• Quarta-Feira, 19 de Dezembro de 2018
  • Porto Feliz - Bom dia

A FILHA DE SÃO JOSÉ

Videos_01

A FILHA DE SÃO JOSÉ

O SIM DE UMA VIDA INTEIRA

Muitas Vezes, escolher uma profissão é uma missão muito difícil para um adolescente, imagine então, optar pela vida religiosa nesta idade, como, por exemplo, se tornar madre. Aos 16 anos, Leonor Guarda, conhecida como Irmã Conceição, nome que adotou ao entrar para a Congregação das Filhas de São José, aceitou seu chamamento e disse o seu SIM, deixando sua família em Salto e se mudando para São Paulo, onde começou a seguir o que tinha escolhido para si. Filha de Innocêncio Guarda e Júlia Froner Guarda, e com mais dois irmãos Geraldo e Maria de Lourdes (ambos já falecidos), Irmã Conceição, hoje aos 93 anos, morou em Porto Feliz durante 2 períodos, totalizando 26 anos, período em que ensinou centenas de porto-felicenses que passaram pelas carteiras das salas de aulas do Externato São José. 
Nesta Entrevista, Irmã Conceição fala sobre seu relacionamento com a vida religiosa, sobre seus alunos e também sobre o processo de canonização de sua irmã, Maria de Lourdes Guarda, que deve acontecer em breve. Confira!

Como conheceu o Instituto das Filhas de São José?
Eu tinha 12 anos e morávamos em Salto. As irmãs chegaram à cidade no dia 7 de novembro de 1936. Éramos uma família muito religiosa, assim, fomos assistir a inauguração da casa das madres. Neste dia, alguma coisa já havia tocado meu coração. Meu irmão caçula, o Geraldo, começou a estudar no colégio. Ele tinha 6 anos e eu o buscava e levava à escola, quase sempre. Minha outra irmã, a Maria de Lourdes estudava no colégio interno de Nossa Senhora do Patrocínio, em Itu. Comecei a frequentar o colégio, no curso de bordados, na catequese que as irmãs davam... tudo isso foi fortalecendo em mim o chamamento para minha vida religiosa.

Como foi este chamamento?
As coisas vão acontecendo à medida que nos envolvemos cada vez mais naquilo que fazemos. Então, quando eu tinha 15 anos, já habitava em mim este desejo de ser freira. As irmãs do colégio já haviam conversado comigo e já haviam também pronunciado sobre a minha vontade de seguir esta vida, aos meus pais. Em 1939, veio a madre geral da Itália para a casa de Salto, na ocasião, conversamos e aceitei o convite para ingressar no Instituto. No ano seguinte, em 17 de março de 1940, completei 16 anos e, no dia 31 do mesmo mês, fui para São Paulo junto com as madres.

No Brasil, o Instituto das Filhas de São José começou em São Paulo?
Não. A primeira casa no Brasil foi em Santa Rita do Passa Quatro, fundada em 12 de junho de 1927, que funciona até hoje, onde também funcionou um orfanato por muitos anos. A Segunda casa é a de Vila Matilde, em São Paulo, fundada em 15 de outubro de 1934. É lá que funciona toda coordenação do Instituto no País. Em maio de 1933, antes da fundação da casa de Salto, foi fundada a casa de Ribeirão Pires, que encerrou as atividades recentemente. Um ano depois, no dia 24 de agosto de 1934, foi fundada a casa de Porto Feliz. Meu primeiro contato com as madres foi em 1936, devido sua ida à cidade na qual eu nascera e, em março de 1940 entro para o Instituto, na casa de Vila Matilde.

Então, a senhora é mais velha que a própria instituição no Brasil.
Sim, tenho 93 anos de idade e o Instituto está no país há 90 anos, completados este ano.

