• Quarta-Feira, 19 de Dezembro de 2018
  • Porto Feliz - Bom dia

O LOBO VELHO

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O LOBO VELHO

Valdir Cesar da Silva fala do seu trabalho à frente do Grupo Ecológico Bandeirantes, que atende jovens carentes e os ensina a respeitar o meio ambiente e conviver em comunidade

Um trabalho que começou há 26 anos e que fez a diferença na vida de muitos jovens porto-felicenses. É assim que pode ser definido o que o Grupo Ecológico Bandeirantes tem feito desde sua fundação, uma iniciativa de Valdir Cesar da Silva e Henrique de Melo.

Valdir, também conhecido como Valdir Mateiro, Lobo Velho, Chico do Mato, Valdir Petar, viveu sua infância na zona rural e com sua família aprendeu a respeitar a natureza, trabalhar duro e fazer tudo com amor. Essa fórmula deu tão certo, que após os estudos e um tempo no quartel, resolveu devolver um pouco à comunidade e proporcionar aos jovens carentes da cidade, o mesmo aprendizado que teve, inserindo-os no convívio da comunidade e os integrando ao meio, respeitando o próximo e a natureza. “Tudo isso com o apoio de muitas pessoas, inclusive, minha esposa Adriana e minhas filhas Juliana e Mariana, além de tantos outros que sempre nos deram as mãos sem querer nada em troca”,comenta.

Nesta entrevista, o Lobo Velho conta um pouco sobre sua vida, família, trabalho e também sobre o Grupo Ecológico Bandeirantes. Confira!
 
Você é gente de quem?
Sou filho de Benedito da Silva, mais conhecido como Tico Mineiro e Santina Bueno da Silva. Nasci no Bairro Registro, em Porto Feliz, onde minha família morava e tinha uma propriedade rural. Sou de uma família rural, o meu pai era mineiro e, como um bom mineiro, gostava de mato. Meus avós vieram de Minas Gerais em busca de oportunidades no Estado de São Paulo e, na ocasião, meu pai comprou um sítio em Porto Feliz e começou sua família. Somos em 10 irmãos, todos criados na lavoura, plantando e também tocando o gado. Meu pai era um sertanejo nato, um caboclo mateiro, conhecia tudo do campo e da área rural. Fez sua vida trabalhando com o gado. 

Conte-nos sobre sua infância.
Tudo na vida da gente é baseado na infância. Posso estar enganado, mas é assim que vejo. Penso que quando uma criança tem uma infância sadia, uma convivência familiar saudável como tive com meus irmãos e meus pais, ela cresce confiante para encarar os problemas da vida. A infância é a essência de tudo. Vivendo na área rural, você acha que eu poderia ter uma infância difícil? Eu nadava, pescava, andava nos riachos, na capoeira, nas restingas de mato. Tinha toda esta diversão. Há 53 anos, isso era a vida dos adolescentes, das crianças... era uma brincadeira saudável, bem diferente do que é hoje. Mas, eu também tinha os meus compromissos. Ia à escola a tarde, tinha minhas obrigações no trabalho junto com meu pai. Era minha a função de recolher os bezerros do pasto, recolher a vaca para minha mãe tirar o leite, tratar das galinhas, porcos, enfim, uma vida sertaneja.
 
Qual era a fonte de renda?
Vivíamos da lavoura, da agricultura e do gado. Todo trabalho do campo era familiar, por isso nossa convivência era muito harmoniosa. Cada um tinha uma função e nosso pai, caboclo do mato, ensinou muito bem o ofício e o respeito aos filhos.
 
É desta vida no campo que vem este gosto pelo mato?
Eu vivia no meio do mato. Pergunto a você, por que este gosto pelo mato? Isso é a minha essência, minha formação.
 
Quando vieram para a cidade?
Eu tinha de 13 para 14 anos e terminei os estudos na cidade. Mesmo com a vinda para a cidade, nós continuamos com o trabalho no sítio. Com o tempo, meus irmãos foram se casando e cada um seguindo sua vida. O sítio ficou com o meu pai e o trabalho foi diminuindo com a falta da mão de obra dos filhos que tomaram outros rumos. Assim como eu que, em 1980, ingressei no Serviço Militar e servi o exército por muitos anos.
 
