• Sexta-Feira, 16 de Novembro de 2018
  • Porto Feliz - Boa noite

UM PASSEIO PELA HISTÓRIA

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UM PASSEIO PELA HISTÓRIA

O HISTORIADOR E O RIO

Jonas Soares de Souza fala sobre sua paixão pela história de Porto Feliz e chama a atenção à valorização e preservação da identidade histórica local, através do resgate e manutenção das tradições deixadas por nossos antepassados

Um amor que começou ainda na infância e perdurou por uma vida toda. É assim que pode-se definir a relação entre Jonas Soares de Souza e a história de Porto Feliz e do Brasil. Aos 73 anos, o historiador é autor de uma das maiores coletâneas da história de Porto Feliz, o Porto e o Rio, que reúne relatos que contam a história do período das monções. Um projeto motivado por Xyko do Saae que o ajudou na questão do financiamento da edição, junto ao gerente da agência local do Banco do Brasil. Mais tarde, o então prefeito Claudio Maffei, pediu autorização para publicação através de um patrocínio da Caixa Federal. 
Aposentado desde 2009, não pretende nunca mais ocupar um cargo público pelo desgaste que esta experiência causou, mas continua trabalhando em projetos culturais, em uma produtora que faz pesquisas para filmes, novelas e documentários, quando o tema passa pela história. 
Nesta entrevista, Jonas conta tudo sobre sua vida, fala sobre personagens importantes, como Pedro Moreau e outros que o ajudaram a descobrir e aperfeiçoar sua vocação. Confira!

Você é gente de quem?
“Gente de quem” é ótimo! Acho tão bacana esse interesse em saber seu pertencimento, em fazer um quadro para situá-lo. Bem, sou gente da família Soares de Souza e Rodrigues. Meu pai, Jetro Soares de Souza, é de uma família que morava na região de Água Fria, próxima ao bairro rural de Sete Fogões, na triangulação entre Porto Feliz, Rafard e Tietê; e minha mãe, Abigail Rodrigues, que descende do Eloy Rodrigues, imigrante espanhol que saiu da Galícia, próximo à região Nordeste de Portugal, no final do século XIX, uma região bastante sofrida pelos rigores climáticos, diga-se de passagem. Nesta imigração veio o Eloy, junto com seu irmão Pedro, que ficou muito tempo conhecido na cidade como Pedro Espanhol, e a irmã Encarnación. São filhos do Eloy Rodrigues, meu tio Otoniel, o tio Moisés, tia Maria e tia Marta, além de minha mãe, todos já falecidos. Nasci, portanto, no âmbito de uma família humilde, o primeiro trabalho do meu pai foi na lavoura, depois em algumas indústrias, ocasião pela qual emigrou para Santo André a procura de trabalho, cidade onde vim a nascer, em 1944, no apogeu da 2ª Guerra Mundial. Com a situação melhorando, pós-guerra, voltou para Porto Feliz, onde trabalhou no comércio e indústrias locais. E minha mãe foi servidora pública nas escolas municipais. Seu último trabalho foi na Escola Normal de Porto Feliz.

Nesta volta de Santo André a Porto Feliz, qual era sua idade?
Tinha por volta dos 7 anos. Iniciei os estudos em Santo André e concluí em Porto Feliz, passei pelo Coronel Esmédio, que era no prédio do Museu e fiz o secundário no Monsenhor Seckler. Mas, toda família que queria preparar seus filhos para o trabalho, também se preocupava em colocá-los numa escola comercial, por este motivo também fiz alguns anos na Escola de Comércio de Porto Feliz. Esta foi a base dos estudos de primeiras letras, digamos assim. 

Desde criança, já gostava de história?
Ainda neste período, o que marcou muito a minha vida foi o interesse pela leitura. O meu pai era uma pessoa simples e de tradicional família presbiteriana. Desde o século XIX, o bisavô chegou a abrigar em sua casa, em Sete Fogões, missionários presbiterianos e, a partir deste momento, ele também se tornou presbiteriano, assim, sucessivamente, meu pai que, ainda criança, tinha uma sede para ler a Bíblia e, com isso, aprendeu a ler com o objetivo de ler a Bíblia. E este costume de leitura ele passou para todos em casa. Então, sempre tinha livros, num primeiro momento, que eram ligados à Bíblia e também livros ligados a história da bíblia.
Meu pai percebeu em mim certo espírito arredio, então, ele queria que eu lesse livros, inclusive alguns que surgiam naquele momento, que comprovavam através da história a veracidade dos textos bíblicos; livros de estudos arqueológicos que tinham a função de comprovar a veracidade da Bíblia. Assim, desabrochou em mim o gosto pela história.

Gostava de estudar?
Não me lembro de ter sido um bom aluno, fui um aluno mediano, mas o prazer pela leitura sempre foi muito presente. 