Como foi esta aceitação para os seus pais?
Meus pais eram muito católicos, iam à missa todos os dias, tanto que nos deram uma formação religiosa muito rígida. A aceitação foi natural, dentro desta convivência, porém, sentiram muito com a minha partida. Agora seria somente o filho caçula, que tinha apenas 10 anos de idade. Meu pai sentiu muito mais que minha mãe, éramos muito ligados, andávamos de trem para cima e para baixo... No dia em que a madre veio me buscar, ele não foi até a Estação se despedir, não conseguiu. Ficou em casa, chorando muito. Não foi fácil para mim, vê-lo assim. Sabe, quando a gente escolhe seguir o chamado de Deus, precisa ir. 

Houve alguma mágoa?
Foi uma entrega total não só minha, mas também dos meus pais. De forma nenhuma ficou alguma mágoa, a dor da partida foi tão somente no dia da despedida. É uma hora de incertezas, uma hora em que se rompe definitivamente o cordão umbilical e a lágrima cai porque precisa cair.

Como foi em São Paulo?
Fiquei sob os cuidados de uma madre chamada Romana, que foi uma das fundadoras do Instituto no Brasil. Uma madre que cuidou de mim como se eu fosse sua filha, guardo comigo muitas lembranças boas com ela. Bem, cheguei a São Paulo em 31 de março de 1940. Em junho deste mesmo ano fui, junto com outra madre, para Santa Rita do Passa Quadro, fazer um retiro espiritual que, na verdade, é um momento de reflexão para saber se esta escolha é realmente o que queremos para as nossas vidas. Chegando lá, encontrei a mestra de noviças, Maria José Meirelles. Em Santa Rita era realizada a fase do Noviciado, que é a primeira incursão para se tornar freira. Terminado o retiro, voltamos para Santa Rita. A mestra Maria José veio com a gente para Vila Matilde, junto com mais uma noviça, pois não haveria mais o noviciado em Santa Rita. Assim, iniciamos o primeiro noviciado em São Paulo, no ano de 1940. Depois, fiz um estudo particular, chamado de Abdicação, para poder dar aulas. Concluí os estudos na Vila Matilde e adquiri o meu Certificado de Habilitação que, naquele tempo, poderia até ser Diretora de Escola com ele. Fiz a minha primeira profissão de fé em 19 de janeiro de 1943, aos 19 anos. Fiquei na Vila Matilde até 1946, ano em que fui transferida para a cidade de Porto Feliz, no dia 2 de julho, eu tinha 22 anos.

Então, eis que a senhora encontra Porto Feliz...
É tanto tampo... Em Porto Feliz, comecei a trabalhar com a Irmã Rosália. Não havia uma sala de aula para mim, então, trabalhava com ela, auxiliando com os alunos e, também, dando aula naquilo que fosse preciso. Mais tarde, passei a ter uma classe para dar aulas.


Visita da Madre Geral em Porto Feliz, no ano de 1952. Em pé, da esquerda à direita: Ursulina, Raimunda, Conceição, Celestina. 
Sentadas: Liliana, Virgília e Clélia

Voltar para o interior, próximo de sua terra natal, como foi este momento?
A decisão da superiora foi, para mim, repentina, pois não esperava. Mas foi uma aceitação muito plena, pela proximidade da família. Com isso, meu pai, por diversas vezes, vinha me visitar em Porto Feliz. Minha irmã, nas férias escolares, também me visitava com frequência para colocar a prosa em dia. Foi um período muito gostoso.

Durante seu processo de formação religiosa, em São Paulo, a senhora tinha contato com a família?
Tinha, mas não muito. Era muito raro, até mesmo pela dificuldade da época, comparado aos meios de comunicação atuais e transportes. Passamos a nos ver mais quando fui transferida para a casa em Porto Feliz.

Não houve o desejo de morar em Salto, na casa das madres de lá, por ser a sua terra natal?
Estranhamente, não. Tanto é que eu nunca morei na casa de Salto.

Por quanto tempo morou em Porto Feliz?
Foram dois períodos, o primeiro de 1946 a 1960, portanto, 14 anos; e o segundo, de 1970 até 1982, 12 anos. No total, morei em Porto Feliz por 26 anos.