Conte-nos um pouco desta fase. Teve alguma dificuldade com o serviço militar?
Muito pelo contrário. Por conta desta minha vida de mateiro, tive uma adaptação muito rápida e destaque maior no pelotão. Nesta época, o 2º GACAP, quartel de Itu, realizava as colônias de férias e eu era um dos responsáveis por coordenar e trabalhar com os jovens que frequentavam o local. Nestas colônias, desenvolvi muita habilidade em liderar equipes e realizar trabalhos sociais voltados à natureza, integrando o homem ao meio ambiente. Eu vivia no quartel porque não tínhamos um bom salário para ir e voltar, então a gente morava lá nos alojamentos, como Juruna, termo usado para quem mora dentro do quartel. Prestei com muita dignidade e respeito os serviços a esta Pátria, através dos trabalhos com os jovens. Eu, nascido no meio do mato, caboclo mateiro, fardado, ensinando jovens da cidade grande a brincar no campo. Foi um tempo muito bom, um grande aprendizado que levo por toda a vida.
 
Como nasceu o Grupo Ecológico Bandeirantes?
Quando saí do quartel, resolvi empregar todo este conhecimento adquirido, tanto na vida rural, como nos trabalhos realizado na base militar. E, em 1990, convidei um amigo, também ex-militar que serviu junto comigo, Henrique de Melo, e começamos a trabalhar em Porto Feliz com os jovens carentes. Basicamente, foi assim que surgiu esse projeto.


 
E como foi o início?
Foi interessante. A gente colocou tudo no papel, nos dirigimos ao prefeito, na ocasião, que elogiou e cedeu-nos o espaço que, desde então, é a sede da Guarda Civil Municipal. O grupo, desde o seu início, nunca recebeu ajuda financeira de nenhum órgão público, federal, estadual, municipal, entidades. Enfim, doações, nunca!
O militar é preparado para sobreviver em situações adversas e o que queríamos era isso mesmo, não queríamos nada de graça, nosso objetivo sempre foi conquistar. É o que eu sempre falo: o Grupo Ecológico Bandeirantes não quer ganhar nada de graça, porque o que é de graça ou a gente não dá valor ou tem algum interesse por trás, dificilmente alguém oferece alguma coisa de graça, sem querer nada em troca. Comigo isso não funciona. O Grupo Ecológico Bandeirantes é hoje uma entidade declarada de Utilidade Pública, que teve início em 1990, e após quatro anos de trabalho duro para conquistar o seu espaço, foi fundada em 1994 no papel.
 
Como foram estes trabalhos?
A partir do momento em que tivemos este respaldo e espaço, começamos a divulgação e, para a nossa surpresa, no dia marcado para as atividades, tinham três adolescentes esperando a gente chegar, sentados na escada. Começamos assim, conversando com os pais e colocando em prática, com estes meninos, tudo aquilo que tínhamos idealizado.
 
É um trabalho semelhante ao escoteirismo?
Na verdade, o Grupo Ecológico Bandeirantes é uma organização não-governamental, que não tem vínculo com nenhuma entidade. Ou seja, com grupos ecológicos, de escoteiros, de desbravadores, de patrulheiros. O grupo é uma organização única, criada e idealizada por mim e Henrique de Melo, então declarada entidade de Utilidade Pública. Tenho todos os cursos de capacitação necessária para tal finalidade. Para se ter um trabalho deste não basta ser um aventureiro, é preciso ter preparo acima de tudo, afinal, trata-se de vidas humanas.
 
Qual o tipo de trabalho é feito?
Primeiro: convivência social. Hoje, o grupo conta com 55 membros no total, desde o chefe ao mais novo aluno. A convivência social é uma das principais atividades do grupo, pois norteia os jovens para saberem viver em harmonia com a sociedade e o meio em que vivem. Segundo: atividades práticas, como técnicas de nós que trabalha no jovem a concentração, a coordenação motora, o tato e o raciocínio. Existem muitas técnicas, como técnicas de bombeirismo, sobrevivência na selva, primeiros socorros, entre outras que a gente emprega com os alunos em campo.
O Grupo também participa de ações sociais como, por exemplo, quando teve aquele vendaval que destruiu o bairro Altos do Jequitibá. O Grupo Ecológico Bandeirantes foi um dos primeiros a chegar no local com os seus alunos, os mais preparados, e trabalhou para ajudar, de maneira voluntária, das 6h da manhã até as 6h da tarde, ajudando a distribuir telhas, retirando entulhos, ajudando as famílias.  Esta ação rendeu reconhecimento por parte do Legislativo e da comunidade. Também faz parte do cronograma do grupo, atividades na caverna do Petar. A prefeitura ajuda com o transporte e cada aluno paga suas despesas. O grupo também participou na ajuda após a inundação que aconteceu na cidade de Itaoca, na região de Apiaí da Ribeira. Arrecadamos mais de 1.800 kg de alimentos, uma grande quantidade de água e produtos de higiene que o grupo levou aos necessitados da tragédia.