Conte-nos sobre estes livros.
Estes livros que meu pai me dava, era uma forma de chamar minha atenção e isso despertava não somente o meu interesse religioso, mas a história por trás da Bíblia. Eu gostava muito, inclusive, servia também para que eu entendesse o motivo pelo qual éramos presbiterianos. Alguns dos primeiros presentes que ele me deu, foram livros do João Calvino, de uma erudição incrível. O Calvino é autor das Institutas, que fala sobre a estrutura da igreja cristã, são obras compostas na época da reforma, meados dos séculos XVI. Então, estas obras do Calvino, do Lutero e obras de arqueólogos, especialmente alemães e luteranos que trabalharam para discutir esta questão, eram obras de – me lembro da expressão -  “descobertas arqueológicas que comprovam a veracidade da Bíblia”, a frase me veio agora, porque estou me lembrando deste período. Quem sabe meu pai tinha sonhos que eu me tornasse um pastor presbiteriano?, mas, este gosto pela história nasceu ali, em casa, por questionar tudo. 

E além dos livros?
Este interesse pela história se completa, ou se expande, quando eu começo a conversar com o senhor Pedro Moreau. Me recordo que ele gostava muito de falar o seu nome: Jean Pierre Moreau e passou a assinar Pedro José Moreau. Quando jovem, morávamos na Rua Newton Prado. Nossa casa acabou se tornando num pequeno centro de encontro de amigos. Meus pais, muito abertos ao diálogo, tinham muita dedicação em difundir a fé cristã presbiteriana. Assim, devido a estes encontros filosofais, seu Pedro frequentava muito a minha casa. 
Em casa, também gostávamos muito de ouvir músicas clássicas. Meus pais, apesar de pessoas simples, do campo, tinham lá sua vitrolinha e gostavam de Mozart, Beethoven, entre outros compositores. Claro que as músicas da roça também estavam presentes, mas sempre se ouvia músicas clássicas, me lembro, naquelas sonatas antigas.  Muitos dos meus amigos, na época, se reuniam em casa para ouvir músicas. Teve um período que eu trabalhava e sempre comprava discos do Frank Sinatra, eu gostava muito. Logo depois, veio a era do Beatles. Esta viagem no tempo me faz lembrar do Bahia, não vou recordar o nome dele, mas ele tinha um conhecimento fantástico de música, aprendeu inglês na casa dele, no Bambu, só para cantar as músicas dos Beatles. Bahia era frentista de um posto de combustível.

O que mais te marcou nestes encontros em sua casa?
Minha mãe, muito generosa, também recebia suas tradicionais visitas que passavam em casa para tomar um café. Por exemplo, Dito Bobo, Rojão, Seu Salvador, que ia com um terninho simples, amarrotado, pessoa bastante humilde, ele sentava ali, minha mãe preparava um prato para ele... E para a gente, era muito gostoso saber um pouco de cultura popular ouvindo estas pessoas. Acima de tudo, do jeito dela, minha mãe estava incutindo respeito às diferenças... Dona Laurentina, parece que a estou vendo na minha frente...uma senhora fraquinha... havia também um senhor, um mulatão que usava uma roupa espalhafatosa e várias latas penduradas. Nós o chamávamos de Nhô Lata. Ele dizia que era de Mombuca, muito tempo depois, vim saber que Mombuca é perto de Piracicaba. Nhô Lata sempre parava em casa para tomar um café e ali ele explicava que as latas tinham diversas funções: primeiro, chacoalhava e chamava a atenção com o barulho, porque ele andava à noite nas estradas; tinha uma de massa de tomate que ele usava para tomar café, uma de marmelada, mais achatada, que ele usava como prato de comida. Ele tinha várias latas, cada uma com uma função. Esse ambiente de pessoas populares que minha mãe abrigava era para a gente aprender o respeito pelas diferenças sociais. Minha mãe gostava de fazer pão, o famoso pão feito em casa...não foram poucas as vezes que as pessoas pediam. E, entre as pessoas que passavam por lá para almoçar, prosear, mas muito mais para ensinar e dar lições de vida, estava Seu Pedro Moreau, que tinha um conhecimento incrível, autodidata, era fluente em francês, italiano, arranhava o inglês, conhecia astronomia, botânica, ervas medicinais. Pedro Moreau ainda morava na Colônia Rodrigo e Silva e ficava na casa de parentes, na cidade. Não foram poucas as vezes que ele nos convidava para acompanhá-lo até sua casa na colônia. Era um cômodo repleto de jornais, livros, muitos livros... não foram poucos os livros que ele me deu de literatura, de poesias... coletâneas inteiras. Dentre os livros, um em especial eu fiquei apaixonado. Se chama “Monções”, de Sergio Buarque de Holanda, um exemplar da primeira edição de 1946 que eu guardo até hoje. 

Nascia aí seu fascínio pela história de Porto Feliz...
Além deste livro, Seu Pedro me mostrou uma poesia que ele tinha feito sobre as Monções que, inclusive, publicou no jornal Tribuna das Monções. Neste momento, Pedro Moreau me chama a atenção para a riqueza de detalhes de Sergio Buarque de Holanda, na questão da cultura material, que é muito comum na área da arqueologia, ou seja, os traços culturais que estão materializados em objetos, a descrição de como era a comida, a vestimenta, como construíam as canoas, como navegavam... Este livro me conquistou de vez. Então, aliado aos livros de arqueologia que comprovavam a veracidade das histórias escritas na Bíblia, nasceu, a partir das mãos de Seu Pedro, um desejo enorme de conhecer a história do Brasil. Não somente aquela que estavam nos livros didáticos de escolas, mas me aprofundar. Pedro Moreau foi um instrumento para que eu fosse atrás de mais livros, ele tinha um conhecimento erudito sobre alguns historiadores, inclusive historiadores franceses que eu nunca tinha ouvido falar.