Na ordem, as irmãs:1-Savina, 2-Fortunata, 3-Armida, 4-Conceição, 5-Nazarena, 6-Maria José Meirelles, 7-Virgilia, 8-Plaudila e 9-Ursulina; e as crianças do orfanato

Conte-nos um pouco deste período.
A primeira vez em que estive em Porto Feliz, era um casarão velho quando cheguei. Tinha uma turma de órfãs que moravam na casa. Vivíamos muito bem, cuidávamos das meninas que moravam no orfanato e dividíamos os afazeres com as demais freiras. Neste intervalo de tempo, a madre geral visitou Porto Feliz e viu que a situação em que estava o casarão era muito precária para continuarmos com os trabalhos. Então, ela foi falar com o padre para que ajudassem as irmãs, se quisessem que continuássemos na cidade. Foi desta iniciativa que, tão logo, construíram a Casa das Crianças de São José e também o Externato São José, ocupando o lugar do casarão que havia sido demolido. Eu estava em Porto Feliz neste momento... acompanhei todo este processo de mudança.

Quantas freiras moravam na casa de Porto Feliz, nesta época?
Éramos cinco: eu, a Ir. Rosália, Ir. Júlia, Ir. Savélia e Ir. Feliciana, todas dedicadas ao trabalho de educar, cuidar das crianças, das órfãs, além de toda administração. Apesar da hierarquia, éramos unidas e desempenhávamos, praticamente, as mesmas funções.

Por que voltou para São Paulo?
Em 1960, a madre superiora me chamou para Vila Matilde, por conta de uma irmã que estava muito doente. Esta irmã dava aulas num colégio em Vila Esperança, um bairro próximo, e precisou ficar em Vila Matilde, devido à gravidade de sua doença. Então, assumi o seu lugar em Vila Esperança, no colégio dos padres. Éramos contratadas para dar aulas lá. E lá fiquei por 10 anos. E, em 1970 voltei para Porto, novamente.
Reencontrando Porto Feliz num novo momento...
A cidade, bem como o colégio local, havia mudado muito, era totalmente diferente. Nesta década de 60, o progresso transformou Porto Feliz. Então, comecei a trabalhar na secretaria da escola, já existia uma organização interna mais eficaz, pessoal contratado para funções administrativas, professores... Era uma outra realidade.  Além das aulas de primeiras letras que lecionava, passei também a ajudar na paróquia com o Cônego Guize. O padre, às vezes, viajava e o pessoal me chamava para atender os doentes na Santa Casa, levar a Comunhão para as pessoas enfermas... Lembro-me do Seu José Fernandes, que vinha me buscar para ir às casas levar a Comunhão aos domingos...

E quando se mudou para Santo André?
Em 1982, com o Capítulo, que trata da eleição de novas gestoras do Instituto, fui eleita Secretária, então voltei para São Paulo e fui morar em Vila Alpina, em Santo André, numa outra casa do Instituto, fundada em 1970. Neste ano, a Irmã Querubina foi eleita Vigária do Brasil. Exerci a função de Secretária do Instituto no período de 1982 a 1988, ano em que a Irmã Isabel foi eleita Provincial. Voltei para a Vila Matilde, onde morei até 2002. Desde então, resido em Santo André.

São 75 anos de dedicação a Deus e à vida religiosa. O que isso representa?
Digo sempre que foi uma vida muito gratificante, tudo que me propus a fazer, foi com muito amor, muita alegria... Sou muito feliz por Deus ter me concedido tempo suficiente para fazer tudo que fiz... Tornaria a fazer tudo igual, sem arrependimento algum. 

Lá, no comecinho desta longa caminhada, houve alguma dúvida?
Dúvida, dúvida não, mas que a gente sente às vezes algumas tristezas, isso acontece, como acontece com todo mundo. Mas eu sempre superei tudo isso, nunca ficou nenhum mal resolvido pelo caminho.