 
Como é feito este trabalho de arrecadação?
Boca a boca do grupo, das famílias dos membros que se mobilizam por acreditar na nossa missão. Isso tudo toma uma proporção grande, onde muitas pessoas colaboram com doações. Inclusive, nos dias 13, 14 e 15 de novembro, o Grupo Ecológico Bandeirantes irá com uma patrulha para Apiaí, novamente fazendo doação de roupas e agasalhos. É um trabalho voluntário cuja arrecadação é feita pelos membros, através de seus familiares. Ninguém ganha um centavo.
 
E quem financia esta logística?
Para você fazer um trabalho desses, você não tem muita despesa. Depende apenas de doação e desdobramento de cada um. Por exemplo, eu pago meu combustível, a família dos alunos colabora também. Daí a importância da convivência social, onde a família também é parte fundamental do grupo, os pais dos alunos também se envolvem, porque tudo tem um custo. Também fazemos alguns eventos em prol do Grupo, como barraca de pizza e bingos.
 
Esse envolvimento é o que motiva o grupo?
Uma coisa bem legal no grupo é o convívio. Muitas vezes, quando a gente vai a uma determinada missão e quer levar aquela pessoa que é participativa, que ajuda em tudo, que gosta e, por algum motivo ela não pode ir, pelo deslocamento ou fatores financeiros, o grupo se une, os próprios alunos se sensibilizam e rateiam o custo deste membro. Isso é deles, e eu tiro o meu chapéu para isso. Sinal de que o trabalho tem dado muito certo.
 Qual o objetivo do Grupo Ecológico Bandeirantes?
Conscientizar estes jovens que estão sujeitos a tanta coisa errada e, nas reuniões aos domingos, é um curto tempo, onde, nestas poucas horas, além dos trabalhos em que participa, a pessoa consegue ter uma visão diferenciada do futuro, vendo as coisas de forma correta e despertando o interesse em almejar um trabalho digno voltado para o próximo.
 
Qual a maior dificuldade deste trabalho?
O preconceito. A crença em um trabalho social voluntário está cada vez menor. Algumas pessoas não acreditam na doação ao próximo sem que haja nada em troca. Elas sempre pensam que a gente ganha muito dinheiro com isso. Muitas vezes, alguém me fala que devo ganhar muito bem para fazer este trabalho há tanto tempo. Aí eu respondo: se você quiser ganhar 80% do que eu ganho com este trabalho você vem trabalhar comigo. Então, a pessoa pergunta quanto é tudo isso e eu respondo que o meu salário, neste projeto, é a satisfação pessoal, é ver estes jovens buscando um futuro digno, é ver os pais felizes e confiando seus filhos neste grupo. Não há dinheiro no mundo que pague. Nossa maior dificuldade, por incrível que pareça, não é financeira. Onde entra a questão financeira, se não for bem gerenciada, ao invés de prosperar, acaba complicando. A dificuldade não é financeira e nem de estrutura, porque hoje, a base do GEB é a Sede da Guarda Civil Municipal de Porto Feliz. Entra gestão, sai gestão e o grupo permanece lá. Esta base é de grande importância estratégica, porque o garoto que mora no Jardim Vante, ele pega a circular e desce no centro. O garoto que mora no Porungal pega a circular e desce no centro. E assim com os demais. Já tivemos oportunidade de receber terreno como doação e o grupo achou por bem não aceitar por não ver objetivo nisso, uma vez que a nossa localização junto à GCM é bem resolvida. Talvez precisássemos de um espaço para alojar nossos equipamentos apenas porque são muitos. Esta é uma das nossas dificuldades, mas nada que não consigamos tocar usando o bom senso.
 