Como foram os estudos de graduação?
Logo depois, com tudo isso, fui fazer um curso de história em Sorocaba, na Fundação Dom Aguirre, atual Uniso, que, na época, tinha uma proximidade muito grande com o Departamento de História da USP. Então, muitos professores da área de Geografia e História da USP estavam nestes tempos iniciais da Faculdade. Na área de Geografia, me lembro do professor Titarelli, do qual me tornei muito amigo; e na área de História, Meire Ramalho, professora assistente do Departamento de História da USP, também a professora de paleografia Maria José Elias, que era do Museu Paulista. Neste tempo, a Faculdade tinha um intercâmbio muito grande com palestrantes da USP, dos quais cito Fernando Novaes, Carlos Guilherme Motta e, logo depois, começou a lecionar o professor Maurício Tragtenberg, hoje somos muito amigos. Quanto aos textos que recebíamos, todos em inglês e francês, eu sempre pedia socorro para Seu Pedro Moreau, para me ajudar na tradução e entendimento dos estudos. Em pouco tempo, estes professores me convidaram a concluir os estudos na USP, em São Paulo. Simultaneamente, com o curso de história, comecei a frequentar cursos de história da arquitetura na FAU Maranhão, localizado na Rua Maranhão, em Higienópolis. Me tornei amigo de grandes professores como Julio Katinsky, natural de Salto, João Valter Toscano, Ituano, pela proximidade com Porto Feliz, dentre outros.

Casou-se com a história?
Se eu fizer uma ligação, este gosto pela história nasceu deste interesse do meu pai pelo conhecimento da história que comprovasse a veracidade da bíblia, soma-se a isso o encontro com um grande sábio porto-felicense que marcou muito a minha vida, que foi o Sr. Pedro Moreau, que frequentou a minha casa e juntos caminhamos a pé até sua casinha na Colônia Rodrigo e Silva. Nestas viagens memoráveis, caminhava também Roberto Prestes de Souza, Rone Carlos Antunes, Ubirajara de Campos. Era um grupo interessado na história e nas filosofias de Pedro Moreau que, em sua simplicidade franciscana, atraia seguidores.  Isso me levou a me apaixonar por história. Alguns amigos meus diziam que eu tinha casado com o museu. Realmente fui um apaixonado pela história. Olhando hoje, à distância, repetiria a minha história, se nela fosse estado a repeti-la outra vez.

O que fez após a graduação?
Prestei concurso para Historiador e me ingressei no Museu Paulista da Universidade de São Paulo, em meados de 1972, onde me tornei historiador profissional. Do Museu Paulista,  ingressei no museu republicano que é uma extensão ligado à República do Brasil.

Em que consistia este trabalho?
Pesquisar as coleções de documentos para se conhecer melhor os objetos tridimensionais, pinturas, fotografias, reproduções de imagens que o museu tinha. A história já estava na veia. 

Onde morava?
Sempre morei em Porto Feliz, embora eu tenha alugado um pequeno apartamento em São Paulo para concluir a pós-graduação. Me recordo de várias pessoas de Porto Feliz que também vieram morar comigo neste apartamento. Fizemos uma república, aluguei em meu nome, Dr. Walter Castelucci foi o fiador. Lá morou: Danilo Castelucci, Leonardo Marchesini, que anos mais tarde se tornaria prefeito em Porto Feliz, Darci Caliman, Durval Coan, grande mestre de Economia, além de mim. Foi um tempo muito divertido.

Quando começou a contribuir com seus conhecimentos para a Semana das Monções de Porto Feliz?
Quando estava fazendo o curso de história, na USP, o Dr. Walter Castelucci, entre outros conhecidos, Romeu Castelucci, um secretário da câmara, Nelson Tabarro, se não me engano – não podia ter esquecido este nome – começaram a fazer contato, primeiro para eu convidar palestrantes, já que eu tinha acesso frequente a Sergio Buarque de Holanda – a última vez que o contatei, foi quando ele lançou a segunda edição do livro Monções, o Sergio faleceu em 82. Então, me pediram para entrar em contato com estas pessoas, dentre elas uma senhora de Porto Feliz, Susie Rehder, que trabalhava no Ministério da Educação e Cultura; e foi ela que nos abriu as portas a filmes didáticos de história, por exemplo, um filme do Humberto Mauro, chamado Os Bandeirantes e outros, como O Descobrimento do Brasil. A Susie nos forneceu cópias em 16mm para projetar em programas da Semana das Monções. Logo depois, nos anos 70, já trabalhando no Museu Paulista, trouxe exposições também para a cidade. 

E como eram feito estes investimentos?
Tudo com recurso próprio, a gente se virava, o pessoal ia atrás. Em 1978, me lembro, eu trouxe um grande etnólogo alemão que queria conhecer o ponto de partida das monções, trouxe no meu carro. Mesmo as organizações das Festas das Monções eram estruturas econômicas que contavam muito com o empenho pessoal dos envolvidos. Me lembro do Seu Emílio Coli, muito amigo de minha mãe, que dizia para trazer fotografias dos bandeirantes para se vestir igual. Orlando Zilli, Professor João Campos, da Capoava, não vou me lembrar de todos, mas eram pessoas desprovidas de interesses políticos.


