• Quarta-Feira, 19 de Dezembro de 2018
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O NEGRO EM PORTO FELIZ EM MOVIMENTO

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O NEGRO EM PORTO FELIZ EM MOVIMENTO

História mostra que as raízes africanas estão presentes em Porto Feliz desde a origem da cidade


Apesar das controvérsias acerca da data do início do povoamento, documentos históricos atestam que no final do século XVII ou início do XVIII já haviam moradores nestas paragens. Com isso, pode-se afirmar que o negro estava presente na formação de Porto Feliz desde, praticamente, o início da povoação. Isso porque, conforme o historiador Francisco Nardy Filho, em 1728 o Padre Visitador Miguel Dias Ferreira repreendera ao filho do povoador Antonio Cardoso Pimentel, chamado José, porque este alugava seus escravos negros para trabalhar como mineiros em Cuiabá, escravos esses que deveriam cuidar da Capela de Nossa Senhora da Penha, em Araritaguaba (Porto Feliz).

Em 1740 escravos fugitivos formaram dois Quilombos nas proximidades da Vila de Araritaguaba. Os dois agrupamentos foram destruídos em 1777, segundo o professor João Campos. Nessa mesma década, a Comissão do Santo Ofício, conhecida como Santa Inquisição, denunciou um cirurgião residente em Araritaguaba como libertino, por praticar sodomia com escravizados negros.

Todos esses relatos demonstram que desde os primeiros tempos os negros já estavam presentes na construção da História desta cidade. Além dos documentos e relatos de cronistas, essa presença está materializada nos prédios construídos entre os séculos XVIII e XIX, como é o caso da Igreja Matriz, do casarão que abrigou o Museu Histórico e o prédio da atual Casa da Cultura. Mas a presença do negro em Porto Feliz vai além. Está na tradição cultural da formação de músicos de excelente qualidade, como o maestro Voltaire Torres, Manoel José de Calazans, Francisco de Arruda Campos (Chico da Cristina), José Rodrigues do Nascimento (Zé de Lúcia), Benedito de Arruda Pais, Zé Urbano entre tantos outros. Hoje, os negros ainda se destacam no campo da música em Porto Feliz. A presença do negro em Porto Feliz está também na religiosidade, seja pelo viés católico da Irmandade de São Benedito, seja pela memória de Salvatina de Toledo Paes com a sua Tenda de Umbanda “Vovó Catarina” (cujo prédio ainda existe na rua Ademar de Barros).

Toda essa riqueza histórica e cultural, entretanto, não era valorizada até alguns anos atrás. Basta lembrar que o Conselho Municipal do Negro foi criado em 1988 e somente em 2005 é que tomou posse o primeiro grupo a compor esse conselho. De janeiro de 2013 a janeiro de 2014, o jornal “Tribuna das Monções” veiculou uma série de artigos que tratavam da História e da Cultura dos negros na cidade de Porto Feliz. Composto por 16 artigos, assinados por Carlos Carvalho Cavalheiro, essa série trouxe algumas informações até então esquecidas e debateu assuntos que permitiram a formação de uma ideia de identidade negra porto-felicense.

Como resultado direto dessa intervenção, em outubro de 2014, pela primeira vez na História, as comemorações do aniversário da cidade e da Semana das Monções tiveram como foco o protagonismo negro em Porto Feliz. Os desfiles cívicos das escolas enalteceram a cultura afro-brasileira e a tradicional encenação histórica voltou seus holofotes para mostrar a visão do negro sobre a epopeia das Monções.

Em 2014, com a iminência da cassação do feriado do Dia da Consciência Negra e de Zumbi, prevista para ocorrer no ano seguinte, houve uma mobilização de diversas pessoas e organizações na pretensão de garantir a manutenção da data comemorativa como feriado. Militantes negros de Porto Feliz, especialmente os ligados ao grupo Família Pic-Favela, lançaram a campanha “Um feriado é Poko!”, que culminou num protesto realizado em 20 de dezembro daquele ano e que contou com a participação de militantes e simpatizantes da causa, vindos de cidades como Sorocaba, Campinas, Bauru e Itu. O grupo “Trança” de Teatro, de Sorocaba, realizou uma performance em frente à Igreja de São Benedito.