Vamos voltar em Porto Feliz... Foram 2 períodos, de 46 a 60 (14 anos) e de 70 a 82 (12 anos) somando, portanto, 26 anos de convivência e primeiras letras de muitos porto-felicenses que hoje estão todos adultos, tocando suas vidas. Guarda ainda o rostinho de todos eles?
Nunca me esqueci de nenhum dos meus alunos. Ainda tenho viva a lembrança de cada um deles na memória.

Como é a sensação quando encontra um deles, que há muito tempo não se veem?
Emocionante. Mesmo adultos formados, mulheres crescidas, homens barbados, vejo em cada um aquele rostinho de criança. Não consigo vê-los crescidos, olho para eles e ainda vejo a criança que um dia conheci. Alguns deram muito trabalho, estes ficam marcados para sempre.

Alguma lembrança que marcou muito nestes encontros?
Havia um aluno, um menino desde criança muito levado, peralta, brigava com todos. Um dia o chamei, sentei com ele e disse assim: “meu filho, se você continuar assim, quando crescer, você vai parar na cadeia, já pensou?” Foi uma conversa para acalmá-lo, fazê-lo refletir sobre seu comportamento... Era uma criança com problemas familiares sérios, precisava de minha atenção. Eu tinha muita pena dele, doía em mim, não poder ajudá-lo tanto quando deveria ser ajudado. O tempo passou, nossas vidas tomaram rumos diferentes, nunca mais o vi.
Num dia comum, alguém toca a campainha aqui em Santo André, onde eu já estava morando. Era um moço que queria me ver, dizia ter sido meu aluno. O reconheci assim que o vi. Ele ficou mais de 2 horas conversando comigo, contou que ficou por muito tempo preso, por um crime que havia cometido... Trouxe um presente para mim, que fez na cadeia, e disse que nunca havia me esquecido. Choramos, o vi ali criança novamente, naquele dia em que o aconselhava há muitos anos atrás. Me vi sua professora de novo e pedi mais uma vez que ele olhasse para o futuro, que deixasse as coisas erradas para trás... Quando ele foi embora, já não era mais o mesmo menino briguento. Aquilo me fez muito bem. 

Interessante que, mesmo os mais revoltados, nunca esqueceram a senhora. Por quê? 
Apesar de, antigamente, a educação ter sido mais rígida, eu não tinha tanta coragem de ser autoritária. Não estava em mim, ser alguém assim. Por toda minha vida, sempre acreditei que as pessoas aprendem muito mais pelo amor do que pela dor. 

Houve tribulações?
Nesta vida a gente procura estar mais atenta naquilo que está fazendo. Uma vez que você aceitou seguir o chamado, precisa estar sempre vigilante à vivência deste SIM. 
Tribulações todo mundo tem. Ainda que houvesse, pela vida religiosa a tribulação é uma aceitação de prova de que este é realmente o caminho a ser seguido. Na história da igreja, não há um santo se quer que não tenha enfrentado grandes provações na vida. Se a gente recorre a Deus, Ele vem e acalma a tempestade.