Encenação teatral da Semana das Monções, realizada na cidade de Porto Feliz, busca resgatar e manter viva a história das Monções e sua importância para a cultura local
Foto de Rafael Segato

A Semana das Monções é uma tentativa de resguardar e manter viva esta história?
As Monções constituiu um capítulo épico da história de São Paulo. Tem alguns historiadores que trabalharam até a questão de como um episódio tão significativo e que marcou a cidade no século XVII, mais especialmente no século XVIII, todo desenvolvimento e consolidação da cidade que vai culminar com a criação do município do termo, como se dizia, e seu nome, Porto Feliz, em 1797, se deve às Monções. Como é que este movimento que trazia tanta gente, autoridades, e continua trazendo depois, no século XIX, cientistas que passaram por aqui, muitos deles, os mais famosos que vieram na Expedição Langsdorf... como tudo isso acabou sendo esquecido pela população? Foi sumindo, não se ouve falar que alguém é descendente de um mestre canoeiro, ou que o tataravô foi piloto das monções. Sumiram! Essa é uma questão que intriga os historiadores até hoje. Por que desapareceu? Pode-se dizer que mais recentemente, não só as Monções, mas até a presença do rio, a população virou as costas. Sou de uma geração que brincava nestas águas e hoje o rio está podre, esquecido, não é mais nosso.

O que difere Monçoeiros de Bandeirantes?
O bandeirismo é aquele movimento que marca especialmente o final do Século XVI, mas todo o século XVII. Daí vem aqueles grandes bandeirantes, Fernão Dias Paes, Raposo Tavares, dentre outros. Para se ter uma ideia, o Raposo Tavares, se olhar no mapa, é um negócio assombroso, o homem caminhou algo próximo a 50 mil quilômetros a pé! Ele sai de São Paulo, vai em direção a Oeste, entra na Bolívia, sobe em direção a Amazônia, e vem descendo pelo interior. O bandeirantismo também é chamado de ‘os 600’, referenciando os 600 anos de movimento. 
São Paulo era uma capitania pobre, então os paulistas tinham predisposição a sair em busca de ouro, metais preciosos, mas, num primeiro momento, mão de obra para suas lavouras, pois estavam abrindo fazendas e precisavam do trabalho braçal. Toda aquela região de Barueri, Santana do Parnaíba, Carapicuiba, foram fazendas de lavoura criadas nesta capitania. Então, neste primeiro momento, em que os colonos saem em busca desta mão de obra, nascem as expedições que foram chamadas de “preação de índios”. Existe até uma expressão famosa de um historiador americano, naturalizado brasileiro, que trabalhou anos na UNICAMP, que é o John Monteiro, já falecido, que cita “os negros da terra”, que eram estes índios apreendidos nestas expedições. O bandeirantismo é isso, formado especialmente por paulistas, que vai primeiro aprisionar índios, conquistar terras, abrir fazendas, plantando cidades e, num segundo momento, começa a descoberta de metais preciosos. Estes percursos, na maioria das vezes, eram terrestres. 
Quando vai finalizando o século XVII, esse grande movimento que marca os 600, vai se arrefecendo. Mas, logo no começo do século XVIII, 1719 especificamente, são descobertos veios auríferos na região onde hoje é Cuiabá. Esta descoberta chacoalha São Paulo outra vez, a ponto de quase esvaziar a cidade. Se você pegar os registros da época, verá que é um movimento sem parar de gente que começa a se deslocar e se dirigir ao porto de Araritaguaba para embarcar. A partir de então, a rota escolhida, por diversas razões, foi a fluvial. Eles escolheram aquilo que Sergio Buarque de Holanda chama de estrada móvel, porque o caminho natural que eles acabam descobrindo, especialmente os sorocabanos, é que navegando todo o curso do rio Tietê, desembocaria no rio Paraná até a foz do rio Pardo, subido, pegava uns afluentes e transpondo os varadouros, o maior deles o de Camapuã que era cerca de 14 km, alcançava-se os afluente da bacia do rio Paraguai e, com isso, se chegaria à Cuiabá. Olhando hoje, é uma coisa gigantesca, sem precedentes nas Américas. Navegava-se, em dados da época, cerca de 3.500 quilômetros de rotas fluviais entre Araritaguaba e Cuiabá.

Como encontraram Araritaguaba?
Existia o conhecimento indígena das rotas fluviais. Tanto que quando os portugueses chegam ao planalto de Piratininga, eles já têm informações do próprio curso d´água, são inteirados de que a partir da depressão periférica, ao sair do planalto, o rio despenca naquela região depois de Cabreúva e entra em planície navegável, tirando alguns obstáculos. Primeiro começam a navegar o porto Góes, próximo a Salto, mas foi a partir de Porto Feliz que a viagem era mais suave, digamos assim. Daí nasce o Porto de Araritaguaba.