A cultura africana está presente nos eventos do calendário da cidade

No ano de 2015, em Porto Feliz, inaugurou-se a Casa do Hip-Hop no mesmo dia em que se comemorava o Dia da Mulher Negra e de Tereza de Benguela (25 de Julho). Essa Casa tem como proposta a articulação de uma política do próprio movimento em nível nacional que optou pela oportunização de espaços onde se pudessem desenvolver a cultura como forma de expressão, de movimento social e político, desvinculado de governos e partidos.

Toda essa articulação e participação demonstram que o negro em Porto Feliz está em movimento, em busca das condições de igualdade, numa sociedade marcada pela desigualdade, como ainda, infelizmente, é a sociedade brasileira. 

Seria bom ouvir novamente aquele canto marcado pelo tambu... O canto do batuque, que se realizava na rua da Laje, e que exteriorizava os anseios e as angústias do povo. Como no “Canto das Três Raças”, lindamente executado por Clara Nunes, e que dizia ser aquele “um canto de revolta pelos ares”.
Talvez o canto já se faça ouvir. Ainda que por outros toques e ritmos, mas com a mesma essência: a louvação da Liberdade!

Livro retrata a História e a Cultura dos negros da cidade

Uma cidade que coleciona mais de um século de História, fatalmente envolve as pessoas e desperta nas mesmas a curiosidade pelo passado. Afinal, com tantos anos de existência, é de se esperar que guarde em suas memórias o registro de passagens curiosas e personagens inusitados. Não foi diferente com o escritor e professor de História Carlos Carvalho Cavalheiro.

Mesmo residindo atualmente em Sorocaba, ainda mantém o seu vínculo com Porto Feliz, quer pelo desenvolvimento de seu trabalho junto à EMEF. Coronel Esmédio, quer pelas amizades que desfruta nesta cidade. O historiador Carlos Cavalheiro, desde o início, se interessou pela história da cidade, mas não somente aquela chamada “oficial”, mas também os relatos silenciados e as narrativas orais dos moradores locais.

Do interesse pela história local, acabou surgindo o pensamento para a criação de um livro voltado à importância da participação da comunidade negra na cidade, além de suas influências na cultura e tradições locais.

A obra tem previsão de ser lançada oficialmente em janeiro de 2016, pelo professor de história Carlos Carvalho Cavalheiro. O livro “O Negro em Porto Feliz - Memória afro-brasileira numa cidade do Médio Tietê” é uma compilação de artigos do professor Carlos, publicados no período de janeiro de 2013 a janeiro de 2014 no jornal Tribuna das Monções.

A publicação traz em sua capa duas figuras muito importantes na história musical da cidade, os maestros Romário e Calazans. Professor Carlos destaca essa influência musical, através de diversos nomes. “Praticamente os maiores e mais destacados maestros da cidade eram todos negros. Cito alguns nomes como Voltaire Torres, Manoel José de Calazans, Romário Antônio Barbosa, entre outros”, comenta. “A tradição continua, pois, hoje, ainda temos vários músicos negros na cidade”, diz com orgulho.

Sua tiragem inicial é modesta. De apenas 100 exemplares. “São poucos exemplares, na realidade. Para a distribuição, penso em alguns próprios que são multiplicadores, como o Museu Afro-Brasil, em São Paulo. Provavelmente, faremos uma doação para Bibliotecas especializadas, mas, mesmo assim, em número bastante reduzido”, explica.


Editora Crearte / Sorocaba - SP

O livro também será comercializado para quem tiver interesse. “A ideia é socializar a informação, fornecendo, além do que já havia em suporte jornal, outro suporte que é o livro”, enfatiza.

Professor Carlos distribui o conteúdo da forma que pode, pois, em sua opinião, essa história tem de ser contada e sua divulgação ampliada para que o maior número possível de pessoas saiba o que aconteceu em sua cidade.

Carlos Cavalheiro é formado em História, com pós-graduação em Metodologia do Ensino de História e Gestão Ambiental, licenciado em Pedagogia e bacharel em Teologia, mestrando em Educação pela UFSCAR de Sorocaba.