Por falar em santos, a sua irmã Maria de Lourdes, aquela moça que estudava no colégio do Patrocínio, em Itu, hoje já falecida, está no decurso de um processo de canonização, prestes a se tornar Santa da Igreja Católica. Conte-nos um pouco desta história.
Ela queria entrar para o Instituto das Filhas de São José, seguir a vida religiosa junto comigo. Assim que concluiu o internato, lecionou no colégio São José de Salto e me falou de seu desejo de ser freira também, assim como eu. Porém, como ela tinha muitas dores nas costas há certo tempo, ela procurou um médico que a orientou se tratar antes que entrasse para a vida religiosa. Ela tinha 21 anos. Fez os exames em Sorocaba e em Campinas, que identificou um problema na coluna que precisou de intervenção cirúrgica. Ela tinha um grande amigo, estudante de medicina, Archimedes era o nome dele, que a orientou a fazer o tratamento em São Paulo. Então, fez a 1ª cirurgia, voltou para casa, veio me ver em Porto Feliz, mas ela dizia que a dor ainda incomodava um pouco e que precisaria de outra cirurgia. Isso foi em 1947. Na segunda cirurgia, ela nunca mais voltou. No decorrer de 5 anos, passou por seis operações, a última eliminou de vez qualquer esperança. Com um pé já gangrenado e a perna direita amputada acima do joelho. Até hoje não se tem claramente o que aconteceu nesta cirurgia que a deixou paralisada da cintura para baixo, a ponto de não poder sequer se sentar.  Dos 23 anos em diante, passou sua vida deitada numa cama do Hospital Matarazzo, onde os médicos que a tratavam se empenharam para que ela tivesse todo conforto possível e permanecesse no hospital. Ela nunca mais voltou para casa. Sua vida foi no Hospital Matarazzo, onde morou até o seu falecimento, mesmo depois do fechamento do hospital. Archimedes jamais saiu do lado dela.

Quer dizer que o hospital fechou e ela continuou lá?
Sim. Inclusive, quando uma das últimas diretorias do hospital quis aumentar o preço, a Condessa Matarazzo interveio pessoalmente para que fosse mantido como estava, enquanto Lourdes vivesse. E lá foi seu novo lar, até o dia 5 de maio de 1996.

Inválida, numa cama de hospital por tanto tempo, o que ela fazia?
Ela jamais, em toda sua vida, aceitou sua invalidez. Aceitou sim a perda da locomoção, mas nunca se viu inválida. Era uma mulher cheia de esperança, disposta a tentar tudo que lhe propunham para que ela pudesse, ao menos, se sentar numa cadeira de rodas. Frustradas as esperanças, ainda encontrou forças para não se abater no desespero. Assumiu sua condição e a paz de quem descobre que o verdadeiro sentido da vida vai muito além dos limites do corpo a encontrou.

Que SIM sofrido este o dela... Quando ela resolve seguir o caminho de Deus, vem esta provação, este difícil chamado...
Depois de anos de uma luta em vão para tratar de sua saúde, ela enfim, aceitou o seu sim, o seu chamado. Ela nunca se ordenou freira, mas sua vida de dedicação ao próximo foi muito além do que se ela tivesse entrado para o convento. Isso faz dela a santa que é! A casa do Senhor tem muitas moradas.

Como surgiu o processo para a sua canonização?
Foi na diocese de Salto, nossa terra natal. Eles fizeram todo levantamento, todo histórico e pesquisa de sua vida, testemunhos de fiéis que dedicaram a graça alcançada à Maria de Lourdes Guarda. Juntaram tudo e encaminharam ao Vaticano. Anos depois, os padres peritos, jurídicos, vieram investigar a documentação. Exumaram seu corpo, entrevistaram todos os envolvidos... Toda lembrança vem à tona... O dia de sua morte... Foi comigo que ela faleceu, naquela tarde, às 18h25 de um domingo, no hospital. Eu era a sua única família e estava ali presente para me despedir.

Qual a sensação de saber que esta sua irmã se tornará Santa?
É uma emoção muito grande. Pensar que uma irmã que, na juventude gozou de uma vida normal, como qualquer jovem, quando decide entregar sua vida a Deus, o seu SIM muda completamente sua história. É uma emoção indescritível. Não seguimos juntas neste caminho religioso, nos víamos raramente, mas, de certa forma, sempre fomos fiéis ao nosso chamamento.

Irmã Conceição: 93 anos de idade, 75 de vida religiosa. A família toda, e a maioria dos amigos, já partiram para a casa do Pai. A missão cumprida. O que alguém que alcançou tudo na vida, que chegou lá, pode ainda esperar?
Às vezes, fico pensando... (...) Deus é quem sabe. Mas seria mais uma graça em minha vida, estar viva para ver minha irmã se tornar Santa.