Há relatos de uma aldeia indígena, chamada de Maniçoba, antes deste porto, não há?
Os jesuítas e os documentos falam de um aldeamento e não de uma aldeia indígena. Aldeia seria uma nação indígena estabelecida, não era bem isso. Aldeamento era um lugar onde os jesuítas reuniam índios para domesticá-los, usando um linguajar um tanto quanto imprópria da época. Esse aldeamento chamado de Maniçoba, que faz referência a um tipo de mandioca, ficava localizado, segundo cartas jesuíticas, nas proximidades do Piratininga, que é mais próximo a Itu. Claro que tinham indígenas espalhados por toda esta região, os etnólogos discutem se era algum grupo Tupi ou Guaianases, existem restos de cultura material, igaçabas (urnas funerárias indígenas) encontradas aqui na Volta do Poço, perto da antiga fazenda Sobradinho, outros encontrados em regiões próximas a Porto Feliz, que são da família de índios Tupis. Me lembro de uma delas, encontrada pela arqueóloga Silvia Amaranca, eu ainda era estudante. Um tratorista encontrou e, por algum meio a notícia chegou a mim e fomos lá conhecer o lugar. Coisa de 50 anos atrás. Então, as tribos indígenas, quando os colonos começam a se estabelecer, já tinham sido dizimadas ou empurradas mais para o interior do sertão.  
Voltando à questão sobre Monções e bandeirantismo, um dos distintivos das Monções é que eles embarcavam e faziam a rota fluvial, enquanto que o movimento bandeirantismo percorria a pé. Agora, o importante das Monções é que não era somente buscar o ouro, mas todo o intenso comércio que as expedições favoreciam. Algumas foram gigantescas, uma de 1726, por exemplo, de Dom Rodrigo Cesar de Meneses, Capitão General da Capitania de São Paulo que vai para instituir a Vila de Cuiabá, tinha mais de 300 barcos e mais de 3 mil pessoas, segundo documentos da época. E todos saindo daqui deste porto. Imagine a balbúrdia numa vila pequena tendo que se mobilizar para fornecer víveres, alimentos para estas grandes expedições? Isso é bom que se marque: o importante das Monções é que elas estabelecem uma rota e começam a desenvolver um forte comércio interno, na medida em que se levavam animais, gados, pólvora, alimentos, tecidos e voltavam com ouros. No percurso, foram plantando pequenos pousos, onde formaram as cidades que conhecemos hoje, criando a base de um intenso comércio que, depois, vai ser ampliado pelos tropeiros.

Há um boato na cidade que diz que em Porto Feliz não pisou nenhum bandeirante. E pelo seu relato, o movimento bandeirantismo se transforma, digamos assim, num segundo momento, no movimento monçoeiro. 
Antes do movimento das monções, vários bandeirantes passaram por aqui sim, no século XVI. Alguns sertanistas mapearam toda esta região. Existem documentos que falam que muitos dos Fernandes, uma família de povoadores que criaram Santana do Parnaíba, a partir dali, vão desbravando e ocupando estas terras. Domingos Fernandes, um dos primeiros a se estabelecer na região de itu. Baltazar Fernandes em Sorocaba. Existem documentos que diz que um dos Fernandes, chamado André, passou por esta região de Porto Feliz, mas muitos bandeirantes mapearam todas estas terras. Logo, não é verdade que nenhum bandeirante pisou aqui.

E por que Monções? 
As monções sempre foram um tormento para os navegadores portugueses, que nada mais era que um regime de ventos típicos do sudeste asiático que têm uma alternância, ora sopra do continente para o mar, ora ao contrário; e provoca uma onde de grandes tempestades que, na época, destruíam grandes embarcações ou retinham expedições portuguesas durante seis meses. Os portugueses, acostumados com a navegação marítima, quando sobem os paredões da serra do mar e começam a navegar o Tietê, sertão adentro, eles têm uma nova periodicidade, agora imposta pelo regime das chuvas, não mais dos ventos. Esperavam os rios estarem cheios para transpor as corredeiras. Assim, emprestam o nome ‘monções’ para este novo capítulo do descobrimento português.

Pode-se dizer que o movimento monçoeiro é um movimento posterior ao bandeirismo?
 Lógico que num primeiro momento, ambos os movimentos conviveram juntos, muitos bandeirantes sorocabanos, quando as Monções começam a se tornar regulares, continuam procurando caminhos terrestres, que eram alternativas para facilitar o descaminho do ouro. Porque todo ouro que vinha em rota fluvial tinham pontos de controle de alfândega, até chegar aqui que tinha uma alfândega contabilizada de todo ouro que vinha nas expedições. Mas sim, as Monções é um movimento que sucede ao bandeirantismo.

Deste seu envolvimento com a história, sua dedicação ao seu trabalho e sua amizade e convívio na república em São Paulo com Dr. Léo, nos tempos de graduação, o senhor foi convidado a ocupar o cargo de Diretor de Cultura de Porto Feliz, ocasião que, por questões políticas, acabou sofrendo uma ação no Ministério Público, que lhe gerou bastante aborrecimento. Existe uma mágoa deste episódio ainda ou são águas passadas?
Entendo as razões de quem moveu a denúncia, talvez não conhecesse o projeto, baseadas em suposições de que havia um projeto político de minha parte, coisa que nunca houve, além de alguns desacertos administrativos, a gente tem que reconhecer que houve. Creio que faltou diálogo. Sempre fica uma mágoa, mas são águas passadas.