Rascunhos

O ponto de partida do livro “O Negro em Porto Feliz” foram conversas do professor com pessoas de Porto Feliz. “Conversei com muita gente, especialmente um grupo de senhores que constantemente se reunia na praça da Matriz, à noite. Entre eles, os saudosos Ari Pimenta e Gilberto Beque Leandro. O dentista e aviador Christovam Sacramento Perpétuo também participava”, lembra. “Obtive muitas informações ouvindo pessoas da cidade. São muitas pessoas e sem querer cometer alguma injustiça com os demais, registro aqui algumas delas como o Gilberto Leandro, a professora Silvana Castelucci, o professor Vanderlei Barnabé, o Ivan Sampaio, a Sonia Belon, o Zequinha Godêncio (José Aparecido Ferraz), a professora Ana Cândida Oliveira Diniz, Maria Aparecida Coelho de Oliveira Castilho, a Rita de Cássia Camargo Pires entre tantas outras. Devo agradecer também a todos os que liberaram o acesso aos arquivos, públicos ou privados, para que pudesse realizar essa pesquisa como Roseli Brugnaro e Sonia Belon (que administraram o Museu Histórico), a Janaína Soares de Souza Piva Camargo e o José Eduardo Bertoncelo (do Arquivo Público e da Biblioteca Municipal) e o Romeu Castelucci Neto, a coordenadora pedagógica Dora e a Maria Angélica, diretora do Colégio Porto dos Bandeirantes”, informa o escritor e historiador.

Através dessas histórias que, a cada nova conversa, o professor reunia, coletou informações em jornais antigos, através da coleção do falecido historiador Romeu Castelucci, mantida por sua família. Outros conteúdos foram obtidos de documentos do museu e do arquivo público municipal.

Com o material, Carlos pretendia escrever já de imediato um livro. Mas, uma forma mais rápida da disseminação de toda essa importante história surgiu em contato com um dos proprietários do jornal Tribuna das Monções, Roberto Prestes de Souza. “O Roberto Prestes soube dessa minha pesquisa e ofereceu a oportunidade de publicar o conteúdo em forma de artigos para a Tribuna das Monções. Eu aceitei”, diz.

Devido a repercussão que os artigos tiveram, a ideia de produzir o livro ressurgiu. “Os artigos tiveram uma interessante repercussão, talvez até pela novidade do assunto, e isso, aliado a procura que teve posteriormente, levou a intenção de compilar os artigos em forma de livro”, relata.

Racismo

Outro ponto de destaque em seu trabalho, foi com relação ao racismo encontrado por toda a região do Médio Tietê. “Não é à toa que chamo a região de “Mississipi Paulista”. Pode não ter havido o assassinato de negros como houve no Mississipi, mas a segregação havia em muitas ocasiões”, lamenta.

Em um dos artigos do jornal Tribuna das Monções, que também constará no livro, o professor relata uma passagem ocorrida em Porto Feliz que demonstra o racismo que havia por aqui. “Por volta de 1887, um grupo de 80 fazendeiros da cidade fizeram correr de Porto Feliz o vigário e o delegado de polícia, porque ambos protegeram uma negra que havia sido seviciada por um dos fazendeiros. Já imaginou isso? O delegado de polícia e o vigário? Ambos fugindo da cidade para não serem mortos”, relata. “O fato repercutiu em São Paulo (capital), sendo publicado no jornal “A Província de São Paulo” (atual O Estado de São Paulo) e em Sorocaba, no Diário de Sorocaba. E o mais interessante: a força pública (policiais da época) ficaram do lado dos fazendeiros”, diz.

Com relação a influência cultural, em suas pesquisas, o historiador encontrou a tradição do boizinho de carnaval, que, de acordo com ele, se assemelha muito ao Bumba-Meu-Boi, ao Boi Mamão e ao Boi Bumbá de outras regiões do Brasil. “Encontrei informações em Itu e em Porto Feliz que ligavam essa tradição aos negros. Inclusive, o famoso Cordão dos Bichos de Tatuí foi formado por um porto-felicense que levou o boizinho para aquela cidade”, informa.

