeira instituição de ensino superior da cidade

Uma vida dedicada ao ensino e a Porto Feliz. É assim que pode-se definir Cássia Rita de Castro Angelieri, 66 anos, bisneta de Fioravante Angelieri. Formada em Estudos Sociais com especialização em História, Educadora, sócia-proprietária do Colégio Porto dos Bandeirantes, de ensino médio e fundamental e da Faculdade das Monções, primeira instituição de ensino superior aprovado pelo MEC em Porto Feliz, Cássia sempre esteve a frente do seu tempo e de olho no bem coletivo local, seja por meio da política ou da educação.
Cássia nasceu na Fazenda Campo Grande e é filha de Gerson Angelieri, foi vereadora por dois mandatos e vice-prefeita de Dr. Leo. Após desentendimento na gestão, tentou cargo majoritário como prefeita em 2004, eleição que perdeu para o oponente Claudio Maffei, do PT, ocasião em que se afastou do cenário político e mergulhou de cabeça no que mais gosta de fazer: educar.

Você é gente de quem?
Sou da família Angelieri, filha de Gerson Angelieri. Somos de uma família de imigrantes que veio para o Brasil quando o governo prometia terra aos europeus porque a situação econômica na Europa não estava muito boa naquele tempo,  no início do século XX. Então, meus bisavós vieram para o Brasil e se instalaram nestas bandas, comprando as terras depois do Rio Tietê. Na época, não havia nem ponte, passava-se de balsa de um lado para o outro do rio. E foi nestas terras que meu pai, meus tios, todos meus primos e eu nascemos, na antiga Fazenda Campo Grande de Porto Feliz.

Como foi a infância na fazenda?
Uma infância em família, uma grande família. Éramos em 14 primos. Nossas brincadeiras se resumiam em subir em árvores, no lombo do cavalo e nadar no tanque da fazenda. Foi um período muito gostoso que guardo com muita saudade. Uma infância simples, vivíamos basicamente do que a fazenda produzia, não havia esse consumismo de hoje em dia.

Também estudou na fazenda?
Sim, na escolinha onde tia Oliana dava aulas. Na época, era apenas uma salinha e todos do 1º ao 4º ano dividiam a mesma sala.

Como se tornou professora?
Estudei na fazenda até os meus 7 anos de idade. Depois, devido à dificuldade de estudos, fui estudar em um colégio interno em Campinas e Itu e, aos 12 anos, voltei para Porto Feliz, onde concluí a escola normal municipal de Porto Feliz, no Monsenhor Seckler. Depois fui fazer faculdade de Estudos Sociais e me especializei em História, pela Faculdade Nossa Senhora do Patrocínio, em Itu. Devido à carência de professores de história na cidade, passei a dar aulas antes mesmo de concluir a graduação. Dei aulas no Colégio São José e na escolinha da Capoava. Desde então, sou educadora há 46 anos.

Nos anos 90, você tinha um projeto bacana de turismo na cidade, através do Núcleo de Cultura que você criou. Conte-nos um pouco sobre isso.
Sempre fui apaixonada por história, em especial a nossa história local, que é muito rica culturalmente. Com 25 anos de sala de aula, montei o Núcleo de Cultura Natural e Histórico em Porto Feliz, voltado para difundir a história do bandeirantismo e movimentos monçoeiros na cidade. Trouxemos mais de 15 mil alunos de outras cidades para conhecer a nossa história. Na parte da manhã fazíamos o tour na cidade, nos pontos turísticos, onde contávamos a história local e, na parte da tarde, fazíamos o turismo rural pelas fazendas de Porto Feliz. Era um projeto encantador.

Por que fechou?
Por conta de chateação política. Não por mim, mas por meu marido. Na época em que fui candidata a prefeita, um candidato insinuou que usaríamos o Núcleo para tirar proveito politicamente e, assim, não administraria a cidade como deveria. Meu marido ficou muito chateado, bravo mesmo e decidiu por um fim no projeto. O interesse do Núcleo Cultural nunca foi político, ele já funcionava há 10 anos, não tinha nada a ver com a política. Então, dessa chateação política, o Eduardo decidiu fechar a empresa. A politicagem destrói sonhos. Fechamos o núcleo e passamos a nos dedicar exclusivamente à escola Porto dos Bandeirantes.