Conte-nos um pouco deste projeto.
Dr. Léo fez um interessante trabalho em que ele queria privilegiar, naquele momento, Educação e Cultura. Assim, ele convidou grandes especialistas em Educação, como por exemplo, o Dr. Jorge Nagle, primeiro reitor da UNESP, educador e autor de livros que colaborou no plano. A própria Secretaria do Estado de Educação enviou especialistas para ajudar, porque era um projeto de municipalização do ensino e isso fez com que o Léo desenvolvesse um plano muito bom para a cidade. Fui testemunha de um encontro do Léo com o então Ministro da Educação, Paulo Renato, na época, que, junto com sua equipe, receberam o plano e também a reivindicação de uma Escola Técnica de Ensino Agrícola. A equipe do Ministério da Educação aplaudiu o projeto, eu estava presente. 

Algumas pessoas ainda dizem que foi uma gestão que focou somente na Cultura, em detrimento de outros setores.
Como uma pessoa muito culta, Dr. Léo queria fortalecer as instituições educacionais e culturais do município, mas, não só a Educação e Cultura, claro, Dr. Léo, como médico, tinha prioridades na área da Saúde também. Se a crítica ao seu governo diz que ele se deteve só em Cultura é porque alguma coisa não foi bem interpretada ou bem analisada.

Qual era o ideal do projeto na área de Cultura desta gestão?
Eu sempre acreditei num tripé importante para a sustentação da educação e cultura social, que é a escola, o museu e a biblioteca. Na escola você tem a base onde os estudantes recebem os instrumentos que vão capacitá-los a aprender. Na escola, o aluno, na minha visão, aprende a aprender, como é que ele vai dominar o conhecimento e produzir conhecimento novo. Na biblioteca ele tem todo o universo da palavra, da escrita e, por último, o Museu, que é universo dos objetos e da imagem. A ideia, naquele momento, era reunir especialistas que nos ajudassem com isso. Foram feitos contatos com a UNICAMP que enviou alguns especialistas para trabalhar nesta visão, junto com uma equipe coesa e de alto nível na cidade. Esta experiência foi relatada numa parte do livro chamado Escola Democrática, do professor Araújo. Ele evita citar o nome de Porto Feliz, mas no rol de agradecimento, alguns professores locais são citados no livro.

Existem documentos locais que foram transferidos para Itu. Conte-nos um pouco sobre isso.
Assim que eu comecei a trabalhar no museu paulista, em 1972, o juiz local, de Porto Feliz, me chamou e pediu para fazer um laudo sobre o estado de conservação dos documentos cartoriais que estavam depositados nos porões do Fórum, muitos documentos sofriam com umidade e ataques de insetos ‘papirófagos’, que comem papel. Na época, era diretor do museu paulista, o jornalista e historiador Mário Leme, que conhecia o então juiz.  Apresentei o laudo ao Mário que o encaminhou para o juiz local, este, por sua vez, pediu para criar um plano de intervenção naqueles documentos. Era um momento, que perdura em muitas cidades até hoje, em que todos os cartórios queriam ser ver livres de documentação cartorial, são testamentos, inventários de grandes volumes que ocupam espaço e demandam muitos recursos para sua preservação.  Fiz o relatório e o juiz perguntou se o Museu Paulista poderia fazer um tratamento de conservação, por se tratar de uma das mais antigas cidades do interior paulista, se o Museu Paulista não poderia cuidar daquela documentação. Então o diretor disse que sim, temporariamente, até que a cidade tivesse um acervo preparado para recebê-los de volta. Desta forma, continua lá até hoje, preservados e catalogados. Porto Feliz ainda não tem condições de protegê-los. 

O prefeito Dr. Leo, na época de sua gestão, também trouxe microfilmagens importantes do período do desbravamento, direto de Portugal. Como foi este trabalho e onde estão estes microfilmes?
Quando foi se aproximando o ano 2000 e surgiram discussões sobre como comemorar no Brasil os 500 anos da chegada dos colonos portugueses, fizemos, na época, um projeto baseado em livros de história, especialmente do historiador Jaime Cortesão, que num certo momento usa a expressão de que o bandeirismo e as Monções, de certa forma, foram continuidades do descobrimento do século XVI, ou seja, os portugueses subiram a serra e continuaram descobrindo. Então, pegamos este gancho e fizemos uma justificativa à uma grande comissão portuguesa chamada Comissão Nacional das Comemorações dos Descobrimentos Portugueses. Essa comissão, que produziu seminários, livros, revistas, republicou tratados descritivos do Brasil, começou a fazer reuniões no Brasil para estabelecer um programa que estava acoplado a um projeto de reprodução de documentos de todos os arquivos portugueses e europeus que tratassem do período do descobrimento, para fazer catálogos e reprodução fac-similar de documentos. Esse projeto tinha o apoio do Ministério das Relações Exteriores do Brasil e se chamou, se não me fala a memória, Projeto Barão do Rio Branco. Quando vimos tudo isso, surgiu a ideia do Dr. Leo, então, fizemos uma reunião preliminar, onde discutimos a inclusão das Monções neste projeto. Houve, inclusive, brincadeiras de pessoas que diziam que as Caravelas haviam chegado no Porto das Monções. Essa pilha mostrava um certo grau de desconhecimento da história, mas não deixava de ser provocante no sentido de justificar melhor a ideia. Creio que faltou muito disso, porque na minha cabeça estava tudo certo. Bem, fomos atrás desta comissão que estava se reunindo em Ouro Preto, Minas Gerais, e foi nos dada a oportunidade de expor o nosso projeto. O Léo falou um pouco, depois me foi dada a palavra e a comissão gostou imensamente do projeto e aprovaram a inclusão de Porto Feliz no rol do programa. 
Com a ajuda de professores de Portugal, fizemos este levantamento de documentos da Biblioteca de Évora e também da Biblioteca de Lisboa e produzimos cópias em microfilmes destes documentos. Porém, com os problemas que ocorreram na gestão, não tinha como receber da prefeitura, as despesas foram pagas por terceiros e tais cópias foram entregues na prefeitura, embora não tenha sido pago por ela. Todo este documento tem cópias no Arquivo Municipal, porém, os microfilmes não sei dizer onde estão.