O livro traz ainda temas sobre religião, organizações negras na cidade e tantos outros assuntos históricos sobre a comunidade negra na cidade. “Acho que o livro vai contribuir para que mais pessoas tenham acesso às informações. Agradeço ao Sindicato dos Professores das Escolas Municipais (Siproem) pela parceria para o lançamento do livro”, finaliza.

Algumas personalidades negras de Porto Feliz
Por Carlos Carvalho Cavalheiro

Porto Feliz registra, nas páginas de sua História, importantes personalidades negras que contribuíram para a formação da cidade. Publicar os traços biográficos dessas personalidades negras, além de tudo, evidencia os referenciais positivos de efetiva participação da população negra na História porto-felicense. É óbvio que este espaço não dará conta de todas as pessoas que tiveram real importância para a cidade. Nem poderia ter tal pretensão, mas sim a de ofertar um norte para quem queira iniciar uma pesquisa mais aprofundada e verificar, com grata surpresa, em quantos campos distintos se deu essa contribuição.

Perceberá o leitor que, vez ou outra, o nome de uma personalidade figurará com escassos dados, ou melhor, com apenas algumas pistas sobre a sua vida. São lacunas que não se pôde preencher, a despeito de longa pesquisa em vários arquivos e fontes. Somente para ilustrar o que aqui se diz, registre-se que não se possui, ainda, a data certa do falecimento do professor Roque Plínio de Carvalho, que ocorreu em Itu entre 1930 a 1940, segundo o pesquisador Romeu Castelucci. Compulsou-se o livro de Registro de Óbitos da cidade de Itu nessa época e tal pesquisa não logrou resultado. Em suma: não se tem a data exata do falecimento de tão importante personalidade para a História de Porto Feliz.


Professor Roque Plínio, apesar de sofrer na pele o preconceito, não fazia distinção entre seus alunos

Roque Plínio de Carvalho nasceu em 10 de dezembro de 1884 em São Paulo. No início do século XX, já como professor, instalou-se em Porto Feliz. Na ata de instalação da Santa Casa de Misericórdia de Porto Feliz, datada de 12 de julho de 1908, o nome de Roque de Carvalho aparece como um dos sócios fundadores. Na mesma época, Roque foi professor do recém-fundado Grupo Escolar (hoje EMEF. Coronel Esmédio), cujo diretor era Amadeu Mendes. Foi professor substituto, sendo nomeado, por decreto de 9 de março de 1909, professor adjunto. Em julho de 1908 teve seu nome preterido para ocupar a direção do referido Grupo Escolar por ser negro. Diz-se que foi comentado na época: “Como querem nomear um mulato! Isto é uma vergonha para os professores brancos...”. Ocorre que o professor era um intelectual de estirpe. Num feriado de 13 de Maio, no ano de 1919, numa reunião que ocorreu no sítio do prefeito Eugênio Mota, com a presença de duas dezenas de pessoas da elite porto-felicense, o professor Roque Plínio recitou poesias em italiano, um dos idiomas que dominava. Colaborou em diversos jornais da cidade, tendo fundado o “Imparcial”. Foi também redator do jornal “O Novo Porto Feliz” até 1920. Nessa época, Roque Plínio já residia em Porto Feliz, na rua Dr. Altino Arantes, nº 57. Ainda em 1919, o professor Roque foi segundo secretário do Club Recreativo Progresso – do qual fora um dos fundadores – quando da anexação do Grêmio Dramático a esse Clube. A partir daí passou-se a chamar “Grêmio Dramático do Club Recreativo Progresso”. Curiosamente, esse clube se converterá no Clube Recreativo Familiar que ficará famoso por impedir a entrada de negros em seus bailes.