Em paralelo ao GEB, o que faz para sobreviver?
Sou comerciante, tenho uma loja de artigos militares, camping, pesca e turismo e faço também, em paralelo ao grupo, um trabalho de ecoturismo, na região de Capão Bonito, no qual direciono o turista, escolas e grupos em estudos do meio, pesquisas e conhecimento do ecossistema da Mata Atlântica.
 
Pretende, algum dia, fazer este tipo de trabalho em Porto Feliz?
Sim, é um projeto que já venho trabalhando nele e pretendo implantar no próximo verão.
 
Algum dos alunos do GEB seguiram carreira na área de Segurança Pública?
Vários alunos, por incentivo e conhecimentos adquiridos no grupo, migraram para trabalhos relacionados, como GCM, soldados do exército, outros na PM. Praticamente, todos seguem carreira onde possam empregar seus conhecimentos. É uma satisfação muito grande ver aquele menino que entrou com 8 anos prestar um serviço voltado à população através de seu trabalho hoje.
 
Como faz para ser um aluno do Grupo Ecológico Bandeirantes?
Para participar, a partir dos 8 anos, deve comparecer a sede, aos domingos ou me procurar pessoalmente, para fazer sua ficha de inscrição. A partir daí ela já começa a frequentar e participar. É preciso saber também que toda instituição séria é pautada por regras e com o GEB não é diferente. Nós temos uma conduta que chamamos de P.O.R. (Princípios, Organização e Regras) e o aluno tem que se enquadrar.
 


E meninas, podem participar?
Sim, devem. No início era só para meninos. Depois de cinco anos, vimos a importância de incorporar as crianças do sexo feminino também, afinal, classe social não faz esta distinção. Hoje, em torno de 1/3 do grupo são mulheres, maiores e menores de idade. Não fazemos distinção de raça, classe social ou crença. Nosso objetivo é atender pessoas carentes e necessitadas de um trabalho voluntário sério que às integrem no convívio ao meio em que vivem.
 
Como vê essa confiança dos pais, principalmente com relação às meninas?
A gente não ganha nada por acaso. Tudo é fruto de trabalho e responsabilidade. Isso se chama confiança. Sou casado, tenho duas filhas e eu vejo como é a convivência hoje fora de casa. Eu respeito muito essa confiança depositada em mim por estes pais. A gente sabe de tanta coisa errada acontecendo entre estes jovens, principalmente na questão de princípios e temos a obrigação de trabalhar em cima disso. Nestes 26 anos de existência, O GEB nunca respondeu por nenhum problema, sempre realizamos um trabalho com seriedade e respeito a todos, expandindo à família de cada membro, aplicando tudo aquilo que aprendi nestes 53 anos de vida que eu tenho. Somos uma grande família. Minha honra é tudo de puro e mais sagrado que eu tenho.
 
Olhando para estes 26 anos de Grupo Ecológico Bandeirantes, valeu a pena tanto esforço voluntário para ajudar estes jovens?
Muito. E eu quero aproveitar e fazer alguns agradecimentos, porque não fiz sozinho. Agradeço primeiramente a Deus por tudo que Ele me faz, tenho uma grande família abençoada e devo muito do que sou a esta convivência, desde os meus tempos de infância. Agradeço especialmente à minha esposa Adriana Lúcia Pelegrine e às minhas duas filhas, Juliana e Mariana. Sem o respaldo delas, eu não seria capaz de realizar um trabalho como este. Só elas sabem quantas coisas em família eu sacrifico para fazer deste grupo um projeto sério e digno. Por este motivo é que me dou por inteiro. Agradeço também à GCM por todas as vezes que nos socorreu e nos apoiou. Agradeço pelo companheirismo e amizade destes profissionais da Segurança Pública da cidade, que estão sempre de prontidão para ajudar a todos com muita dedicação e dignidade. Quando um trabalho é realizado com amor e dedicação ao próximo, sem almejar nada em troca, sempre vale a pena acreditar. O mundo anda muito carente de pessoas que tenham compaixão pelos seus semelhantes.

 

E o que falta para Porto Feliz?
Faltam pessoas que valorizem mais a nossa cultura. Faltam investimentos no turismo, fortalecer a participação da cidade dentro do Roteiro dos Bandeirantes, preparar a cidade para que ela seja receptiva, desde sua infraestrutura aos serviços públicos, através de orientação. Então, a cidade precisa passar por uma transformação muito grande neste sentido, para que se torne primeiro de tudo, acolhedora.

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