Do tempo em que o senhor foi Diretor de Cultura de Porto Feliz, aos dias atuais, já se passaram 20 anos. Neste período, vimos patrimônios nossos serem demolidos, como os casarões da Barra Funda, o Clube Recreativo Familiar, casarões do centro, especialmente os que ligavam os patrimônios tombados que ainda existem na cidade, mais recentemente o Hospital do Grilo e, por último, o Chapéu da Madre, que não é, assim como muitos outros, um patrimônio histórico tombado, mas que fez parte da história local. Com exceção deste último, todos os demais foram demolidos por estarem nas mãos de particulares. Essa despreocupação com a história local é falta de uma política de preservação? Como conciliar progresso com preservação histórica?
A gente analisa descrições de viajantes sobre Porto Feliz, de 30 anos atrás, e nelas vemos o enaltecimento de uma cidade bucólica, típica cidade do interior, que ainda preservava parte de seus casarios do final do século XIX. Tomando como base estes relatos, realmente houve uma transformação muito rápida no panorama urbano, que não primou pelo bom gosto, que descuidou da história. O desenvolvimento não é incompatível com a preservação da história. Se assim o fosse, não teríamos cidades históricas como conhecemos não só no exterior, como diversas cidades brasileiras, no interior da Bahia, o centro do Recife, Olinda, São Luís do Maranhão, entre muitas outras. É possível conviver perfeitamente desenvolvimento com indústrias modernas, e o casco urbano preservado, mantido. Não existe incompatibilidade, os dois podem caminhar juntos, mas, para que ambos caminhem, primeiro tem que ter o anseio da população, manifestações da população em favor desta preservação e políticas públicas que concretize este anseio. 

A gente percebe esta manifestação quando o imóvel foi leiloado e seu proprietário o põe no chão ou quando a prefeitura vai lá e derruba alegando risco à população. Porém, para a sua preservação, há sempre a vista grossa.
O conjunto arquitetônico de uma cidade é documento da história e a sua destruição é como apagar estes documentos através dos anos. Por isso que eu louvo a iniciativa da preservação da antiga fábrica Nossa Senhora Mãe dos Homens, claro que houve uma adaptação de seu uso, mas a característica foi preservada. Faltariam ali alguns painéis explicativos falando da importância daquele espaço para economia local, de trocas culturais intensas que marcaram um período da história. Falta um pouco disso. Daí vem o que é cultura, não e só preservar o espaço se ele não contar a história para as próximas gerações que não viveu aquele momento. 
Não é só tombar patrimônios por serem referenciais urbanos significativos de parte da história local, é preciso também criar medidas de preservação e estudos de viabilidade de exploração e novos usos econômicos que assegurem a sustentabilidade deste patrimônio tombado. A gente não pode cair no romantismo de que a preservação por simples tombamento patrimonial vai dar garantias de continuidade, se não houver um projeto que dê sustentabilidade a este bem tombado.

Um exemplo disso é o museu. O que o atual estado do prédio representa para a nossa cultura local?
É uma chaga exposta na história de Porto Feliz. Houve um descuido das gestões públicas em, com poucos recursos, consolidar a estrutura do edifício e manter a instituição aberta ao público. Na medida em que se usa o recurso extremo de fechar, expõe o bem à ação mais rápida da deterioração. Um prédio como aquele, aberto ao público, exigiria sempre pequenos cuidados de manutenção e, com certeza, hoje ele estaria em melhor condição.

Com relação ao seu acervo, deveria estar guardado ou exposto em algum outro imóvel?
Tenho tomado contato com pequenas exposições de parte deste acervo, isso é louvável. Como não é possível expor o acervo total, pequenas parcelas expostas temporariamente é muito bom para manter viva a nossa história.