Roque Plínio de Carvalho fundou um externato em 1909, instalado na rua José Bonifácio. Era uma escola particular, noturna, primária e secundária, e que tinha por objetivo, segundo Romeu Castelucci, “preparar os jovens que pretendiam ingressar em Faculdades ou Escolas Normais”. O externato foi batizado de “João Francisco Monteiro” e pelo que se depreende da foto em que o professor aparece rodeado de seus alunos, atendia a estudantes de todos os matizes e etnias. Faleceu em Itu, entre as décadas de 1930 a 1940, segundo acredita o pesquisador Romeu Castelucci. Em 6 de janeiro de 1967, por meio da Lei 9613, o Grupo Escolar da Fazenda Capoava recebeu o nome de “Roque Plínio de Carvalho”, em homenagem a esse eminente professor. A iniciativa partiu do deputado estadual Galileu Bicudo. Roque Plínio de Carvalho, também empresta seu nome para uma rua em Porto Feliz.

Outro personagem de destaque foi Zé de Lúcia. Seu nome era José Rodrigues do Nascimento, chamado de Zé de Lúcia por ser filho da ex-escrava Lúcia. Nasceu em 19 de agosto de 1889. De espírito galhofeiro, possui em sua biografia uma infinidade de brincadeiras e zombarias que aprontou. Uma delas, que ficou famosa, foi a de deixar a corda do sino da igreja Matriz para fora, em combinação com Luiz Gonzaga que amarrou um pedaço de carne na ponta da corda para que os cães vadios puxassem-na fazendo dobrar o sino altas horas. Zé de Lúcia, nessa época, era sacristão do padre José Ilídrio (conhecido como Padre Jica). 

José Rodrigues do Nascimento foi sorveteiro. Vendia sorvetes que ele mesmo fabricava em sua casa. Posteriormente, adquiriu um trole para transporte de passageiros que chegavam à cidade pela Estrada de Ferro. Logo em seguida, comprou um Ford “bigode”, tornando-se o primeiro motorista de praça (taxista) de Porto Feliz. Como músico, participou da Banda União Portofelicense e do Jazz Ba-ta-clan. Deste último foi chamado de “mentor, a alma e vida, esteio e estuque, alicerce...”.  Faleceu em 17 de outubro de 1972.

Por Toledinho era conhecido o negro Benedito Toledo Viegas que ficou conhecido por ter uma carroça com a qual realizava transportes. Foi músico da Banda Euterpe, dos anos 1920 a 1960. Residia no final da rua da Laje (atual rua Luiz Antonio de Carvalho) e, diziam, possuía um terreno na continuação desta, um elevado que ficou conhecido como “Morro do Toledinho”. 

Próximo à sua casa realizavam-se os batuques da rua da Laje até mais ou menos o final da década de 1950. Benedito Toledo Viegas é nome de uma rua em Porto Feliz.

Gumercindo Henrique Souza foi músico da Banda Prateada e da Banda União. Tocava baixo, bateria e trombone. Nasceu em 22 de março de 1916 e faleceu em 20 de novembro de 1960.

Benedito Antunes Toledo aparece como primeiro presidente da Tenda de Umbanda Vovó Catarina, fundada em 1966.  A dirigente espiritual dessa Tenda foi a negra Salvatina de Toledo Paes, conhecida tanto pela liderança religiosa como pelo exercício da caridade. Salvatina de Toledo nasceu em Porto Feliz em 4 de fevereiro de 1910 e faleceu em 9 de janeiro de 1975, sendo sepultada no Cemitério de Porto Feliz.

José Bahia promovia a festa de comemoração do 13 de Maio, em Porto Feliz, nos anos iniciais do século XX. 


Salvatina de Toledo, dirigente espiritual da Tenda de Umbanda Vovó Cataria
No primeiro plano, Antonio Viana, Dendém

No tempo da escravidão, destacam-se os nomes de Adão, Preto Pio e Guiné. O primeiro, porque não se sujeitou ao cativeiro e durante a fuga acabou por matar o fazendeiro Francisco Gonçalves de Oliveira, que o perseguia. Isso ocorreu em fevereiro de 1879. O segundo liderou uma fuga de escravizados de Capivari e ao passar por Porto Feliz teve de se retirar de uma escaramuça montada na praça da Matriz. Sob a liderança de Pio, os escravizados conseguiram fugir dos soldados sem que houvesse qualquer baixa. Esse episódio ocorreu em fins de outubro de 1887. Em novembro, Preto Pio morreu fuzilado por escolta militar destacada no caminho para a Serra de Cubatão, porta de entrada para o Quilombo do Jabaquara.  Guiné era o apelido de um escravo chamado Alécio, famoso por ser artista plástico. Apesar de residir em Itu, Guiné ficou conhecido em Porto Feliz por ter pintado, em 1857, as obras sacras “Bodas de Caná” e “Última Ceia”. Esses quadros pertencem ao acervo do Museu Histórico e Pedagógico das Monções e o ateliê do artista plástico Julio Moraes se propôs a realizar a restauração dos mesmos. 