Como entrou para a política?
Devido este meu envolvimento com as escolas, o projeto do Núcleo e também dos desfiles da Semana das Monções que sempre participava, o Tenente Genésio me convidou a ingressar na política pelo seu partido, o PMDB. Meu pai, que também adorava uma roda de políticos, me animou bastante, ele gostava muito da política local de sua época. Aceitei o convite e me candidatei a vereadora, cargo que ocupei por dois mandatos. O primeiro pelo PMDB, por cinco anos e o segundo, pelo PSDB, por quatro anos.

Por que resolveu mudar de partido?
Na época, o PSDB local estava desativado. Então, recebi o convite do diretório para reativá-lo, onde eu seria a presidente. Aceitei o desafio e mudei.

Como era a oposição partidária em sua época?
Fui vereadora junto com Paulo Guerini, Roberto Prestes, Luis Carlos Morales Sanches, Nelson Moraes, Ivan Leite, Geraldo Tuani, entre outros. Era uma vereança dinâmica, trabalhávamos para a cidade, independente de oposição partidária. Quando o professor Erval Steinner venceu as eleições, apesar de ser de outro partido, fazíamos uma oposição inteligente, sempre em prol da cidade. Jamais permitimos que questões partidárias influenciassem na amizade. A política nunca foi motivo de inimizade. Claro que havia altas discussões, mas, no fim das contas, íamos todos juntos para São Paulo, pela cidade.

Depois de dois mandatos como vereadora, você foi eleita vice-prefeita do Dr. Leonardo Marchesoni Rogado, então prefeito Dr. Léo. 
Sim, montamos a chapa, concorremos e ganhamos. Dr. Léo era um nome novo na política e a proposta agradou a população, tanto que fomos eleitos.

Mas houve também um racha nesta gestão, ocasião de sua candidatura ao cargo majoritário nas eleições seguintes. Conte-nos o que houve.
Não diria que tenha sido um racha, necessariamente. O que houve foi uma discordância de gerenciamento de governo. Nosso plano era fazer um governo voltado para todos os segmentos da cidade, porém, acabou indo, praticamente, para a parte cultural; e as demais áreas ficaram em segundo plano. Nesta gestão, quase perdemos a Metalúrgica Schadek que ameaçou ir embora da cidade por causa de 800 metros de asfalto. Era um absurdo. Eu tinha uma visão mais ampla de gestão e este foi o motivo do desentendimento. Porque, eu acredito que quando você tem um projeto de governo, você tem a obrigação de cumpri-lo. Fizemos sim muita coisa pela cultura local, mas outros setores, deixamos a desejar. Tanto que Erval, quando reeleito, desfez praticamente tudo que fizemos. Em 2004, me candidatei para prefeita, porém, perdi as eleições para o professor Claudio Maffei (PT, na época).

Foi quando desapareceu do cenário político. Por quê?
Durante os 15 últimos dias destas eleições, sofremos muitas ameaças. Eu, minha família, minha mãe, meus irmãos, todos nós sofremos ameaças seríssimas. Passei a andar com segurança particular, fiquei muito preocupada com meus filhos. Então, minha mãe me fez prometer que se eu ganhasse as eleições, faria o meu governo e parava, se perdesse, eu nunca mais entraria para a política, porque não valia a pena tanta pressão psicológica e ameaças que estávamos sofrendo.

Que tipo de ameaça?
Ligações dizendo que sabia onde a gente morava, o que fazia, onde meus filhos estudavam... chantagens emocionais, pressões psicológicas que diziam que eu não ficaria um mês no governo, caso fosse eleita. Coisas do gênero. Isso tudo me desgastou muito e minha família também. Foi o estopim para que eu deixasse o cenário político local.

Então, mergulhou de cabeça na Educação?
Voltei decidida a crescer como empresária-educadora, foquei todas as minhas energias no projeto do colégio particular que já tínhamos. Fiz um balanço de tudo e enterrei a política.
O Colégio Porto dos Bandeirantes cresceu e, neste período, apareceu a oportunidade de trazer uma faculdade para Porto Feliz, e eu não pensei duas vezes. Sentei com o Romeu, meu filho, e abraçamos a causa. Foram vários meses de negociações, projetos, aprovação do MEC. Então, iniciamos os cursos numa parte do prédio que alugávamos, até termos a nossa própria sede. Era uma imposição do MEC que tivéssemos sede própria. Compramos um terreno na Av. Monsenhor Seckler e construímos o prédio onde, hoje, está abrigado a FAMO, a primeira Faculdade de Ensino Superior de Porto Feliz, com 12 cursos, entre graduação e tecnólogo, todos aprovados pelo MEC. Também compramos um grande terreno na Av. Dr. Antonio Pires de Almeida, onde hoje está localizado o Colégio Porto dos Bandeirantes. Um prédio construído com o que há de mais atual na modernidade da engenharia, com ventilação cruzada, pé direito alto, muita claridade para pouco uso de energia elétrica e uma cisterna para captação de água da chuva. Nossa escola é totalmente preparada para atender a população e os estudantes de Porto Feliz e região.