Sabemos que o senhor é muito requisitado pelos gestores públicos, quando se trata de cultura local. O que esta atual Diretoria de Cultura vem fazendo para a nossa cultura?
Estive com o atual Diretor de Cultura de Porto Feliz, o Flávio Torres, e ele está muito empenhado em desenvolver projetos para a preservação, tanto para o restauro do museu e desenvolvimento de um projeto museológico moderno, quanto para o Parque das Monções. Projetos muito sérios que estão tendo o apoio de instâncias especializadas do Governo do Estado. Pela primeira, vez tenho tido contato com projetos muito sérios para o museu e o Parque das Monções. Eu creio que este é o caminho. Vi os projetos, tive contato com o pessoal destas instâncias e todos estão muito esperançosos na sua concretização. 

O que visa tais projetos?
Acima de tudo trabalhar o tema monções, recuperar o bem material, praticamente aquilo que eu sonhava lá atrás e nunca tive o privilégio de ver concretizado, que é com que o museu se torne um centro de referência para estudos da história das Monções e das navegações fluviais no século XVIII. Um centro que reúna tudo que foi produzido em bibliografia, sejam livros, teses, arquivos de jornais e revistas científicas, que reúna tudo que diz respeito a documentos, manuscritos impressos e iconografias. Quando não possível a presença de originais, cópias e, quando não possível a presença de reproduções impressas, um esquema moderno informatizado de referência que aponte onde eles existam: na Biblioteca Nacional de Lisboa, na Biblioteca de Évora, em Portugal, no Arquivo da Sevilha, na Espanha, no Arquivo Tramalino em Portugual, no Arquivo da Torre do Tombo em Portugal, no Arquivo Nacional do Rio de Janeiro, no Arquivo Público do Estado de São Paulo, enfim, um centro completo de referência de toda a história das Monções. Este projeto que o Flávio vem articulando com especialistas, contempla isso. Com o pé no chão, sempre preocupado com a questão da sustentabilidade, o que vai assegurar a manutenção. A primeira preocupação é com a sustentabilidade e isso ele vem discutindo seriamente. E para o Parque das Monções, um dos raros parques florestais urbanos à margem do Tietê, recuperar o tratamento da vegetação, com estudos sobre a botânica local, integrando parque e museu. É um projeto sério que me deixou extremamente feliz.

O Plano Diretor de Porto Feliz que venceu em 2016, ainda não foi atualizado. A cidade ainda não tem uma identidade definida, ou seja, apesar de histórica, não se trabalha esta característica tanto quanto se trabalha a questão do desenvolvimento industrial e expansão urbana. Na sua visão de historiador, o que precisa ser feito para que a cidade não perca esta questão histórica tão rica da cidade?
O Plano Diretor, que vai estabelecer as diretrizes, precisa contemplar a preservação do seu patrimônio cultural que diz respeito não só aos edifícios, mas também do seu entorno. Você não fala de um bem isoladamente, quando se fala em preservação. É preciso pensar no seu entorno. Então, um Plano Diretor elaborado com estes cuidados, desenvolvido junto com urbanistas e outros profissionais especialistas em patrimônio cultural e, logicamente, com economistas e especialistas em desenvolvimento, é o que garante a continuidade da história, sem que ela se perca, como perdemos os herdeiros das Monções. Tem que ser um plano em que o interesse maior, que norteie a sua fatura, seja o da coletividade, questão do bem-estar do cidadão, questão de manutenção do seu espaço de vivência, que nada mais é do que preservar os espaços que ultrapassem os muros dos seus quintais onde o cidadão se reconheça e se sinta inserido em sua história local. E nada disso é incompatível com desenvolvimento econômico. Pelo contrário, uma cidade que demonstre interesse no desenvolvimento das instituições e na preservação do seu patrimônio cultural, arquitetônico e urbanístico, tem muito mais crédito entre as empresas que queiram investir na cidade. Um plano que contempla instituições culturais, áreas verdes preservadas, parques, praças, boas escolas, tem tudo para atrair indústrias. Porque nenhuma indústria hoje ergue suas chaminés, ou seja, impõe suas plantas, sem a certeza de que seus funcionários tenham assegurado possibilidade de fluir a cultura onde estão inseridos.

Porto Feliz preserva sua história?
Atualmente, o que se nota é a falta de maior empenho em ressaltar a importância da história local, para que seus próprios cidadãos, os que aqui nasceram, os que aqui moram e os adventistas que estão chegando, saibam que estão morando numa cidade que tem um longo caminho de formação histórica que a diferencia de outra cidade. Porto Feliz tem uma marca muito forte que o seu próprio nome carrega, ou seja, por que Porto Feliz? Quando Antonio Manoel de Melo Castro Mendonça, que era o governador da capitania, atendeu ao pedido dos moradores locais e criou a Vila de Porto Feliz, separando do território de Itu, ele também autorizava o uso do nome de Porto Feliz porque assim desejava os moradores. Era um porto às margens do rio Tietê em que quem aqui chegava, bandeirantes e monçoeiros que percorriam árduos caminhos para chegar até aqui, se sentia feliz ao se aproximar do lugar. Lugar este que o próprio governador da capitania dizia ser um local que certamente teria grande desenvolvimento e se destacaria na capitania, tendo em vista o grande comércio propiciado pelas rotas de navegação fluvial . Quer dizer, isso ainda não se cumpriu. 
Tal preocupação com a preservação desta história se faz necessária, para que quando perguntarem ‘você é gente de quem?”, você sinta orgulho em dizer que é gente de Porto Feliz!

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