Claudinei Roberto de Arruda era o nome de batismo do mestre de Capoeira Betão, nascido em 1969. Betão ensinou capoeira no Colégio Externato São José, Academia Silvana Yara e em projetos sociais nas escolas da rede pública. Betão era segurança (vigia) na empresa Degradê, quando num assalto foi morto com três tiros no dia 25 de março de 2005. Entre as pessoas que aprenderam capoeira com Betão se destaca o hoje mestre Afonso Celsun de Arruda. Betão pertenceu ao Grupo de Capoeira Regional Paulista. 

Olympio Moreira da Silva era sargento e foi militante da Frente Negra Brasileira. Presidiu a primeira reunião de instalação dessa organização na cidade de Porto Feliz. Na oportunidade, proferiu uma conferência com o tema “Negros Primitivos – Motivo da Escravidão – Palmares – Liberdade dos escravos”.  Essa reunião ocorreu no dia 19 de outubro de 1931. Olympio Moreira esteve também presente na instalação do conselho da Frente Negra de Sorocaba, em 2 de abril de 1932. No dia 28 de abril foi designado como delegatário especial da Frente Negra de Sorocaba.  Olympio Moreira foi encarregado da fundação das Delegações da Frente Negra de Itu, Porto Feliz e Tietê.

Maria Gerúncia de Jesus fazia parte da primeira diretoria da Frente Negra de Porto Feliz na qualidade de tesoureira. Na posse da diretoria, ela se pronunciou dizendo que “estava disposta a trabalhar pelos interesses sociais, [...] solicitando o sacrifício da própria vida, se possível, para ver bem alta a Bandeira desfraldada pelos negros de Porto Feliz”. 

Antonio Vieira, conhecido por Toninho Vieira, foi um dos responsáveis pela exibição dos batuques na rua da Laje.   Isso lá pelos idos da década de 1950.
Angelina Toledo Machado nasceu em 1899, em Capivari. Veio para Porto Feliz ainda criança, com o fito de trabalhar na roça. Filha de escravizados, Godêncio Dias de Toledo e Benedita Ferraz, trabalhou durante longos anos na coleta de papelão pelas ruas da cidade, o que lhe rendia o sustento da família, mas, também, a amizade de muitas pessoas tornando-se bastante popular.

Há a história de uma operária negra da Fábrica de Tecidos Nossa Senhora Mãe dos Homens, que pela sua beleza conquistou o coração do engenheiro químico da empresa, um italiano. Quem conta a história é a senhora Maria Aparecida Coelho de Oliveira Castilho: 

“Vou mencionar essa senhora negra que trabalhou na Fábrica N. S. Mãe dos Homens, que se casou com um italiano, engenheiro. Eu na minha imaginação, para mim era um conto de fadas lindo, porque eu nunca vi, nos contos, uma princesa negra. Ele tirou ela da Fábrica para se casar. Eu achei tudo muito lindo [...] O pouco que conheci essa senhora, para mim, a beleza dela, era de uma educação finíssima, o sorriso contagiante, sua educação se estendeu até hoje pelos seus filhos”. 
Outro personagem instigante foi Benedito Galvão do Amaral, conhecido por Madalena, nome de sua mãe. Ele foi criado pela família do Coronel Esmédio. Dizem que participou, em 1924, das revoluções tenentistas, engajando-se na Coluna Prestes. Combateu, também, na Revolução Constitucionalista de 1932. Por ter pés enormes, costumeiramente andava descalço, mesmo quando trabalhava como porteiro do Cine Central. O saudoso Ari Pimenta contava que quando alguém se punha a gargalhar descontroladamente, dizia-se, em Porto Feliz: “Está dando uma de Madalena!”. Isso porque o negro Madalena nem sempre conseguia controlar as suas sonoras e prolongadas risadas. Benedito Galvão foi treinador do Esporte Clube União. Residia no Hotel Central. Faleceu no dia 02 de fevereiro de 1967.