Enquanto isso, o que faz para passar o tempo?
Palavras-cruzadas. (risos)

Pra finalizar, qual a mensagem a senhora passaria para essa geração tão esquecida de Deus, de vida religiosa? O chamamento ainda existe?
Peço a Deus que as pessoas que sentirem o Seu chamado, que possam ter muito cuidado em pedir a Deus para que este chamado se realize. Deus nos chama, às vezes a gente não quer ouvir. Sentindo o chamado, e tendo a convicção dele, que as pessoas não voltem atrás. Fazer com que a escolha seja da pessoa, porque muitos são chamados, mas poucos os escolhidos. E esta seleção está diretamente ligada à nossa capacidade de escolher seguir. 




UM QUARTO COM VISTA PARA O MUNDO
Maria de Lourdes Guarda foi para todos os que a conheceram, testemunho vivo da inesgotável fonte da vida que se expande para além do físico



Maria de Lourdes Guarda nasceu em Salto, Estado de São Paulo, aos 22 de novembro de 1926. Filha de Innocêncio Guarda e Júlia Froner Guarda. Estudou como interna no Colégio do Patrocínio, em Itu, lecionou em Salto, aos 18 anos de idade, no Colégio Congregação das Filhas de São José do Padre Luis Caburlotto. Sonhava em seguir os passos de sua irmã na vida religiosa, mas, primeiramente, precisava tratar um problema na coluna: uma lesão que lhe causava muitas dores. Foi operada com relativo sucesso em 12 de agosto de 1947, mas, como as dores não passaram, precisou se submeter a uma segunda cirurgia, que a deixou paralisada da cintura para baixo. Pode-se imaginar a reação de uma jovem cheia de vida e de planos para o futuro ao saber-se totalmente imobilizada numa cama, sem ao menos poder se sentar.

Assume sua condição de deficiente física e, embora deitada numa forma de gesso, com uma perna amputada e a outra atrofiada, trabalha para pagar sua diária no hospital, fazendo tricô e bordados sob encomenda. Seu quarto é um ponto de encontro e de atrações que reúnem não só amigos, mas pessoas que buscam consolo e ajuda para suas carências. Sua paz de espírito e sua alegria de viver – fazendo a vontade de Deus – se irradia cada vez mais para além das paredes do quarto do Hospital Matarazzo.

Desta época, seus amigos recordam de seu rosto sadio, corado, seus olhos azuis, brilhantes e de suas palavras: “A vida é boa demais!”.  Se engaja na Fraternidade Cristã de Doentes e Deficientes (FCD), um movimento internacional fundado na França, que ajudou a difundir no Brasil. Ao aceitar e assumir sua realidade paraplégica, abre espaço para acolher a graça de Deus, passando a ter a mesma experiência do Apóstolo Paulo, descrita em 2º Coríntios, 12,9: “Basta-te a minha graça, pois é na fraqueza que a força manifesta todo o seu poder.” Em 1980, foi eleita coordenadora nacional da FCD e, no ano seguinte, começa a viajar pelo país, formando grupos da fraternidade em todo território nacional, tudo graças à doações de passagens de uma empresa aérea, que incluíam os acompanhantes, médicos e enfermeira. Em 1992 terminou seu mandato com coordenadora da FCD e suas viagens cessaram – o movimento já estava semeado por todo Brasil. Faleceu em 5 de maio de 1996 e está sepultada no cemitério de Salto, no túmulo de sua família.

A todos que obtiverem graças por intercessão desta Serva de Deus, deve-se comunicar à Causa de Canonização 
SD. Maria de Lourdes: Caixa Postal 21 – CEP 13208-970 – Jundiaí/SP

Extraído do livro “UM QUARTO COM VISTA PARA O MUNDO - A vida de Maria de Lourdes Guarda (autores: Margarida Oliva e Guilherme Salgado Rocha). 
Aqueles que gostariam de adquirir um exemplar do livro, o telefone para contato é (11) 98155-4444 (falar com Sr. Geraldo / Editora GG Guarda)

Comentários