Quais os planos para o futuro?
Com 66 anos de idade, a gente faz planos menos ousados, mas não deixa de fazê-los (risos). Agora, o Romeu, que é o meu sócio, já está assumindo a parte administrativa integralmente, cirando sua própria identidade como gestor. Os planos agora, digo por mim, é tirar o pé do acelerador, sentar no banco do passageiro e deixar os filhos dirigirem para a gente descansar um pouco.

Como é manter uma faculdade numa cidade como Porto Feliz?
Considerando o período de crise que o Brasil vem passando, não é fácil administrar. Mas a gente acredita muito no progresso, na nossa gente e torce para que os filhos desta terra acreditem mais nas nossas instituições, especialmente as locais e, assim, consumam aqui o que consomem lá fora.

Como vê a política hoje?
A política se perdeu a partir do momento em que os políticos passaram a fazer as coisas em benefício próprio, quando precisaram de conchavos para obter alguma coisa em detrimento do bem-comum, através de troca de favores. Estas coisas descaracterizou tanto a política que, hoje, os cargos majoritários no Brasil todo não passam de meros cargos decorativos.

Um nome como o do Dr. Cássio, que traz o brio dos antigos nomes políticos locais, com propostas de arrumar a casa e deixar a cidade em ordem para o próximo prefeito, isso não te motiva a querer voltar para o cenário da política local?
Não. Não mais. A política que se apresenta hoje no Brasil é só decepção. Não sou diferente dos demais brasileiros, apesar de um ou outro, por mais que faça diferente, o cenário é deprimente, é cedo ainda para que a mudança seja visível, embora já possa estar acontecendo. Prefiro ajudar muito mais a cidade estando fora, do que fazendo parte da política.

Porto Feliz por Cássia Angelieri.
Amo minha cidade de paixão. Dentro do meu espaço, tudo que eu puder fazer para que a cidade cresça, se desenvolva, realizar o sonho das pessoas que aqui vivem, estudar os filhos desta terra com qualidade, continuarei fazendo.

Cultura local por Cássia Angelieri.
A cultura local não é só sua história, seu produto como fator turístico, a cultura, de modo geral, envolve a Educação, a Saúde, a Segurança, a participação ativa de todos os setores. Isso é cultura e tem muito para ser melhorada localmente. Mas, não dependente exclusivamente do poder público ou do setor privado, isoladamente. Para que a cultura se fortaleça é preciso a união de todos e a doação de cada um. Todos precisam fazer a sua parte, somente assim nossas raízes se fortalecerão e poderemos acolher a vinda de outras culturas para nossa cidade sem que percamos a nossa.

A atual política local por Cássia Angelieri
Torço para que dê muito certo, porque quando a gente tem um bom governo, as indústrias e o comércio são favorecidos e a qualidade de vida da sociedade melhora, através da geração de mais empregos, renda e retorno para a cidade.

Que aula esta educadora gostaria de deixar para o leitor desta revista?
Sou uma mulher realizada. Me casei, tive dois lindos filhos, a Eloá e o Romeu. Criei-os nos preceitos religiosos que fui criada, hoje estão casados também e tenho dois netos, o Eduardo e o Rafael. A vida tem muitos altos e baixos, mas com determinação e dinamismo conseguimos transpor todos os obstáculos que a vida nos impõe. Tudo valeu a pena, não posso reclamar de nada, seria um pecado. Sou uma pessoa que tem muita fé em Deus e eu acredito que Ele não coloca nada na frente da gente que não possamos encarar de frente. Somente assim, com confiança e com a humildade de também reconhecer que precisamos de todos que nos cercam, seja em casa, no trabalho, no seu bairro, seja em todos os âmbitos da sua vida, somente assim, unidos e confiantes é que vencemos qualquer crise.

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