João Xará era guarda da Estrada de Ferro Sorocabana e nas horas vagas cortava e ensebava vara de pescar.   Participava como músico de uma banda de bailes do maestro Romário Antonio Barbosa.

O maestro Romário nasceu em 29 de maio de 1913 em Capivari. Filho de Luiz Antonio Barbosa e de Benedita Rosalina de Melo Barbosa, Romário tornou-se um dos mais respeitados músicos da cidade, emprestando o seu nome para a Escola Municipal de Música. Pertenceu à Banda Bandeirantes e foi um dos mais atuantes professores de música da cidade. Romário Antonio Barbosa era casado com Lucila Alves de Oliveira, de cujo consórcio nasceram três filhos. Faleceu aos 85 anos de idade no dia 18 de fevereiro de 1999.


Romário Antonio Barbosa era autodidata e ensinou música para mais de 1.500 porto-felicenses

Manoel José de Calazans foi um maestro, nascido por volta de 1867 em Jundiaí. Em Porto Feliz, casou-se com Delmira Maria de Camargo Calazans, com quem teve oito filhos (cinco mulheres e três homens). Foi um dos fundadores da Corporação Musical Banda União, em 1898. Faleceu em Porto Feliz em 16 de outubro de 1919. Voltaire Torres foi outro importante maestro que nasceu em 16 de abril de 1902 e faleceu em 12 de novembro de 1974. Foi maestro da Corporação Musical “Banda Bandeirantes”, e compositor do Hino da Escola “Coronel Esmédio”.

Nego Véio é a alcunha de um tipo popular, do qual só se conseguiu a informação de sua existência e de uma foto que pertence ao acervo do Museu Histórico e Pedagógico das Monções. 

Francisco de Arruda Campos foi um importante músico. Tinha a alcunha de Chico da Cristina, sendo este último o nome de sua mãe. Pertenceu à Corporação Musical União Portofelicense. Seu filho, José de Arruda Campos, chamado de Sansão, era músico da Banda Bandeirantes. 

Benedita de Arruda era famosa benzedeira, nascida em Monte-Mór. Residiu em Porto Feliz até o seu falecimento, o qual se deu quando ela contava com mais de 100 anos de idade. 

Nhô Melo e sua esposa Gabriela era um casal de negros que vendiam doces em frente da Igreja Matriz ou de circos que visitavam Porto Feliz. Os doces eram confeccionados por eles mesmos e vendidos em tabuleiros. 

A professora Evanilde Aparecida de Camargo Maceió nasceu em Rafard no dia 1º de maio de 1962. Filha de Benedito Julio de Camargo e de Suzana Oliveira de Camargo, Evanilde cursou o Ensino Médio e o Magistério na Escola Estadual Monsenhor Seckler. Licenciou-se em Pedagogia pela CEUNSP de Itu em 2002. Foi operária, por três anos, na Fábrica de Tecidos Nossa Senhora Mãe dos Homens. Trabalhou ainda na Metalúrgica Schadek e no Escritório Bandeirantes. Em 1995 iniciou sua carreira no magistério na Rede Municipal de Educação Infantil. Foi diretora dos CEIMs Pedro José Moreau e Profa. Nair Coli de Moraes. Faleceu em 31 de dezembro de 2003, aos 41 anos de idade. Pela lei 4543 de 05 de dezembro de 2007 foi criado o Centro de Educação Infantil Municipal do Jardim Santa Rosa, o qual recebeu, pela mesma lei, o nome de CEIM Professora Evanilde Aparecida de Camargo Maceió.

Esta lista não tem fim, como já foi dito. Mas serve para mostrar que em todas as áreas, seja na Educação, na Arte, na Cultura, enfim, em todos os setores da nossa sociedade, Porto Feliz sempre contou com a participação da nossa gente negra.

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